Um espaço para a arte

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O suplemento Estado da Arte, do Estadão on-line, completa dois anos dedicados à alta cultura, políticas e ciências humanas fugindo da mediocridade da grande imprensa

 

O Estado da Arte, plataforma on-line hospedada no Estadão (https://cultura.estadao.com.br/blogs/estado-da-arte/), completou dois anos no ar neste 21 de setembro, consolidando-se como principal espaço de discussão cultural da grande imprensa brasileira.

Criado e editado pelo filósofo Eduardo Wolf, o Estado da Arte foge do atual padrão dos cadernos culturais da imprensa brasileira que hoje se dividem, regra geral e com as devidas exceções regionais, caso desta Ideias, “entre reprodução de releases das grandes editoras e pautas políticas tediosas”, nas palavras do Wolf.

Na plataforma é possível ler sobre Dostoiévski, a Filarmônica de Viena e teoria política, a partir de pontos de vista distintos, mas sempre pautados pelo bom texto. A Ideias conversou com Wolf sobre jornalismo, política e política cultural.

 

Como nasceu seu interesse pela cultura e qual sua formação?

Comecei minha formação no curso de Letras, na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, há 20 anos. Por circunstâncias muito particulares, acabei dando aulas rapidamente em alguns excelentes colégios de Porto Alegre, o que me afastou dos propósitos estritamente acadêmicos da minha formação inicial. Isso, combinado com um desgosto cada vez maior com as linhas de pesquisa dominantes à época ‒ uma tensão tola e inócua entre uma visão modista e superficial de Teoria Literária que mal deixava as roupas da estação do “pós-modernismo” e começava a se vestir com os novos e chamativos trajes dos “estudos culturais”, de um lado, e de outro uma visão canhestra e ideologizada de sociologia da literatura que se pretendia muito séria e sofisticada, mas que não resistiria a um curso de Great Books de um aluno primeiro-anista dos anos 1950 e 1960 ‒ levou-me a buscar uma alternativa de formação e de sequência na universidade fora do campo das Letras.

Novamente, em virtude de razões muito particulares, acabei indo parar no curso de Filosofia da UFRGS, que à época contava com um desses scholars raríssimos no país, Balthazar Barbosa Filho. Graças a ele, o curso era orientado para uma formação sólida nos grandes pilares da filosofia ocidental ‒ Platão e Aristóteles, Agostinho e Tomás, Descartes, Kant e Hegel, Frege, Russell e Wittgenstein. A abordagem era predominantemente analítica, e os cursos eram de alta qualidade, com muito rigor.

Ao longo desse período de formação, consolidei meus interesses sobretudo na Filosofia Antiga, especialmente Aristóteles e sua filosofia prática. Foi assim que acabei fazendo, sob a orientação do professor Marco Zingano, da Universidade de São Paulo, um mestrado e um doutorado na ética aristotélica.

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A maioria dos cadernos culturais dos jornais brasileiros trabalha com agenda, mais com programação do que com discussão da arte em si. O Estado da Arte parece seguir outro caminho. Qual a proposta do espaço e como surgiu a ideia de fazê-lo?

A ideia do Estado da Arte começou em fins de 2014, durante o meu primeiro ano de colaboração para a revista Veja. Chamava-se, originalmente, o Estado da Questão, e a inspiração era o blog The Stone, no New York Times, editado pelo professor da New School for Social Research, Simon Critchley. A ideia era ter um espaço para que intelectuais e acadêmicos das áreas de humanidades pudessem apresentar qual era o “estado da questão” (da expressão latina, mesmo) de suas pesquisas, especialmente tentando combinar isso com um olhar para os grandes debates contemporâneos. Nesse sentido, seria um pouco distinto do que ocorre com The Stone, que é muito mais focado em Filosofia.

Eu me mudei para Veneza naquele início de 2015, e estávamos com tudo pronto para começar, mas nosso entusiasmo coincidiu com a primeira onda de uma grande crise na editora Abril, e o projeto foi suspenso ‒ ainda que minhas colaborações com a revista Veja não, essas continuaram.

Nesse meio-tempo, Marcelo Consentino vinha desenvolvendo um projeto de nome Estado da Arte ‒ o cânone em pauta, que era baseado no programa da BBC Radio 4, In our Time. Apresentado por um brilhante jornalista, Melvin Bregg, este programa conta sempre com três grandes especialistas do universo acadêmico para apresentar, com o melhor nível de informação, temas em formato enciclopédico. Pode ser um programa sobre “Gravidade”, sobre “A Torá” ou sobre “Wittgenstein”, não importa: sempre um grande programa com os melhores especialistas, em uma conversa clara e acessível ao ouvinte culto. Marcelo reproduziu este podcast e, a ele, associou um site de “fontes primárias”: o Teatro do Mundo é nosso site com esse acervo de textos clássicos, disponíveis em texto e áudio.

