Daqui pra frente, tudo vai ser diferente

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O cientista político Fernando Schüler, professor do Insper, afirma que a posição antissistema é o que fez as eleições de 2018 serem diferentes de todas as outras no Brasil. O candidato Jair Bolsonaro (PSL) foi quem melhor se apropriou da insatisfação da população com o sistema. Por isso, a tentativa de o PSDB propor uma discussão sobre reformas durante a campanha soou fora de sintonia para o eleitor. Para Schüler, os grandes vencedores são os partidos Novo e PSOL, que se apresentam como novas opções à direita e à esquerda da política.

Ele ressalta, também, que o PT saiu melhor do que o esperado, tanto pela ida de Fernando Haddad para o segundo turno na disputa à Presidência como pela confirmação da maior bancada na Câmara – mesmo depois do processo de impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff e dos resultados ruins das eleições municipais de 2016. Mas, para o cientista político, o debate que precisa começar é sobre o voto facultativo. “O Brasil está maduro para isso”, diz ele.

“É uma eleição inteiramente diferente de todas as outras. Até 2014, vivemos um ciclo da política, marcado pela disputa entre variantes da social-democracia brasileira. Dilma (Rousseff, PT) e Aécio (Neves, PSDB) tinham divergências de natureza política e econômica, mas não divergência de natureza cultural. Isto é curioso. Gastamos vinte anos acreditando que o mundo se dividia entre esquerda e direita e que Fernando Henrique era um perigoso neoliberal. Agora descobrimos que o mundo é mais complicado. Bolsonaro representa uma ruptura desse ciclo histórico. Ele introduz um tipo de cisão no terreno da guerra cultural. Temas morais invadem a política. A obsessão com as identidades, de um lado, e a reação conservadora, de outro. No fim todos perdem, pois este é um debate impossível. Ele vai muito além dos limites possíveis da política.

De certo modo fomos globalizados, explica Schüler. “Enfim, temos o nosso populista conservador. Um tipo de conservadorismo popular, de costumes, que representa uma tradução brasileira da ideia de ‘lei e ordem’. Nada a ver, por óbvio, com a grande tradição conservadora anglo-saxônica. Nosso conservadorismo não trata de Burke, mas do pastor Malafaia. Podemos não gostar disso, mas é tudo legítimo. Expressa o pensamento de parcela relevante da sociedade, que andava dispersa por aí. Em quem estas pessoas votavam, até 2014? Em Aécio, Dilma, ou na Rede, de Marina Silva? A democracia vai criando suas próprias soluções. Eu não gosto do vezo populista, mas o que isto importa? O Brasil foi pautado, ao longo das gestões do PT, por uma retórica excludente, do ‘nós contra eles’. O ‘nunca antes neste país’. É evidente que isto criaria um efeito reativo. Demorou, mas aconteceu. Custa caro, para a democracia, apostar o tempo todo na lógica do dissenso. Bolsonaro é o produto extremo de uma sociedade que já vem polarizada há muito tempo. É evidente que a crise ética, política e econômica que vivemos funcionou como o estopim do processo. Terreno fértil para um líder populista e antissistema. Agora, lide-se com ele.”

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Cenário propício

Bolsonaro não criou o cenário que herdamos dos anos de PT na condução da política e do governo no País; ele é seu resultado. Ele verbalizou e deu viabilidade política a um descontentamento difuso na sociedade com o sistema político. Não é simples explicar a emergência de um fenômeno populista. Em regra, combina-se crise econômica, exclusão (por vezes cultural) de amplos setores, polarização e instabilidade política a nova lógica da democracia digital. O líder populista fala diretamente com as pessoas, dispensando os partidos e as instituições tradicionais de mediação. É o que faz Bolsonaro: ele não está interessado em alianças ou no dinheiro do fundo público de campanhas. Usa a internet e seu movimento se propaga de modo caótico, nas redes sociais. Daí a sua força.

Tudo isto é fruto da democracia, ainda que crie um brutal desconforto. Ninguém com saúde mental e intelectual acredita que isto se resolva apostando na retórica do medo e da “ameaça fascista”. Isto é um jeito fácil e tolo de lidar com um problema muito mais profundo. Quem se acostumou a jogar o jogo sozinho não percebe um aspecto crucial: a democracia é uma formidável máquina de moderar posições políticas. Inclusive aquelas que eventualmente nascem de uma retórica autoritária. Isso aconteceu com muita gente da esquerda, que nos anos 80 ainda falava em revolução. Lula perdeu três eleições, moderou o discurso, ganhou o jogo e foi incorporado ao mainstream político. A democracia é inclusiva. Ela agora também pode incluir a direita, o conservadorismo, mesmo que muita gente possa torcer o nariz.

