Chinês para paranaense algum botar defeito

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A sede apertava. A família de Hui Fen Lan estava cansada de tomar o refrigerante servido no avião. Quando a aeromoça passou oferecendo água, ela, a mãe e os três irmãos não pensaram duas vezes. Tomaram a garrafinha de água em um só gole. “Que gosto horrível”, falaram. Era água com gás. Não existia na China. Nenhum deles sabia ler em português ou inglês. Fato que provocou outro pequeno desastre: colocaram no chá sal em vez de açúcar durante a travessia rumo ao Brasil.

A família de Lan, que tinha 11 anos, vinha de Taiwan em 1975 para encontrar com o pai dela que tinha vindo um ano antes para o Brasil. A ideia era tentar construir uma vida mais próspera. “Ele veio antes para ir ajeitando as coisas para podermos vir para cá”, conta. Lan só foi conseguir compreender o português após dois anos. Para arranhar as primeiras frases, levou cinco anos. “No começo só conseguia falar ‘tá bom’”, lembra. Hoje ela trabalha com tradução e é presbítera na Igreja Presbiteriana Chinesa em Curitiba.chineses_lan

Não só o idioma, mas a alimentação também foi obstáculo na adaptação de Lan. “Lá a gente comia um tipo de feijão que era doce. Feijão salgado não era bom”, conta. O arroz, feijão e bife preparados no Brasil só foram entrar no paladar de Lan por obrigação. “Quando eu estudava para o vestibular, saía do colégio e ia direto para um cursinho. Não dava tempo de ir para casa almoçar. Tinha que comer na rua. Aí fui me acostumando com a comida daqui”, relata.

A família de Lan tentou dar os primeiros passos como imigrante em Curitiba. Mas o ano 1975 foi marcado pelo inverno rigoroso e pela neve que caiu sobre a capital do Paraná. “Meus pais sofreram muito com o frio e foram para São Paulo”.

Quinze anos depois, em 1990, Lan se casou com um imigrante chinês que residia em Curitiba. “Quando cheguei aqui, não havia muitos orientais. Muitas pessoas olhavam para gente e até nos seguiam para ver se tínhamos costumes diferentes. As pessoas ficavam curiosas com a gente”, rememora.

Hui Fen Lan é uma das quase 20 mil pessoas que vieram da China para o Brasil, segundo dados do Censo de 2010. Dessas, 2,4 mil teriam vindo até aquele ano para a Região Sul do Brasil. Esse processo de imigração remonta ainda ao período colonial do país.

Em 1810, os primeiros chineses vieram da colônia portuguesa de Macau para contribuir nas lavouras de chá. Foram trazidos por Dom João VI, que estava preocupado com o aumento do preço da bebida praticado pela Inglaterra. Segundo pesquisa realizada por Gabriel Portugal Sorrentino, dados dão conta de que em 1860 havia menos de mil chineses no Brasil. Esse número teria aumentado para cerca de quatro mil chineses até o fim do período imperial, em 1889.

“Ao contrário dos outros países, o Brasil não recebeu grande aporte de imigrantes chineses até pelo menos metade do século XX”, explica o autor. Em 1900, foi registrada a primeira entrada oficial de 107 chineses no estado de São Paulo. Muitos que vieram nessa época foram trabalhar na agricultura.

 

Duas fases

Sorrentino divide a imigração chinesa para o Brasil em duas fases: a primeira, que vai do início do século XIX até meados do XX, no qual o fluxo migratório é pequeno. O segundo período se inicia a partir da metade do século XX até os dias atuais. “O marco temporal por mim instituído para tal divisão é o ano de 1949, data da revolução comunista chinesa, que desencadeia uma série de fatos que servirão como vetores para a diáspora chinesa”, sentencia o pesquisador.

O comunismo e a falta de liberdade depois que Mao Tsé-tung tomou o poder na China em 1949 foram preponderantes para a intensificação do processo imigratório chinês.

 

Comunismo

A chegada de Mao ao poder fez com que muitos saíssem da China continental em direção à ilha de Taiwan. É dessa região que grande parte dos chineses saiu com destino ao Brasil, processo que aumentou a partir da década de 90. Outros que estavam radicados em Moçambique também optaram por arriscar a vida em outros países, incluindo o Brasil.

Entre os anos de 1949 e 1978, o fluxo migratório de chineses para o Brasil é pequeno. “Nesse período, a maioria dos trabalhadores que migraram o fizeram clandestinamente, uma vez que era proibido deixar o país durante o regime de Mao e o Brasil não tinha relações diplomáticas com a China, que foram restabelecidas apenas em 1974”, explica Sorrentino. Dessa forma, a maior parte dos chineses entrou no país após o ano de 1979, principalmente nos últimos 20 anos do século.

A historiadora e pesquisadora Miao Shen Chen conta que, no Brasil, a maior parte dos imigrantes chineses veio das províncias do litoral no sul da China, de Guangdong (Cantão), da província de Fujian e de Taiwan. “A partir de 1979, os recém-chegados também trabalharam como sacoleiros ambulantes. Mas começaram a vender produtos mais amplos, desde toalhas de mesa, tecidos de seda, até joias de ouro, pérolas e pedras preciosas”, conta.