Quando eu voltei de Veneza, Marcelo e eu começamos a juntar os esforços e, sob o nome Estado da Arte, lançamos o projeto no Estadão. A primeira postagem ocorreu em 21 de setembro de 2016, há dois anos, portanto.

O Estado da Arte, então, nunca se inspirou nos modelos dos cadernos culturais tradicionais. Minha ideia nasceu, se desenvolveu e se consolidou no universo digital. Além disso, nosso modelo sempre foi mais acadêmico e clássico, como os modelos do New York Times e da BBC que eu mencionei acima, deixam bem claro.

Isso não quer dizer que não tenhamos bons modelos de suplementos culturais: o icônico Suplemento Literário, do próprio jornal O Estado de S. Paulo, é um grande exemplo. De certa forma, o Estado da Arte está tomando esse formato: hoje, é cada vez mais um suplemento cultural digital, com cada vez mais e melhores acadêmicos e pesquisadores expondo seus trabalhos e dialogando com o grande público. Nesse sentido, o Suplemente do Estadão, dos tempos de Antonio Candido e Décio de Almeida Prado, é uma inspiração, como o são as revistas New York Review of Books e New Criterion, nos Estados Unidos, e Times Literary Supplement, na Inglaterra.

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Como você analisa o jornalismo de cultura e o debate cultural no Brasil hoje?

Reprodução de releases das grandes editoras e pautas políticas tediosas. Com raras exceções, não acompanho.

 

Você se manifesta bastante sobre política também, com críticas à esquerda e à parte do que se convencionou chamar de “nova direita”. Como você vê esse debate político-cultural e como se posiciona em relação a essa nova direita?

Como eu tenho dito sempre, no Brasil, esquerda, centro e direita podem ser resumidas em uma única palavra: “atraso”. Nossa esquerda ‒ a brasileira e a latino-americana em geral ‒ é particularmente mais atrasada do que a esquerda europeia do pós-guerra e a esquerda americana. É estatista, intervencionista, autoritária, persecutória e servil a regimes ditatoriais. Na Europa e nos Estados Unidos, isso só está voltando agora. Já o caso da direita no Brasil, é o quê? Direita no Brasil é fisiologismo, corrupção e manutenção no poder. Como eu brinco, o lema da direita brasileira é “sempre no governo, muito fisiologismo e corrupção de um jeito ou de outro”. Não vejo nenhuma mudança significativa nesse quadro. Já o que se chama de “nova direita”, ao que me parece, consiste na formação de um bloco de oposição muito radical e em bloco ao lulopetismo. Você tem aí desde a velhinha que vai com a faixa “Intervenção militar já!” para uma manifestação contra a corrupção até jovens muito, muito bem preparados no terreno da economia e da gestão pública, e que são liberais, modernos e inventivos em política. Será que faz sentido usar o rótulo “nova direita” para perfis tão distintos? Para mim, a resposta é clara: não. É um rótulo muito ruim.

 

Tivemos recentemente o incêndio no Museu Nacional, que abriu o debate sobre o orçamento estatal e a resistência da academia em aceitar parcerias com a iniciativa privada. Como você vê essa discussão e o que ela diz sobre nossa universidade?

Eu fui secretário-adjunto da Cultura de Porto Alegre durante oito meses em 2017. O propósito era, desde o início, introduzir um modelo de gestão dos equipamentos culturais que já era bem-sucedido em São Paulo desde o início dos anos 2000 e que se valia de uma legislação que fez, agora em 2018, exatamente 20 anos. Duas décadas. Trata-se da gestão contratualizada com o Terceiro Setor, isto é, com Organizações Sociais (OSs) ou Organizações da Sociedade Civil de Interesse Público (Oscips). A reação da classe artística, das pessoas do meio da cultura e, sobretudo, do funcionalismo público, foi de rejeição absoluta, incompreensão obscurantista e radicalismo corporativo (traços que, em geral, caracterizam bem o meio).

O primeiro tipo de acusação é o de que se trata de um tipo de privatização. Eu não teria absolutamente nada contra se fosse, mas o fato é que não é ‒ basta ler a lei e acompanhar os casos já realizados: trata-se de um contrato de gestão altamente fiscalizado e com acompanhamento extremamente rigoroso feito pelo Estado em dois âmbitos: o Executivo e o Judiciário. Além disso, as OSs e Oscips são, por definição (insisto: vejam a lei), organizações de direito privado sem fins lucrativos, forçosamente comprometidas a não distribuir dividendos e a investir tudo no equipamento cultural que administram e na saúde financeira da instituição.