É evidente que Bolsonaro tem um traço autoritário e alimenta teses insustentáveis, como o elogio a torturadores. A esquerda fazia isso com o elogio reiterado, que acontece até hoje, à ditadura castrista, em Cuba, e o apoio explícito ao autoritarismo na Venezuela. É curioso como nós “normalizamos” essas coisas. Nós cultivamos uma curiosa indignação seletiva, que chegou a um esgotamento, nos dias de hoje. A forma de lidar com essas coisas é dobrar a aposta na democracia. Tenho dito que não adianta pregar o diálogo e a moderação e, ato seguinte, chamar o adversário de fascista. O pior caminho para a nossa democracia é excluir as novas formas de representação e de setores importantes para a sociedade brasileira, que eventualmente estiveram fora do poder, mas agora querem fazer parte do jogo. “O Partido Novo é um dos grandes vencedores ao apostar em uma parcela importante da classe média, que historicamente votou no PSDB” – João Amoêdo, do Novo, ficou em quinto lugar em sua primeira disputa eleitoral.

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Outras exclusões

Havia outros excluídos políticos no Brasil. Isso acontecia com os liberais no Brasil. Pela primeira vez, eles têm uma clara expressão política representada pelo Partido Novo, que é um dos grandes vencedores dessa eleição. O Novo é um partido inovador, no Brasil, pois nasce de um conjunto de ideias, e não de um arranjo político. Em quem votavam os liberais, no Brasil? No PSDB? Talvez. Mas agora há um partido, e por isso nossa democracia está mais completa. O mesmo vale para o PSOL, que é uma alternativa de esquerda mais nítida que o PT, e cresceu nestas eleições.

Estas foram as eleições do cidadão comum, dos sem-retórica. O tipo que não se enquadra mesmo e reage a qualquer disciplinamento ideológico. Ele ganhou poder com a tecnologia e vem produzindo um enorme barulho. Em geral, a elite intelectual não o suporta. Umberto Eco deu perfeitamente o tom: é o idiota da aldeia. Poucas vezes eu vi em uma democracia um divórcio tão grande entre o pensamento do homem comum e o pensamento da elite política intelectual. É uma espécie de incompreensão. Isso vem de um crescimento do politicamente correto, das restrições ao humor, da imposição de códigos identitários e da obediência a uma certa estética. Bolsonaro, em grande medida, se fez a representação do tipo que cansou da vigilância cultural e da fraseologia treinada dos políticos. A autenticidade, que por vezes pode se expressar como vulgaridade, adquiriu um valor na política. O ponto é que é um erro tomar cada frase de mau gosto pelo seu valor de face. É preciso respeitar a diferença cultural, mesmo que ela se manifeste do lado que não suportamos.

Em boa medida, a escolha foi muito mais antissistema do que pela renovação. Há um sentido muito difuso de reação do cidadão comum contra o sistema político tradicional. Nas grandes democracias, houve uma fragilização das instituições que historicamente fizeram a mediação, a racionalização e o filtro do discurso público. No Brasil não foi diferente. Tudo isso é muito mal compreendido e tratado como “risco democrático”, mas na verdade é a expressão da capacidade da democracia de se reinventar. Uma espécie de destruição criadora, em que novas formas surgem. O flash mob, as redes, os movimentos de rua, os think tanks, os mandatos coletivos, etc. Isto tudo ainda está para ser compreendido. O certo é que todos ganharíamos mais com alguma humildade, perguntando o que as pessoas estão tentando dizer, com seu voto de protesto, em vez de apostar na histeria da recusa. Outra coisa que nos faria bem é retomar o debate programático, que ficou abafado, nestas eleições, pela gritaria da guerra cultural.

