Você tem candidato a deputado?

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Brasileiros e brasileiras não dão a mínima para eleições proporcionais. Elas dificilmente frequentam os debates, quase nunca são medidas em pesquisas. Não raro, deputados são números decorados ou rabiscados em colas pelos eleitores pouco antes de chegar às urnas. Mais difícil ainda é encontrar um eleitor que saiba o nome de quem mereceu o seu voto poucos meses depois do sufrágio.

Segundo as pesquisas nativas, teremos um alto índice de abstenção, de nulos e de votos em branco. Especialmente nas proporcionais. A perversidade dessa desimportância está no fato de que não há democracia sem Parlamento. Mais: embora todo-poderoso, presidente da República algum consegue administrar sem maioria na Câmara e no Senado. Não é demais dizer que a qualidade de um governo depende diretamente do perfil do Congresso, ainda que muitos de seus integrantes se rendam com facilidade às ofertas nada republicanas feitas em nome da governança.

Não surpreende o pouco caso frente à escolha de deputados, associada agora à pregação de não se reeleger ninguém ou de anular o voto. Os cambalachos da corrupção desbragada acabaram por demonizar mais os deputados do que os chefes do Executivo responsáveis pelas propostas indecorosas. Embora muitos, propositalmente, misturem todos no mesmo saco, a maior parte da bandidagem apurada pela Lava-Jato situa-se nos tempos de Lula e Dilma Rousseff e nos governos estaduais da época, tendo Sérgio Cabral como ícone. E, ainda que alguns sejam réus e acusados por mais de um crime (55 dos 513 deputados são suspeitos ou investigados por corrupção), 70% dos parlamentares federais não respondem a qualquer processo. Podem até ter vários defeitos, e têm, mas não há indicativos de que roubem. São, portanto, vítimas da generalização.

Sumidos entre o pipocar quase cotidiano de pesquisas eleitorais para a Presidência da República e para os governos estaduais, os 8,4 mil postulantes a deputado federal são candidatos de segunda categoria; os 17,8 mil que disputam as assembleias estaduais, de terceira. No horário obrigatório de rádio e TV, praticamente se resumem a um nome e um número, com, no máximo, uma frase de efeito para enfeitar a aparição.

As regras parecem injustas. E são. Foram feitas para manter benesses dos parlamentares, incluindo as dos que dizem repudiar privilégios. Postura que aumenta a confusão, corroborando para o eleitor enfiar tudo e todos no mesmo balaio maldito. Normas criadas para afastar o eleitor e perpetuar currais de votação. Para impedir caras novas e minar as chances de políticos sérios, que, mesmo trabalhando com afinco, se deixam misturar ao joio.deputados_2alep

Assim sendo, como enxergar o trigo? Como repor a necessária dignidade a um Poder tão maltratado por boa parte das excelências que o ocupa? Não são poucas as dissonâncias, impropriedades e mazelas das casas legislativas. É urgente mudá-las, exigir e cobrar muito mais do que o quase nada que elas têm ofertado. Mas como não há democracia sem elas, de nada adiantam campanhas por nulidade do voto ou contra qualquer um que tenta se reeleger. A renovação é sempre bem-vinda, revigora e energiza a política. Mas o novo pelo novo não é aval de qualidade e seriedade.

 

Os imbecis têm voz

Principal instrumento da democracia, o voto – um direito que não deveria ser obrigação – vai além da urna. Eleger alguém não coloca um ponto final. Ao contrário, inicia-se um ciclo. Ao eleitor cabe definir se de negação ou vitalidade. Mas como escolher? Onde buscar informações cobre a chusma de candidatos? Nos programas eleitorais? Ora, pois, a audiência é baixíssima por duas razões: primeiro porque são chatos. Segundo e principalmente porque não têm nenhuma credibilidade. Resta a guerra de babuínos que toma conta do processo. A internet é o meio mais barato e mais usado para detratar adversários.

Em memória de Umberto Eco, vamos lembrar aqui uma reflexão do mestre da semiótica que, em seus estudos, como o marcante Apocalípticos e Integrados, deu um verniz de nobreza às manifestações da cultura de massas, como as histórias em quadrinhos ou o cinema. Numa cerimônia realizada em 2015 na Universidade de Turim, onde ensinava, Eco foi impiedoso com as consequências do uso indiscriminado das mídias sociais para discussões supostamente edificantes:

“As mídias sociais deram o direito à fala a legiões de imbecis que, anteriormente, falavam só no bar, depois de uma taça de vinho, sem causar dano à coletividade. Diziam imediatamente a eles para calar a boca, enquanto agora têm o mesmo direito à fala que um ganhador do Prêmio Nobel”.

Na campanha eleitoral, temos o exemplo mais sólido do que pode acontecer quando a miséria intelectual do debate político brasileiro se mistura ao direito de fala concedido aos milhões de imbecis. Só podia dar no que deu: um espetáculo de degradação e desinformação de fazer corar, como se dizia antigamente, um frade de pedra.

