Um silêncio a menos

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Preciso revelar uma pessoa excepcional que conheci há pouco mais de uns meses. A necessidade de expressar esse ser é imediata, pois sua presença pode ser efêmera, afinal tudo o que existe está sujeito a desaparecer. Esse “artista”, como não gosta de ser chamado, é corriqueiro em meu caminho e hoje chegou com seu olhar pequeno e lacrimoso – esqueceu os óculos. Foi entrando de cabeça baixa e pedindo licença como quem não quer atrapalhar ou invadir um espaço que pode não ser seu. Sempre com uma pequena bolsa a tiracolo, vai se acomodando na cadeira estreita, cruza as pernas e não se revela. O ritual segue contínuo com o passar dos dias, os pequenos desenhos que vão sendo derramados na mesa junto com os goles de café colocados sobre a boca.

A primeira vez que tive contato com suas produções não encontrei adjetivo que coubesse na explicação, mas tento aqui qualificar com palavras a grandeza de suas virtudes pictóricas. Ele retirou da pequena malinha verde e depositou sobre a mesa de vidro pequenos fragmentos de papéis de onde emergiam caras e corpos de gentes, algumas cadavéricas e lúgubres, outras extravagantes e libidinosas. Descobri nesse momento que estava diante de um antropólogo, sua especialidade parecia ser desvendar pessoas, era um observador nato. Há tempos não via uma obra tão pungente, capaz de perfurar e ferir as camadas endurecidas das interpretações que a contemporaneidade reivindicou às consideradas “obras de arte”. Despertou tudo, inclusive o espanto e o estranhamento necessários para o reconhecimento de algo profundo e misterioso. Era como uma memória que dizia e explicava a cada coisa. As personagens eram profundamente legítimas: pernas, cabeças, sofrimento, prejuízo, um sol vermelho, duas carapaças entre a legenda “rua”, rabiscos, fundo branco e fundo turvo, esse último, detalhe importante na obra como ele já mencionou.

Para meu mérito, tive o deleite de receber alguns de seus desenhos, que ele costumeiramente me presenteou. Além disso, sempre traz palavras insólitas que logo são gravadas num pequeno caderno. Já tentei captar sua alma muitas vezes, mas percebi que para ele “o importante são os outros”, por isso apresenta-se a partir de suas referências prediletas, entre elas, nosso Paulo Leminski e Dalton Trevisan. Rony Bellinho não é nosso, mas é o carioca mais curitibano que eu conheço. Ele disse certa vez, em um de nossos encontros regulares, que todo artista tem um segredo e eu acredito que ele tenha muito mais que isso. Divaga sobre lembranças como a rosa cromática em seu caderno de desenho quando criança – ele sempre gostou da plasticidade das coisas.

Hoje temos bolachas para acompanhar o café e as longas conversas matinais que inspiram palavras em seu repertório vasto e é de costume ele trazer muitas revistas e fragmentos de jornais onde encontramos nossos temas. Ele traz também muitos nomes, mas hoje parecia um pouco abatido ao entrar com seu andar magro e disfarçado, o cabelo penteado de lado amarrado com uma fita vermelha. É uma pessoa fugidia e por vezes ácida ao expressar suas decepções corriqueiras, mas não pretende anunciar-se, pois parece quase idolatrar uma espécie de anonimato injusto. Esquivo, costuma comentar mais dos outros que de si, me fazendo conhecer seus amigos distantes mais que a ele mesmo. Contudo, sei que se formou em Letras, que envia doce de caju pelo correio para o irmão que mora longe, que gosta de incenso de limão, de tomar café sem açúcar, de falar dos signos da astrologia, de carregar uma caneta na gola da camisa, de usar os papelões das fronhas que compra para fazer desenhos e que tudo me parece “formidável”, me usurpando da palavra que ele frequentemente pronuncia para caracterizar as coisas que lhe agradam.

Não sei onde mora, mas o imagino inquieto e absorvido em seu pequeno quarto, misturando tintas e imerso em pensamentos que talvez incluam indignar-se com a situação artística da capital onde proliferam as demasiadas pseudoproduções artísticas e a estagnação estética. Essa figura original e singular que transita então, em nossa “província”, não se convence nem se corrompe com os méritos e as recompensas venerados por tantos artistas que aqui se encontram e não necessita de aprovação, já que sua obra tem voz suficiente para se manifestar.

Enquanto isso, seguem os dias nebulosos de Curitiba, segue Rony Bellinho pelas ruas tortas dessa cidade que aparenta não ter espaço suficiente para uma obra tão grandiosa que não cabe nem nos olhos nem no bolso dos “compradores de arte” daqui pertencentes. Porém, como ele mesmo já proferiu se utilizando da citação de um de seus poetas favoritos, J. Borges: “Eu posso ter medo, mas minhas obras não”.

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