Os sete pecados capitais e a MPB

adriana0

— Parte III —

 

Cá estou, pecadora como sempre, combatente como nunca, a convidar você, leitor, a me acompanhar nestes próximos minutos por uma viagem que, se tem na superfície um sentido de entretenimento, traz no recheio a mão estendida para uma análise de espelho.

Neste passeio rápido que visita como a MPB canta cada um dos pecados capitais, chegamos à desagradável estação Avareza.

Segundo a lista criada por São Tomás de Aquino, lá pelos anos mil duzentos e poucos, cada um dos vícios capitais é responsável por criar alguns outros, formas para dar sustentação ao pecado-cabeça, os meios que justificam o fim. Melhor, os meios que provocam o fim. Da avareza derivam a traição, a fraude, a mentira, o perjúrio, a inquietude, a violência e a dureza de coração. E é parte disso que esta edição vai investigar.

Acho difícil começar por outra que não seja Pecado capital, de Paulinho da Viola, composição de 1975. A música foi uma encomenda do produtor musical Guto Graça Mello para novela de Janete Clair com mesmo nome. A letra já virou dito popular e fala do que importa mesmo na sociedade de classes: grana! “Mas é preciso viver / E viver / Não é brincadeira, não / Quando o jeito é se virar / Cada um trata de si / Irmão desconhece irmão / E aí / Dinheiro na mão é vendaval / Dinheiro na mão é solução”.

Um pulinho até 1990 e o encontro com Samuel Rosa e Chico Amaral em Esmola, música que reafirmou o sucesso da banda Skank e deu um respiro novo ao pop-rock nacional que àquela época já havia perdido fôlego. A dupla tratou de criar um protagonista que estampa sem esforço tipos espalhados por todo canto do planeta, o que se veste com as boas roupas da caridade, mas que em gestos e pensamentos está longe da compaixão, da empatia, da solidariedade: “Ele que pede, eu que dou / Ele só pede, o ano é mil / Novecentos e noventa e tal / Eu tô cansado de dar esmola / Qualquer lugar que eu passo / É isso agora…”.

No início dos 1940, Carmen Miranda foi a primeira artista brasileira a conquistar sucesso internacional: fama e reconhecimento de público e crítica. Ela se tornou uma das estrelas mais bem pagas de Hollywood e um dos ícones mundiais. Quem disse que é fácil administrar tudo isso? Junto com a glória vieram os boatos, as conversinhas que falavam da grana e das mudanças de comportamento: “Disseram que voltei americanizada / Com o burro do dinheiro / Que estou muito rica / Que não suporto mais o breque de um pandeiro / E fico arrepiada ouvindo uma cuíca”. Carmen teve, sim, algumas mudanças em sua rotina e preferências, como é de se supor, mas não queria que tudo se misturasse numa paçoca só, como se tivesse anulado todos os valores em nome das conquistas: “Nas rodas de malandro, minhas preferidas / Digo mesmo ‘eu te amo’ e nunca ‘I love you’ / Enquanto houver Brasil na hora da comida Eu sou do camarão, ensopadinho com chuchu”. A música foi uma encomenda a Luís Peixoto e Vicente Paiva para rebater a boataria, inclusive a provocada por velhos amigos que já não aguentavam mais morder os lábios a praticar outro pecado capital, a inveja.

Notícia do Diário Carioca de 7 de fevereiro de 1933: “Um dia, já no ano de 1927, Costinha (foto) sonhou que era milionário. Estava cheio das peles. Sentou ao piano e aproveitando a “bossa” fez uma marchinha chistosa, abundante de otimismo: Dinheiro em cacho. A realização da cobiçada “árvore das patacas” que dizem estar plantada nos jardins da Casa da Moeda”. Com a notícia publicada, vamos à composição de Costinha: “Eu só queria ter um governo / Que desse ao povo / Dinheiro em cacho / E que surgisse / Um mundo novo / Com a terra em cima / E o céu embaixo / Se por acaso tal acontecer / Que paraíso tão divinal / Então eu fico cantando e rindo / Na grande festa, o Carnaval”.

Em 2009, os Titãs lançaram Sacos Plásticos, que venceu o Grammy Latino de Melhor Álbum de Rock Brasileiro. Lá figurou a música de Sergio Britto e Tony Belloto, Amor por dinheiro, que trata de forma crua a questão avara. Talvez seja esta a que faz isso de maneira mais direta em toda a coleção de nossa música popular: “Acima dos homens, a lei / E acima da lei dos homens / A lei de Deus / Acima dos homens, o céu / E acima do céu dos homens / O nome de Deus / E acima da lei de Deus / O dinheiro”.

Peço licença para dar um pulinho de novo ali no início da década de 1940 para encontrar um Mário Lago contrariado com sua companheira do momento. Por razões, que não cristãs, ele vai apontando e condenando a vontade de ter da moça: “Nunca vi fazer tanta exigência / Nem fazer o que você me faz / Você não sabe o que é consciência / Não vê que eu sou um pobre rapaz / Você só pensa em luxo e riqueza / Tudo que você vê você quer”.

Na MPB é mais fácil, um milhão de vezes mais fácil, encontrar os artistas que se entopem de ideais, pés na estrada de chão, e vão cantar onde o povo está. Canários do reino que cantam em qualquer lugar ou os que não se amarram a dinheiro, não, tudo beleza pura. Ou os que com até alguma satisfação assumem a pobreza financeira. Ou ainda os que apontem as diferenças da sociedade como um fenômeno que se distancia de suas vontades de mundo.

O complicado é encontrar quem assuma de verdade as próprias expectativas na relação com a grana, quase ninguém confessa, próprio punho, as ambições. E é por isso que termino a coluna de hoje com os improváveis rapazes do Ultraje a Rigor. Roger Moreira tratou de desmistificar aquela coisa idealizada do artista que prescinde da grana para sobreviver: “Mim quer tocar / Mim gosta ganhar dinheiro (dinhero!) / Me want to play / Me love to get the money (the money!) […] Mim gosta tanto tocar / Mim é batuqueiro (conhero!) / Mas mim precisa ganhar / Mim gosta ganhar dinheiro (dinheiro!)”. 

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