Editorial. Ed. 205

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A absoluta maioria dos nativos ainda vive a ressaca cívica das eleições antecedida pela longa temporada de escândalos. Política passou a ser sinônimo de desvios, corrupção. O cidadão normal, comum, está enfarado de tudo isso. E foi às urnas para mostrar que quer mudanças reais no sistema, no comportamento ético e nas instituições.

Vimos um espetáculo deplorável. O uso não raro inescrupuloso dos meios para se chegar ao fim, a apropriação do Estado, a ditadura do pensamento único e a consequente patrulha, práticas recorrentes entre os regimes fascistas, foram a tônica. Os dois candidatos à Presidência da República que saíram do primeiro turno mostraram, direta ou indiretamente, que são experts nesses hábitos. E tentam convencer o distinto público do contrário.

A democracia está em risco? É preciso desmistificar essa tese. O Brasil assistiu a uma explosão democrática, ao menos desde 2013. O processo de impeachment foi feito à base de milhões de pessoas nas ruas, goste-se ou não de seu resultado. Não há dúvidas em dizer que vivemos um tempo de exuberância, ainda que de profundo mal-estar na democracia. O sistema é hoje mais barulhento e o debate público mais polarizado. Há dezenas de milhões de pessoas falando sem parar, nas redes sociais. Três décadas atrás havia uma elite de milhares de pessoas com o monopólio da palavra. O barulho, a estridência e a permanente sensação de instabilidade são o novo normal da democracia. Quem quiser lidar com ela, vai ter que se acostumar.

Mesmo diante da barbárie que a disputa eleitoral se tornou, com esfaqueamento de candidato de um lado e de eleitor de outro, intolerância absoluta e agressividade nas alturas, é difícil crer em um Jair Bolsonaro como um manso pregador da paz. Assim como sempre foi absolutamente inverossímil a postura de democrata bonzinho de Fernando Haddad, tendo por trás dele o PT em fúria. Não basta mudar as cores e a logotipia.

Mas a democracia sobrevive e se aperfeiçoa, apesar de tudo. Mesmo que ao longo da campanha Bolsonaro tenha sido um ativista da violência, o PT, ainda antes de ter Haddad como preposto de Lula, não deixou por menos. Os dois candidatos fizeram juras à democracia, mas não tiveram qualquer escrúpulo de incluir em seus programas de governo a convocação de uma Constituinte, popular ou de notáveis. Muito menos demonstraram respeito pelas instituições, em especial a Justiça. Bolsonaro falou em retirar poderes do Supremo ampliando o número de excelências com assento no STF. E o PT, que há meses tenta desacreditar o Judiciário interna e externamente, incluiu a própria Venezuela no programa, criando exuberâncias como comissões populares de controle da Justiça e, óbvio, da mídia.

Mesmo assim, a democracia está aí, as instituições funcionam plenamente e de resto é esperar para ver o que vai acontecer de hoje em diante. Todo cuidado é pouco.

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