 

Curitiba

Shen Chen ressalta que a capital do Paraná é a terceira cidade do Brasil que mais reúne imigrantes e descendentes de chineses do Brasil. A imigração para Curitiba teve início no século XX, nos anos 1920, com um pequeno número de pessoas que vieram diretamente da China. “Após a revolução da China, entre os anos de 1970 e 1980, cerca de 200 famílias radicadas em Moçambique, antiga colônia portuguesa na África, escolheram o Paraná como sua nova casa”, explica. Antes, a maioria era oriunda da China continental.

Quando eles chegaram a Curitiba, começaram a trabalhar em pequenos comércios, principalmente na área de alimentos. A partir de 1990, chegaram mais chineses de Hong Kong, da China continental e de Taiwan, com o intuito de melhorar a condição da economia. A maior parte dos descendentes trabalha na área da alimentação em restaurantes ou lanchonetes, outros participam de atividades ligadas ao comércio.

Outros vieram, como atesta a historiadora Shen Chen, para desenvolver pesquisas no país. “Uma parte dos imigrantes buscava desenvolver pesquisas nas universidades brasileiras ou trabalhar na área acadêmica”, conta. Um desses casos é o professor aposentado do Departamento de Fisiologia da Universidade Federal do Paraná Chang Yang Chiang, que chegou a Curitiba em 1967.

Após deixar Pequim, morou em Taiwan, cursou mestrado nos Estados Unidos e veio lecionar no Brasil. “Em 1963 cheguei a Recife, depois vim para cá. Só saí para cursar meu doutorado na Alemanha”, conta Chang, que nasceu em 1930. O docente foi pioneiro na linha de pesquisa de Neurofisiologia e foi um dos responsáveis pela implantação dos laboratórios da área na universidade.

 

Foto Lan: A família de Hui Fen Lan veio de Taiwan para o Brasil em 1975

 

De Xangai para Curitiba

Há 24 anos, Pen Li atravessou o mundo em direção a Curitiba. Ela, que trabalhava em um banco chinês em Xangai já fazia 10 anos, pediu demissão e rumou para a capital paranaense para acompanhar o então marido, que deseja construir vida nova por esses lados do planeta. Além das dificuldades com o idioma, a saudade da família apertou.chineses_pen_li O filho mais velho ficou na China.

No Brasil, Pen Li deu à luz Fábio, hoje com 23 anos, que estuda na Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR) e já traça planos de realizar cursos de pós-graduação na terra materna. Pen Li trabalha como tradutora e também no setor financeiro de uma empresa. Mas o desejo de retornar para Xangai ainda não desapareceu. “Ela pensa todo dia em voltar”, conta Fábio. “Pensei várias vezes em voltar. Mas vamos ver o que a vida prepara”, confessa Pen Li.

 

Foto Pen Li: A imigrante Pen Li, que veio de Xangai, ainda mantém a vontade de um dia retornar para a China

 

 

Acupuntura made in Taiwan

O acupunturista Chen Sheng Shihang adotou no Brasil o prenome ‘Leonardo’. O idioma foi a principal barreira de Chen quando chegou ao Brasil em 1989. Aos 29 anos, ele veio casado, com o pai, a mãe e dois irmãos. Mas antes de pisar em Curitiba, Chen passou três anos em Buenos Aires. A família não se adaptou. Passaram três meses em São Paulo e, ao ficarem sabendo da capital do Paraná, arriscaram uma nova migração.

Eles saíram de Taiwan em busca de liberdade. A China ainda passava pelo comunismo e a ilha de Taiwan vivia sob uma ditadura. “O cenário não era muito bom”, lembra. chineses_leonardoChen hoje também é presbítero da Igreja Presbiteriana Chinesa em Curitiba.

Foi em Curitiba que, aos 49 anos, decidiu cursar a faculdade de Fisioterapia. Apesar dos anos vividos no Brasil, ele se via obrigado a gravar todas as aulas. “Mas tinha uma professora que falava a 400 quilômetros por hora. Uma vez tive que escutar a aula 20 vezes para entender o que ela dizia”, lembra.

Outro processo de adaptação foi na culinária. “Quando pisei numa churrascaria pela primeira vez, saí de lá com uma convicção: não comeria carne vermelha por três meses. A gente come carnes mais leves”, conta Chen.

 

Foto Leonardo: O acupunturista Chen Sheng Shihang adotou no Brasil o prenome ‘Leonardo’

 

 

Um pouco da cultura chinesa

Um dos principais pilares culturais transmitidos de geração a geração é o idioma. Algumas famílias falam em mandarim, outras em cantonês. Mas é raro encontrar algum descendente que não saiba algum dos dois idiomas.

