O órfão

armando

É o início dos anos setenta e Fernando ouve sem parar o grupo inglês Pink Floyd. Aquele disco negro roda hipnoticamente em sua vitrola o álbum “Dark Side Of de Moon”. O coração que bate forte logo no início e a guitarra chorosa embalam o seu espírito. “Us” é inebriante. Fernando está perdido e não sabe que rumo tomar em sua tão curta existência. Da sua triste janela observa o céu cinzento e triste do outono que se sobrepõe à beleza das folhas douradas e ocres que se soltam das árvores. O frio também já é intenso em maio. O vento cortante é permanente e os dias são mais curtos no inverno. Sim, o inverno que se aproxima célere. Ele terá seus dias de um sol típico e assustadoramente lindo num imaculado céu azul. Nossa! Como são lindos esses dias de inverno no sul, extasia-se Fernando.

Desde que pôs os pés pela primeira vez em Curitiba, essa paisagem poética chamara a atenção de Fernando, um garoto introspectivo que vivia em terras tropicais correndo atrás de uma bola e tomando banho em igarapés. Agora passara a observar que o inverno escancarava uma beleza e melancolia sem igual. Ele lembra que, quando chegou, costumava chorar no inverno e isso lhe era muito estranho e assustador. Nesses conturbados anos setenta, Fernando já não é mais um garoto assustado a fugir de um pai agressivo e indiferente e sim um jovem circunspecto e assombrado com o seu futuro ameaçador, contrastando com o brilho fabulosamente contagiante daquele sol invernal do hemisfério sul. Pensativo, o rapaz tem a firme convicção de que na sua vida inexistirá alguma coisa estável. Naquela sua vidinha insignificante, perpassavam a frustração e a falsa alegria de quem pensa que vai vencer.

Ávido por leitura, Fernando sempre lia tudo que lhe aparecia pela frente. Jornais novos e velhos, os livros da prateleira de seu pai, obras surrupiadas ou emprestadas em bibliotecas, gibis de todos os gêneros e até mesmo literatura de cordel. Naqueles anos distantes, Fernando tinha uma adoração por Kafka não só pela qualidade literária que desde pronto constatou, mas porque ele sofrera com seu pai o que ele sofria com o seu. Afinal, quantas vezes não se sentira como um inseto em seu pequeno e gélido quarto? Era também comum que fugisse de suas mazelas imaginando ser Oliver Twist, pelos maus-tratos que sofria em sua história. Certo dia tomou uma surra tão grande de seu pai, que se trancara em seu quarto sem sair da cama por três longos dias, prometendo que nunca mais sentiria nada por aquele homem que deixara de ser seu pai. Quando saiu, renasceu órfão e prometeu a si mesmo que não seria transformado num inseto.

Fernando então suspira uma última vez. Retira-se da janela e volta a olhar aquele disco girando em sua vitrola, agora já não mais escutando qualquer som que dali saía. Sorumbático, mergulha intensamente na completa solidão e na ausência sentida e doída de sua ainda curta vida de órfão: um pai companheiro e amoroso que o ajudasse a achar seu caminho. Não que não desejasse ser ele um herói com uma capa vermelha que o apanhasse em plena queda no abismo de suas crises existenciais, mas pelo menos que não fosse um algoz de seus sentimentos ainda tão imaturos.

Então os dias e os anos se passaram e Fernando desejou ter para si o mesmo fim de Oliver Twist. Decidiu que nunca mais precisaria de alguém para guiar o seu destino seja ele qual fosse. Seus modestos sonhos renasceram, sentiu-se virando homem, quis trabalhar, namorar e se apaixonar por uma garota que também gostasse dele de verdade e, quem sabe, ter uma calça Lee que fazia o maior sucesso entre elas. Com o primeiro emprego e o soldo no bolso, a calça e a namorada tornaram-se realidade e Fernando então concluiu que ser órfão não era de todo mau.

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