Assim, pareceu-me escandalosamente falsa e desinformada a declaração do diretor do Museu Nacional entre 1998 e 2001 (quando se negociou um possível empréstimo do Banco Mundial para o Museu) para uma matéria (de resto medíocre e panfletária) na BBC Brasil de que, após visitar o Instituto de Matemática Pura e Aplicada (Impa) e outras instituições, concluiu que “não era um formato adequado para uma instituição como o Museu Nacional, que ocupa um palácio que é um patrimônio histórico, tem uma série de coleções culturais e científicas tombadas pelo Iphan e um significado histórico muito profundo”, e que “a passagem para OS implicaria na privatização de um patrimônio que era absolutamente público, coletivo e incompatível com esse formato”.

Não sei dizer se isso atesta apenas a incapacidade intelectual e gerencial de Fernando Duarte ou se há algo mais em suas palavras. Pelo seu critério, o Impa nunca foi uma instituição pública, que formou matemáticos aos montes e trouxe uma medalha Fields ao Brasil pura e simplesmente por não ser uma repartição pública como ele gosta? Ainda, pelo seu critério, a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo foi privatizada, e o prédio da Sala São Paulo, na estação Júlio Prestes, hoje deve ser de algum fundo capitalista perverso, é isso? Ou será que a Pina ‒ a Pinacoteca do Estado de São Paulo ‒, que fica em um prédio histórico, tombado e que detém um acervo magnífico de obras de arte, administrada que é por uma Organização Social, então foi privatizada? As obras não pertencem mais ao estado de São Paulo? Nem o prédio?

Veja, trata-se de uma combinação explosiva de mentira, ideologia estatizante e covardia, pois tudo é feito em nome de proteger o estamento burocrático, especialmente em suas franges mais radicalizadas. De resto, a covardia suprema foi das próprias OSs e Oscips de todo o país que calaram diante de todas essas mentiras (e foi uma verdadeira avalanche delas), pois preferiram ficar ao lado das convicções ideológicas esquerdistas que seus dirigentes esposam no lugar da verdade e da defesa de um bom modelo de gestão.

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Você está ministrando um curso sobre Liberalismo e Conservadorismo. Como define as duas vertentes?

O argumento todo do curso na Casa do Saber foi simples: há um arco histórico do liberalismo político europeu, desde o século XVII, que consistiu na gradativa expansão de uma noção de neutralidade do Estado em relação aos valores morais, religiosos, estéticos e políticos que formam a visão de vida boa dos homens. Isto é, de Locke em diante, caminhamos rumo a uma concepção segundo a qual não seria possível garantir a paz social e harmonia política se o Estado pudesse interferir nas crenças fundamentais dos cidadãos em matéria de religião, ética, etc. Ao longo desse processo todo, o liberalismo político consolidou uma certa concepção de tolerância indissociável das noções de liberdades individuais, separação dos poderes, rule of law, estado limitado, democracia, checks and balances e tantos outros elementos que compõem o patrimônio político e civilizatório do liberalismo político.

No interior dessa tradição (que é sobretudo anglo-saxã, mas não apenas), o conservadorismo é uma figura específica do liberalismo político, e não seu opositor. Os liberais de tipo progressista, mais dados a reformas e a trasnformações sociais talvez mais radicais, e os liberais de tipo conservador, comungam de todos os elementos do liberalismo político que acabei de mencionar: tolerância, liberdades individuais, separação dos poderes etc. Ambos operam no interior de democracias constitucionais representativas liberais. Seus antípodas são os revolucionários e reacionários, adeptos de uma negação da política, do presente e da prudência, desejosos de um futuro que nunca virá ou saudosos de um passado que nunca existiu.

Na confusão política atual, esses elementos clássicos da demarcação do jogo político foram borrados por variados tipos de populismos: à direita, à esquerda, por toda parte. Brexit, Trump, Bolsonaro e muitos outros elementos da paisagem confusa que vivemos são as pontas mais superficiais do impasse vivido por aquela tradição política.

 

Quais os principais autores da imprensa brasileira hoje?

A lista é grande e muito boa. Gustavo Franco, Pedro Malan, Marcos Lisboa, Samuel Pessôa, Alexandre Schwartsman, Elena Landau são só alguns dos nomes espetaculares a contribuir para o debate público no terreno da economia. Fernando Schüller, meu amigo e meu chefe, é um dos analistas políticos mais finos do país, hoje. João Pereira Coutinho e Luiz Felipe Pondé, claro.

Mas tem muita gente muito boa fora da imprensa mais tradicional. O Rodrigo da Silva, do Spotniks, por exemplo, é hoje o dono do texto mais lúcido e incisivo na reflexão política brasileira contemporânea. Não nos faltam bons comentaristas, analistas e especialistas.

 

Fotos: Arquivo pessoal

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