A Vitrine (da loja) do meu Pai e outros textos

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Jaime Lerner

Jaime Lerner é um criador. Este o seu traço essencial. De decorador da vitrine da loja da família a inventor que reconstrói o desenho urbano de cidades pelo mundo, sempre foi um criador. Tem alma de artista, não a de inventor de laboratório ou de autoridade em seu gabinete palaciano. Neste livro há outra dimensão, rica e fértil na narração de histórias do cotidiano que nos aproximam de Lerner, seus sentimentos e experiências pessoais que não cabem na história oficial, nos discursos de ocasião ou nas teses acadêmicas.

Nestas crônicas, uma viagem pela memória em textos saborosos, fartos de fino humor, que revelam o Jaime Lerner mais verdadeiro em sua relação com o mundo. A vida lhe deu poder, glórias e prazeres. Mas o valor simbólico dos cargos e seus ritos sempre teve alegre relatividade na sua vida. Mesmo quando obrigado a cumpri-los. Tornaram-se acessórios rituais. Nunca os levou muito a sério. Proteção que lhe preservou agudo espírito crítico, humor sarcástico e a permanência de valores inarredáveis. Os de um espírito que ama a liberdade e execra preconceitos.

Lerner tem humor. Tem a rara capacidade de rir de si mesmo. O riso essencial e que não pode ser substituído pelo a sério para não destruir o seu próprio conteúdo de verdade revelada pelo riso, que se liberta não só da censura exterior, mas do censor interior que constrange. Leiam. Riam. Assim são estas crônicas do criador Jaime Lerner. Experimentei a alegria de ouvi-las antes, narradas pelo próprio, em inesquecíveis sessões de generosa amizade.

 

 

 

A Vitrine (da loja) do meu Pai

A loja de roupas e armarinhos tinha portas altas e envidraçadas. Uma pequena vitrine que expunha, entre manequins sem pernas, a mostra de um pequeno estoque que tinha grande variedade de produtos: chapéu Prada, terno risca de giz, suspensórios, galochas e sabonetes Eucalol. No fundo da vitrine, um retrato de Getúlio Vargas, que um pelego ameaçador vinha conferir assiduamente se permanecia o sorriso do velhinho.

O balcão envidraçado era o espaço das miudezas e palco do jogo de xadrez que nosso vizinho da loja da frente, seu Belém, jogava com meu pai. Alternavam partidas, um dia em cada loja.

Nos dias de enchente do rio Ivo, a rua inundava. Portas tinham que ser fechadas e os sacos de areia eram calçados para evitar a entrada da água. Era meu navio. Pelas portas envidraçadas observava os garotos que simulavam nadar, eu tinha a impressão que estava num transatlântico.

Um dia, um pai decidiu acompanhar uma tendência de modernização do comércio, com lojas e vitrines mais amplas que convidavam os fregueses a entrar. Olhando a vitrine, tornavam-se presa fácil para os comerciantes. A novidade se espalhou pela vizinhança. O problema: duas vitrines que exigiam trabalho de cão para montar; cada artigo com preço desenhado ao lado.

Meu pai confiava no meu gosto para desenhar os preços e montar vitrine.

A discussão do que colocar levava uma noite inteira, porque eu queria expor poucas peças para terem maior destaque. Mas meu pai queria colocar tudo, e de todas as cores. Como vão saber que existe pullover marrom? Quem vai adivinhar que vendemos calças azuis também? Assim a vitrine ia se avolumando… uma selva de roupas e preços que nenhum caçador se atreveria a penetrar naquele piso de pedriscos.

Essa discussão me ajudaria, mais tarde, a entender a necessidade de ser conciso. De resumir, simplificar, para dar chance à imaginação.

Continuamos discutindo até o meu último dia como vitrinista. Às vezes eu cedia, às vezes cedia ele.

Das minhas primeiras horas como pensador de espaços, trago importante lição que se renovou com os anos: assumi um compromisso com a simplicidade e a imperfeição e a não ser tão prepotente em querer saber tudo. Como na frase que vi numa pracinha de bairro na Cidade do México: “Mais vale a graça da imperfeição do que a perfeição sem graça”.