Vamos passar por cima e desconsiderar, para efeitos de discussão do uso desqualificado das redes sociais, os mexericos da Candinha que envolveram a vida privada de políticos de relevo, com discussão sórdida de detalhes que só interessam aos envolvidos e que não trouxeram a mínima evidência do uso de dinheiro público. Nas redes sociais, são descarregadas diariamente toneladas de maledicência que dão conta desde estranhos hábitos sexuais da tigrada que se candidata, até o questionamento estúpido sobre questões de gênero, raça e outros preconceitos.

Baixarias à parte, houve um tema que não envolvia alcova, mas que demonstra, de maneira chocante, a superficialidade e a desinformação que pautam grande parte da opinião pública assim dita “engajada” numa guerra de palavras de ordem e slogans sem pé nem cabeça em torno de um assunto de grande interesse para o País: a exploração dos campos de petróleo das províncias do pré-sal, que os dois últimos presidentes chamaram de “bilhete premiado”.

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No reino dos babuínos

Até as rochas submersas sabem que os governos petistas se agarraram a essa descoberta como se ela fosse a lâmpada de Aladim da redenção nacional. Fizeram de tudo com o pré-sal: tiraram fotos com as mãos sujas de óleo (ah, se fosse só de óleo…), gastaram por conta, resolveram os problemas de educação até o fim dos tempos, e só não dançaram fantasiados de barril de petróleo na Praça dos Três Poderes porque Shigeaki Ueki, o “japonesinho do Geisel”, já tinha prometido fazer isso antes.

No meio dessa euforia, o governo criou um marco regulatório substituindo o sistema de concessão pelo de partilha e sacou da algibeira uma decisão insensata, que foi a de obrigar a Petrobras a comandar a operação de todos os campos, com uma participação mínima de 30%. A empresa, que atualmente deve cinco vezes mais do que vale, não tem, neste momento, condições de cumprir a obrigação. Portanto, sem dinheiro para cumprir o que manda a lei, a Petrobras não pode licitar campos porque não tem dinheiro para investir neles. Obviamente, a exploração dos campos, prejudicada além de tudo pela queda brutal dos preços do óleo cru, diminuiu de ritmo.

O projeto de lei de José Serra, aprovado no Senado, obriga a Petrobras a ceder os campos? Não, ele só a desobriga de participar e comandar a operação de todos e com um mínimo obrigatório de 30%. Se a União acha que a empresa tem condições de entrar com 30%, tudo bem. A decisão é da União. A lei aprovada pelo Senado não prejudica em nada a Petrobras. Pelo contrário: dá-lhe mais alternativas para uma escolha racional, que mais interesse à empresa naquele momento.

As redes sociais, povoadas de imbecis ideológicos, desenterrou dos seus baús de memórias afetivas slogans velhos e bichados como “entreguistas” e condenou a união de bárbaros pela “entrega” do pré-sal aos “agentes do imperialismo”. Pode haver coisa mais enferrujada do que essa? Os “patriotas” do arco da velha preferem ficar sem petróleo nenhum a abrir mão de seus mitos ideológicos. Não existe maneira mais fácil de identificar os imbecis de Umberto Eco.

 

É o que temos

Pois, pois, é o que temos. Nada de novo. Tudo requentado, nenhuma proposta nova, discursos da esquerda populista recuam à década de 50 do século passado, os da direita de Bolsonaro e assemelhados vão carregados de moralismo chinfrim e ameaças de violência e atentados à liberdade. Essas teses requentadas correm soltas nos blogs de aluguel, nas redes e nas bocas de pregadores das igrejas de Lula e de Bolsonaro

Os políticos correm para tentar garantir um mandato e a sua permanência no jogo político. Nesta hora de leilões e troca-troca, em espetáculo deprimente na janela da infidelidade, vale tudo. O custo é astronômico. E quem paga, mais uma vez, somos nós, os contribuintes.

Não deve existir esperança em grande renovação. Os que estão na disputa e têm chances de chegar são os mesmos. Prova de nossa pobreza de lideranças. É até um tanto cômico. Fala-se do novo, do outsider, há discursos de mudanças. Mas 24 anos depois da primeira vitória de Fernando Henrique Cardoso sobre Luiz Inácio Lula da Silva, o ativismo dos dois ex-presidentes é um dos poucos tônicos que animam a política. Para o bem ou para o mal.

E agora temos dois populistas extremados, ambos estatólatras, um filhote da ditadura, o outro filho dileto do lulismo e todas as suas perversões. Vamos ter que engolir mais essa. Jair Bolsonaro ou Fernando Haddad? Ambos são as vozes mais presentes. Lideram a audiência em eventos, entrevistas e o digladio enfadonho das redes sociais. Lula, em exercícios tortuosos para manter seus fiéis, da prisão consegue sustentar a candidatura de Haddad, o poste da vez. E a direita se esfalfa, na tentativa de sacudir um centro apático, não raro volátil, que jura honrar princípios humanistas e por vezes flerta com a direita irracional.

Com menor espaço de manobra depois de ser condenado a 12 anos e um mês por corrupção, Lula vai no caminho inverso. Praticamente só fala de si. De sua coragem, sua inocência, sua força, sua disposição para a briga. Os demais agentes políticos – seus companheiros e até o golpista e agora corajoso presidente Michel Temer – só entram no discurso quando se encaixam na realidade paralela dos políticos.

 

Foto 2 (Alep): Sandro Nascimento/Alep

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