A questão religiosa também é uma das tradições dos imigrantes. Praticamente toda família possui, por tradição, a imagem de Buda em casa.chineses_biblia Alguns encaram o budismo mais como uma filosofia e praticam outros credos cristãos, como pode ser observado na Igreja Presbiteriana Chinesa. Nesse templo, o culto é bilíngue, com tradução simultânea do português para o mandarim.chineses_panfleto

Também é tradição entre os familiares chineses celebrarem a entrada do Ano Novo Chinês, que é comemorado com apresentação de artes marciais, com a dança do dragão e do leão, que simbolizam a força e invocam a sorte e a felicidade. No horóscopo asiático, 2018 é o Ano do Cachorro, que representa lealdade, honestidade, fidelidade e constância. Na China, o Ano Novo é comemorado segundo o calendário lunar. Os primeiros registros sobre a comemoração do Ano Novo Chinês têm aproximadamente dois mil anos.

 

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Foto Bíblia: Páginas da Bíblia redigida em mandarim e usada no culto da Igreja Presbiteriana Chinesa em Curitiba

Foto Panfleto: Panfletos bilíngues entregues na Igreja Presbiteriana Chinesa

Fotos Culto: Culto na Igreja Presbiteriana Chinesa em Curitiba

 

 

O dono do restaurante

A língua portuguesa ainda não está 100% dominada. Mas o carisma para atender a clientela compensa qualquer dificuldade. Sany Ng se sente mais à vontade falando o dialeto cantonês. Desde 1993 morando em Curitiba, Sany veio com a mãe e dois irmãos para reencontrar o pai que morava no Brasil desde 1980.

A saída da terra natal se deu por motivações econômicas.chineses_sany A família morava no campo e tinha uma vida simples. Ao pisarem no Brasil, encontraram-se com o pai Ping Jung Ng em São Paulo e no ano seguinte vieram residir em Curitiba.

Aqui trabalhavam desde as 5 horas da manhã até perto da meia-noite em uma lanchonete. “Era muito cansativo. E foi ali que fui aprendendo português com os funcionários e clientes”, conta Sany.

A lanchonete se transformou aos poucos em um restaurante, que Sany mantém com a família no bairro Água Verde. No entanto, para chegar aonde chegou, Sany enfrentou desconfiança de parte dos brasileiros. “Sem falar que nos chamavam de ‘japoneses’ de forma irônica e pejorativa”.

Ele se casou com outra descendente chinesa e teve três filhos. O hábito de se casar com alguém da mesma etnia é costume entre os imigrantes chineses. “Fica mais fácil para manter as tradições, o idioma e o espírito trabalhador dos chineses”, diz Sany.

 

Foto Sany: O empresário Sany Ng fala o dialeto cantonês e mora no Brasil desde 1993

 

 

De Moçambique para o Paraná

José Luiz Chong já chegou a ficar 25 horas sem cessar jogando Mahjong, um jogo de mesa de origem chinesa, com outros três amigos. Todo domingo ao menos uma partida é sagrada. Composto de 144 peças, o jogo veio ao Brasil por meio da imigração chinesa.

Chong nasceu em Moçambique, quando o pai Peh Yu, com 18 anos, deixou a China após a Segunda Guerra Mundial para buscar novas alternativas de vida. Lá ele conheceu Chin Cheng You e se casou. Chong nasceu em Moçambique em 1958 e desde cedo aprendeu o dialeto cantonês que os pais falavam em casa.chineses_chong

Diante da instabilidade política do país africano, a família de Chong manteve contato com alguns imigrantes chineses que moravam no Brasil e vieram para Curitiba. Chong tinha 17 anos e mudou-se para as terras tupiniquins com mais seis familiares. O começo não foi nada fácil. A falta de dinheiro obrigou quatro famílias chinesas a alugarem um apartamento para dividirem.

Em um espaço de quatro metros quadrados, com dois colchonetes, dormia o pai, um amigo e Chong. No antigo Cefet, atual UTPFR, Chang cursou faculdade e, mais tarde, chegou a lecionar na instituição em curso técnico e de engenharia. Em 1991, idealizou o Curso Apogeu e em 2003 fundou o Colégio Acesso.

Atual presidente da Associação Cultural Chinesa no Paraná, Chong tem o sonho de montar uma escola bilíngue, que ensine mandarim e português. “Também quero estruturar um espaço que fortaleça e intensifique a cultura oriental para os descendentes”, ressalta.

 

Foto Chong: O empresário e professor José Luiz Chong. Sua família veio de Moçambique para o Brasil

 

 

Os chineses do Oeste

Apesar de, no Paraná, Curitiba ser o principal destino dos imigrantes chineses, muitos também foram morar em outras regiões do estado, especialmente no Oeste – na cidade de Foz do Iguaçu.

Segundo a historiadora e pesquisadora Miao Shen Chen, o início da chegada do imigrante chinês à cidade de Foz do Iguaçu foi nos anos 1970 por causa da mudança da política entre EUA e República da China, Taiwan e também a prosperidade econômica da região. A tríplice fronteira (Brasil, Paraguai e Argentina) abriga uma comunidade chinesa que varia de três a quatro mil pessoas.

Cascavel também viu chegar à cidade cerca de 50 chineses que vieram da parte continental do país e também de Taiwan.

 

(Fotos de Diego Antonelli)

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