 

Debate raso, chinfrim

O PT, com sua desfaçatez costumeira, diz que queria uma discussão programática, mas no fundo sustentou toda a sua campanha partindo da retórica de fim de mundo, do abismo, do “ele não” e da ameaça “fascista”. Neste plano, como é possível fazer debate de ideias e programas? Do lado de Bolsonaro foi a mesma coisa. Em vez de discussão das reformas da previdência ou política, ele jogou contra. Recuou de suas propostas de privatização, derrubou a reforma da previdência no Congresso e silenciou seu principal conselheiro econômico. Não que isto poderia ser diferente. É apenas uma constatação. No segundo turno, gastamos mais três semanas decisivas em assuntos irrelevantes, em vez de discutir o que realmente deverá pautar o País a partir de janeiro.

Tudo demonstra que saímos do segundo turno sem saber qual é a proposta de idade mínima dos candidatos para a reforma da previdência. Discutimos não mais do que generalidades sobre como lidar com a maior crise fiscal do Brasil contemporâneo e sobre o que fazer com a reforma política. E isto não por culpa dos candidatos, mas por culpa do eleitor. A sociedade não está sintonizada com estes temas. Em alguma medida, isto foi responsável pela falência do centro nessas eleições. Sua agenda de reformas, o debate econômico e de políticas públicas estavam fora das eleições.

A derrota nessa eleição não pode ser mensurada em esquerda ou direita. Não foi disso que essa eleição tratou. O PT conseguiu uma recuperação monumental depois do processo de impeachment. Passou por uma situação dramática e conseguiu chegar ao segundo turno. A estratégia de sustentar a candidatura de Lula até a última possibilidade jurídica produziu essa transferência que levou Haddad ao segundo turno. Portanto, acertou a estratégia. O partido conseguiu eleger a maior bancada na Câmara dos Deputados, em meio a uma situação em que seus adversários históricos, como o PSDB, encolheram. Essa eleição não é uma derrota da esquerda, é o fim de um ciclo.

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Novo ciclo

Há indicadores fortes de um novo ciclo na política. Um deles, sem dúvida, foi a falência precoce da ideia do financiamento estatal de campanhas. É preciso entender o recado que foi dado nessa eleição. Alckmin e Henrique Meirelles concentraram mais de 60% de recursos dos candidatos presidenciais, seja público ou privado, e tiveram cerca de 6% dos votos. Não dá para provar que o financiamento estatal é inútil, mas o fato é que, em nome de produzir igualdade, produz mais concentração. Ele conspirou contra a renovação e o arejamento da política. O recurso foi capturado pelas elites partidárias e por quem já detinha mandato. Há ainda outra questão: estamos assistindo ao aumento gradativo da abstenção eleitoral, nas últimas eleições. A sociedade vem sinalizando que o Brasil está maduro para o voto facultativo. A velha retórica de que o brasileiro precisa da tutela do Estado se esgotou. Hoje, temos um eleitor com maior escolaridade e amplo acesso à informação. É preciso que o voto volte a ser um direito.

A não eleição de caciques políticos e de vários nomes tradicionais indica um amadurecimento da política. Isso mostra as forças da democracia. É natural que haja um ciclo de renovação. Os americanos obedecem à regra de que um presidente fica dois mandatos e depois se retira da vida pública. É preciso oxigenar a democracia. Nessas eleições, o eleitor se encarregou de fazer o trabalho. A renovação atingiu diversos partidos e não se localiza em um ou outro espectro ideológico. O que precisamos agora é aprofundar a reforma política. Por uma razão: são as instituições que modelam o comportamento político, no longo prazo. Não adianta imaginar que surgirá, a cada geração, uma liderança de qualidade, sem os incentivos devidos. Precisamos apostar no voto distrital misto, na retomada da reforma do Estado, no fim dos instrumentos patrimoniais, como as emendas parlamentares e a profusão de cargos políticos no governo. Não sei como o País avançará nestas questões, mas aposto que o caminho são reformas graduais, como tivemos com a introdução recente da cláusula de barreira.

A democracia está em risco? É preciso desmistificar essa tese. O Brasil assistiu a uma explosão democrática, ao menos desde 2013. O processo de impeachment foi feito à base de milhões de pessoas nas ruas, goste-se ou não de seu resultado. Não tenho dúvidas em dizer que vivemos um tempo de exuberância, ainda que de profundo mal-estar na democracia. O sistema é hoje mais barulhento e o debate público, mais polarizado. Há dezenas de milhões de pessoas falando sem parar, nas redes sociais. Três décadas atrás havia uma elite de milhares de pessoas com o monopólio da palavra. O barulho, a estridência e a permanente sensação de instabilidade são o novo normal da democracia. Quem quiser lidar com ela, vai ter que se acostumar.

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