A publicidade na Cinelândia curitibana

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No número 170 desta revista, abordei algumas promoções que gerentes de cinema, atuando como publicitários, movimentavam na principal avenida de Curitiba, além das fachadas e dos cartazes. Aqui vão mais algumas histórias.

No início do cinema mudo em Curitiba, eram exibidos filmes curtos de um rolo (pouco mais de 10 minutos). Quando aparecia uma produção de dois rolos ou mais, era proclamado, expondo-se os rolos na vitrine da loja Maison Blanche (na época na Dr. Muricy com a Rua XV). Paravam muitos curiosos para ver a novidade. Pulando para meados dos anos 40, o João Batista Groff, proprietário do Cine América, na rua Voluntários da Pátria, exibiria “Quando fala o coração” (Spellbound, 1945), com Ingrid Bergman, Gregory Peck e Leo G. Carrol e direção de Alfred Hitchcock. Ganhou o Oscar de trilha sonora e indicações para filme, diretor, ator coadjuvante, fotografia e efeitos visuais. Nesse thriller psicológico, as pistas do mistério são alucinações surrealistas, com um visual famoso, em sequência desenhada por Salvador Dalí. Tem uma longa tomada de suspense em que o personagem de Peck avança ameaçadoramente com uma navalha. Groff resolveu mostrar a tal navalha em vitrine de uma loja e no cinema com estardalhaço. Ele contatou a distribuidora do filme, a United Artists, na matriz do Rio de Janeiro, para que mandassem o tal objeto de Hollywood, o que foi motivo de riso. Compraram uma navalha por lá mesmo e a enviaram a Curitiba, expondo-a na vitrine de uma loja. Tudo num misto de inocência e esperteza, mas foi um sucesso, pois o filme já era famoso e muito esperado.

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Os gerentes dos cinemas davam folhetos com anúncios de filmes para a gurizada distribuir e ameaçavam: “Se chover e der enchente, é porque vocês jogaram tudo nos bueiros”. Hoje, distribuem-se folhetos com tudo, mas naquela época só os cinemas o faziam. Às vezes aconteciam barbaridades. O exibidor Oliva era amigo do Monsenhor Falarz, vigário da Catedral, mas, naquela manhã, a voz do religioso não soava nada evangélica pelo telefone, reclamando da colagem feita à noite nos degraus da Matriz. Seguindo sugestão da distribuidora inglesa Rank, o Zito Cavalcanti e seus auxiliares colaram tiras de papel nos degraus. O título do filme: “Os trinta e nove degraus” (The 39 steps, 1959), com Kenneth More e Taina Elg no elenco sob direção de Ralph Thomas (fora realizado anteriormente por Hitchcock, em 1939). Claro que a sugestão da distribuidora não incluía tais degraus. A retirada e a lavagem do material despertaram curiosidade, numa réplica da cerimônia religiosa baiana realizada pelos fiéis, mas por aqui os pecadores arcaram com as piadas dos passantes. Em outro filme da distribuidora, sugestões para colocar pequenas placas de madeira afixadas à terra onde se lia “favor não molestar as flores” e, logo abaixo, em letras vermelhas: “este aviso tem pouca valia, pois ‘O vento não sabe ler’”. Desta vez, a publicidade foi autorizada pela benevolência dos jardineiros dos canteiros das praças Osório, Tiradentes, Carlos Gomes. Era uma referência ao filme “O vento não sabe ler” (The wind cannot read, 1958), com Dirk Bogarde, Yoko Tani e direção de Ralph Thomas.jensen3

Foi com “Zulu” (Zulu, 1964) estrelado por Michael Caine e Jack Hawkins e dirigido por Cy Endfield em que soldados britânicos enfrentam milhares de guerreiros Zulus africanos, que o Zito do Cine Lido movimentou a Boca Maldita de Curitiba. Procurou o Bataclan, simpático afro-brasileiro com seus dois metros de altura, um soberano chefe de tribo. O Honorato Dorneles Santos, seu nome de batismo, era propagandista de lojas. De pronto topou a empreitada e até superou as expectativas. Tinha em casa uma pele de tigre, como nos moldes dos Zulus do filme. Uma lança, um escudo e dois corneteiros com seus clarins, logo atrás quatro garotos com as letras Z-U-L-U, completavam a empreitada publicitária. O filme, apesar de não ser grande coisa, foi um sucesso de bilheteria.

“Grand Prix” (Grand Prix, 1966), com James Garner, Yves Montand, Eva Marie Saint e direção de John Frankenheimer, sobre o mundo da fórmula 1, provocou que o Ismail Macedo colocasse um carro de passeio adaptado para corridas, com bandeirinhas pretas e amarelas, nada parecido com os carros que aparecem no filme, a circular pelo centro da cidade.

Cada empresa exibidora tinha também seu espaço nos jornais, com sinopses, fotos, às vezes sem pagar nada, com jornalistas que se engajavam por puro prazer na divulgação dos lançamentos, ajudados pelo atraso de dois ou mais anos do lançamento mundial. Havia também revistas com circulação nacional, como Cena Muda ou Cinearte. Ernani Gomes Correia, o popular EGC, na sua coluna “Roda Gigante” no jornal Tribuna do Paraná, sempre dava notas sobre os filmes em exibição; ou o Aramis Millarch, no Estado do Paraná, inclusive com as promoções de “Os melhores do ano”.

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O cinema também interferia nos costumes da cidade, pois, nos tempos da Cinelândia curitibana, as lojas fechavam suas cortinas de aço depois da meia-noite, deixando expostas suas vitrines iluminadas. Para isso, tinham uma pessoa contratada, o seu Domingos, muito simpático, apelidado de São Pedro, pois carregava um enorme molho de chaves pela avenida, desligando as luzes e baixando as portas de aço. Perguntado, certa vez, por que não fechava antes e ia embora, respondeu: “Não, pois quando o pessoal sai dos cinemas, ainda dá uma olhada nas vitrines”. Só fechava depois que saía o último espectador do cinema, tornando o seu trabalho importante.

 

 

LEGENDAS

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A Cinelândia curitibana, grande ponto de encontro, com bares, confeitarias, cafés e cinemas. À noite o movimento era grande: o “footing”, pessoas indo e vindo, iluminação feérica (também das vitrines), sem preocupação com a segurança.

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Gregory Peck com a navalha e Ingrid Bergman em “Quando fala o coração”, de 1945.

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