 

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Nos Tempos de Escola

No meu tempo de escola, sempre fui muito CDF, quando tirava 9, chorava. No ginásio, graças a novos e bons amigos, já não me importava tanto, comecei a ficar meio vagabundo, mais interessado em outras coisas. No científico, estudei um tempo à noite e aí caí na folia.

No meu período de Escola Israelita, aos melhores alunos eram destinados os melhores papéis no teatro de fim de ano. Com imenso orgulho, recebi a notícia de que eu seria o ator principal de uma peça onde representaria um capitão legionário romano.

O desastre aconteceu quando me falaram que meu papel exigiria que eu vestisse um figurino composto de um saiote e uma sandália de tira.

Minha recusa foi veemente. O que meus amigos iriam achar disso? Muito choro e discussão. Uma semana de negociações entre meus pais e a direção da escola. As comissões diplomáticas iam e voltavam. Até que uma solução foi encontrada. No final do ano, o teatro abre as cortinas e entro de capitão legionário romano. Capacete, saiote e calçado Vulcabras.

 

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Turismo de Estudante

A França tem uma área de 543 mil quilômetros quadrados. Não é o maior país do mundo, mas tem um território respeitável e diversificado. Nos meus tempos de estudante em Paris, coloquei na cabeça que queria saber dos outros lugares, ir além da charmosa e envolvente cidade que me abrigava e fazia carinho em meus olhos com suas belezas noturnas, suas paisagens vespertinas e suas descobertas matinais.

Bolsista, mal tinha dinheiro para comer, imagine para viajar. Um dos meus amigos, com recursos tão limitados quanto os meus, me contou que era fácil conseguir transporte para onde quiséssemos, bastava se plantar na beira da estrada, plaquinha na mão e sinal para o carro parar.

Pegar carona não era novidade em filmes e histórias que ouvia, mas eu era estreante na arte. É preciso muito para fazer um carro parar para você, há de se ter um certo charme, exalar confiança, ao mesmo tempo em que se demonstra a necessidade de auxílio, os movimentos têm que ser precisos, a comunicação rápida. E além de todos os pormenores, há ainda a superação das intempéries, chuva, frio, calor, tudo ali na sua cabeça e você tendo que fazer pose de pessoa confiável e simpática.

Definitivamente pedir carona em beira de estrada não era coisa pra mim. Mas o turismo era, e da necessidade veio a solução. Eu ia para o mercado Les Halles na hora em que os caminhões chegavam com os produtos para abastecimento. Conversava com um, conversava com outro, até descobrir quem ia para o destino que eu queria; profissional identificado, eu me propunha a descarregar as mercadorias em troca da carona.

Bom negócio pra todo mundo: virei chapa e conheci a França.

 

 

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Traje a rigor

Estava preocupado em conhecer um pouquinho sobre meu visitante. É de bom-tom receber um hóspede com um mínimo de competência sobre suas preferências. Do outro lado, ele também achou prudente se apresentar antes de chegar, é educado dizer quem é e a que vem.

E foi assim que recebi as informações sobre o rei da Suécia Carlos Gustavo, que chegaria ao Brasil, acompanhado da rainha Silvia, para a Eco 92. Depois da conferência no Rio de Janeiro, os dois desembarcariam em Curitiba, para o Fórum Mundial das Cidades.

O meu espanto começou pelo modo como as informações chegaram: um currículo. Eu não tinha intenção de contratá-lo para ocupar posto, real ou civil, mas tratei de fazer a leitura. Abri o documento: mais novo de cinco irmãos, logo no nascimento virou duque, se interessou por esportes náuticos, se interessou por cavalos, se interessou por assuntos bélicos, se interessou por artes, se interessou por uma pá de coisas… Mais parecia ser um catálogo dos assuntos desenvolvidos pelo homem moderno. No final da tarefa, só consegui chegar à conclusão de que a principal característica do rei era se interessar.

