Os sete pecados capitais e a MPB

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— Parte IV —

Querido pecador, prezada pecadora, cá estou mais uma vez a fazer convite para navegar em mais um dos vícios capitais. A bola da vez é a inveja, aquela que serve de desculpa para os próprios fracassos (“Deu errado por causa da inveja de Fulano”) e que motiva aquela aflição pelos feitos alheios (“Acho errado Fulana viajar em pleno mês de março”).

Antes de desembarcar na MPB, uma voltinha pela literatura e a frase corajosa de Gore Vidal para a reflexão de todos: “Toda vez que um amigo é bem-sucedido, alguma coisa em mim morre”. Dito isso, que se abram as cortinas de nossa música.

O primeiro convidado neste capítulo amargo, que envergonha qualquer um, é Paulo Vanzolini que, com a verve genial de sempre, disse que “Inveja é a raiva do pó contra quem o pisa”. É vero. Na composição que leva o nome da maldita, ele não se confessa como pecador, mas dá uma lição linda, muito linda: “A inveja é a moeda que o mundo tem pra pagar o bem / Sabendo disso eu faço que não sei / E sigo o caminho que sempre trilhei / Seguindo a força da natureza / Eu perco em vantagem e ganho em grandeza / Eu sei ser pobre sem raiva / E só sem tristeza”.

adriana1A inveja faz parte das humanidades de qualquer um como qualquer outro traço menos apreciável. Mas é curioso observar a relação da maioria com o assunto. Pouca gente tem coragem de confessar. (Um instante, maestro, para que eu possa abrir o parêntese da publicidade. Quando escrevi “Sete confissões capitais e outros pecados”, livro que pode ser comprado nas melhores casas do ramo, tive muita dificuldade neste capítulo. A sinceridade de uma confissão assim tropeça na vergonha social, no medo do julgamento, mas principalmente no reconhecimento mais íntimo acerca dessa fraqueza. Fiz o exercício, e não foi fácil e, para ser bem honesta, não consegui me sentir melhor depois dele. Ao contrário, perceber, escrever, falar sobre isso só me fez entender minha pequenez e o tanto de força que preciso para combatê-la. Mas tenho plena consciência que me saber provoca mudanças e isso é bom, é sofrido, mas é bom. Pronto, fecho o assunto merchandising e volto para a coluna). Como eu estava falando, é raro quem assuma o assunto como seu. Arnaldo Antunes e Liminha escreveram “Invejoso”, música que foi gravada no álbum “Iê Iê Iê” de 2009 de Arnaldo, mas aponta para o outro, pode até ter um risco autobiográfico no texto, mas isso eles não dizem: “Invejoso / Querer o que é dos outros é o seu gozo / E fica remoendo até o osso / Mas sua fruta só lhe dá caroço / Invejoso / O bem alheio é o seu desgosto / Queria um palácio suntuoso / Mas acabou no fundo desse poço”.

Gilberto Gil também deu uma voltinha pelo tema. Mas foi só para contar sobre as qualidades da amada: “Por que que alguém tem tanta inveja de você, meu amor? / Por que que alguém tem de querer lhe negar valor? / Porque seu coração é bom / E na competição moral / Você contempla o bem e enfrenta o mal / Com a mesma decisão”. Acho meio sem graça e de alguma forma carimba aquela ideia de que críticas são sempre uma resposta invejosa às boas qualidades. Não é justo imaginar que do outro lado só existe gente incapaz de apreciar o lado bom da força, ao mesmo tempo que também não é certo considerar que uma pessoa é inteirinha formada por grandes virtudes. Decerto Gil quis com esta composição agradar alguém que estava muito triste, tipo quando a gente vai consolar um amigo e não tem como citar suas burradas naquele momento.

Martinho da Vila e Catimba escreveram, lá pela metade da década de 80, “Cuidado com a inveja”, música que foi deliciosamente gravada por Zeca Pagodinho. No começo vem o aviso: “Cuidado com a inveja / Ela ainda te mata” e, lá pelas tantas, o recado completo, divertido: “Se queres secar vai secar pimenteira / Pra tua pimenta ficar devagar / Se eu ganho no bicho você fica triste / Se eu mato uma gata você passa mal / A minha alegria te deixa nervoso / O meu carro novo te irrita demais / Amigo coloca um amor no teu peito / Senão tua vida vai andar pra trás / Rapa fora Satanás”.

Mais uma vez vou pedir uma licencinha na coluna. Mas agora é para tratar do assunto inveja de outra forma. Fui procurar detalhes de uma história que li já não lembro mais onde para contar aqui. Achei o texto de Marília Trindade Barboza, escritora, pesquisadora de MPB e que foi presidente do Museu da Imagem e do Som do Rio. Ela conta a quizumba de forma tão clara que não me aventuro a refazer a narrativa e abro aspas a ela:

“Em 1917, ano de gravação do ‘Pelo Telefone’, de Donga e Mário de Almeida, o gênero samba ainda não estava estabelecido como hoje o conhecemos. O nome samba era atribuído a tangos e maxixes, dando margem a diversas polêmicas, uma das quais entre o grupo de Donga (Pixinguinha, China, Hilário Jovino e João da Bahiana) e Sinhô (José Barbosa da Silva).

Este, autor de maxixes famosos como ‘Jura’ e ‘Gosto que me enrosco’, se autointitulava ‘O rei do samba’ e não se conformou com o sucesso do também maxixe de Donga, que ficou conhecido como primeiro samba, em virtude do retumbante sucesso  obtido. Pixinguinha, Donga, China, Hilário Jovino e João da Bahiana, que formavam o bloco ‘Quem fala de nós tem paixão’, lançaram a marcha ‘Inveja’, respondida por Sinhô com outra marcha, ‘Resposta à Inveja’. Podia ter tudo terminado aí.

Mas, no carnaval seguinte, Sinhô lançou a composição ‘Quem são eles?’, que foi tomada como alusiva ao grupo de Pixinguinha, que formara um bloco com esse nome. Aí, a coisa esquentou, pois cada um resolveu dar o troco separadamente, fazendo que a pergunta de Sinhô fosse respondida por três composições: Donga retrucou com ‘Fica calmo que aparece’; Hilário Jovino com o seu ‘Não és tão falado assim’; e até Pixinguinha e seu irmão China trataram de nocautear Sinhô com o agressivo ‘Já te digo’.

Essa música tornou-se o maior sucesso do carnaval de 1919 e fez de Pixinguinha uma personalidade solicitada para abrilhantar tudo quanto era festa carnavalesca da época, consolidando ainda mais a posição do jovem músico como mola propulsora da folia carioca”.

Como o texto de Marília traz uma página bem interessante da história da MPB, acho melhor parar por aqui e declarar minha admiração por ela, a Marília, e por eles, os músicos. Sem nenhuma inveja, apenas esse sentimento gostoso de fazer parte desse Brasil que pode e deve ser contemplado.

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