A rainha, mais simples no trato e no currículo, era, com toda sua realeza, inteligentíssima e interessante.

Os dias foram intensos, imensos, exaustivos e, para descansar do Fórum das Cidades e da tarefa de ciceronear o casal real, Fani e eu fomos passar um final de semana de folga no Rio de Janeiro. Logo que desembarcamos, o governador Leonel Brizola já sabia de nossa chegada e telefonou simpático, solícito, amável com a notícia no inconfundível sotaque:

— Jaime, que bom que tu estás por aqui! Agradável coincidência, o rei e a rainha da Suécia também estão no Rio. Ffaremos amanhã um jantar de gala, traje a rigor, em homenagem a eles. Tu e Fani são meus convidados especiais.

Minha experiência recente apontava que Brizola queria ajuda para diluir os salamaleques com os assuntos reais. Eu, que já estava um tanto saturado e querendo um merecido descanso, tratei logo de disparar os fatos que impediriam nossa presença, explicando que eu e Fani não tínhamos roupas adequadas para a ocasião. Brizola, experiente no contra-argumento e rápido feito flecha:

— Jaime, não te preocupes. Tu te lembras em nossos tempos de faculdade quando recebíamos convite para festa? Lá vinha explícito: “Convite para baile, traje a rigor, tolera-se azul-marinho”, descansou por alguns segundos e completou: “pois nós vamos de tolera-se”.

 

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Somos Todos Iguais

Segundo o dicionário Michaelis, imperador
é “o soberano que rege um império”. E ele é tão soberano e rege tanto, que o seu império acaba por cruzar limites e se estender onde quer que ele esteja — as formalidades que envolvem essa figura não permitem que você se dirija a ela, há sempre a espera de uma palavra, um assunto, uma ideia que comece por lá; cabe aos súditos o aguardo paciente da quebra do silêncio.

Por aqui, onde todo mundo tem a palavra a qualquer tempo, é exercício de muita concentração estar perto desse tipo de autoridade. Imagine dar um cutucão no imperador a mostrar algum detalhe da paisagem ou fazer um comentário sobre o cenário ou, ainda, contar uma piadinha providencial durante alguma cerimônia? Impossível, o bom mesmo é cultivar o silêncio e esperar que ele fale e que a areia não demore muito a cair nos intervalos de ausência de papo.

Em nosso almoço oficial, com o imperador e a imperatriz do Japão, Fani sentou-se ao lado dele, que, calado, a enlouquecia. Eu, ao lado da imperatriz, que tinha mil conversas e gostava de saber de todos os assuntos. Já rabiscava desenhos em guardanapo a detalhar o papo na forma que mais me sinto à vontade quando espiei a Fani: quantos pensamentos eu conseguia reconhecer entre uma garfada e outra; às vezes ela me fazia gestos com o olhar. Imagine! Ele era um ictiologista, um imperador que sabia da estrutura, dos hábitos, das classificações de peixes. Quando ele falava, referia-se a um tipo de carpa rara ou à reprodução do Carassius auratus.

Aquelas duas pessoas eram muito impressionantes. A soberania era inconteste e se colocava na própria presença deles, era como se, cada um ao seu modo, emitisse por todos os poros a grandeza de suas personalidades quase sobre-humanas. Havia uma comoção generalizada com convidados tão ilustres.

Ao final da cerimônia, quando todos estavam saindo, a Ilana apareceu. Estava dentro de uma sala do Jardim Botânico e eu a apontei para a imperatriz a apresentando como minha filha. Como não era possível a proximidade, ela colocou a mão aberta, espalmada, de um lado do vidro e Ilana do outro, tocaram-se pela transparência do material e do coração de cada uma. Silêncio. Muitos olhos boiaram em lágrimas com um gesto tão singelo e tão puro que significava mais, bem mais, que uma saudação: era como se fosse a imperatriz e a Ilana rompendo as regras para se entregar às humanidades. Duas mãos separadas por vidro a nos contar que somos todos iguais.

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