Com os Malucelli na memória – uma viagem

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cronica_malucelliLuiz Alfredo Malucelli, o Malu, jornalista, radialista, cronista, homem de propaganda, chef de cozinha talentoso, publicou um único livro, “Casos do Malu ‒ histórias, receitas e muitas risadas”, mas deixou crônicas esparsas nos jornais locais e uma, antológica, que republicamos neste número de Ideias. Nascido em Morretes, no litoral, em 20 de abril de 1934, Malu se mudou cedo para Curitiba, onde se destacou no futebol a partir dos 15 anos. Chegou a jogar pelo Atlético, Coritiba e Ferroviário (hoje Paraná Clube). A partir dos 26 anos, dedicou-se ao jornalismo e ao rádio.

 

 

 

Foi em 1877. Pisou o Porto de Paranaguá com os oito filhos e o marido Giovanni, já de meia-idade, corajoso. Deixaram a terra natal, os amigos, enfim, tudo. Trouxeram consigo a esperança de tantos estrangeiros que aqui aportaram, à procura de melhores dias, de um futuro e, quem sabe, da fortuna.

Giovanni não teve muito tempo. Morreu vítima de uma doença tropical, a malária. Mas deixou uma cepa forte: Margherita Gobbo Malucelli e seus cinco filhos homens e três meninas. Marco, o primogênito, com 15 anos, um dos precoces construtores da estrada de ferro Curitiba-Paranaguá, foi um exemplo de retidão, justiça e amor ao trabalho.

Mas a nossa principal heroína foi a bisavó Margherita. Assumiu a família, enquanto rogava ao imperador ajuda para trazer irmãos do marido falecido para ajudá-la na criação da família. Dela se contam histórias deliciosas.

Costumamos dizer que a primeira condução da família foi uma mula de carga (ou um burro?).

Depois de uma ligeira estada em Alexandra, onde ficavam temporariamente os imigrantes italianos, a nossa “bisa” e os oito filhos foram morar numa pequena área, na atual reta do Porto. Ali, plantaram verduras, aipim, bananas etc. Para ajudar no sustento, Marco empregou-se na construção da estrada de ferro, onde muitos deram suas vidas.

Mas a nossa “bisa” também criava galinhas, e uma delas se destacava: tinha ninhadas fantásticas.

Na época, passavam por ali inúmeros tropeiros. Levavam erva-mate para os engenhos movidos a força hidráulica. A erva plantada serra acima era levada para ser beneficiada serra abaixo: São João, Porto de Cima, Morretes. Eram dezenas de tropeiros e centenas de muares com as suas cangalhas. Um desses tropeiros se encantou com a tal galinha-choca e sua ninhada numerosa. Madalena Trombini, a Tia Nena, garante que eram pelo menos trinta pintainhos, a cada choco. Obviamente, ela não viu; mas quem conta um conto, aumenta um ponto.

Voltemos ao tropeiro. Propôs à “bisa” a compra da galinha e seus “trinta” pintinhos. Nada! Não estava à venda a galinha mais prolífera de Morretes. O homem insistiu, até que propôs uma troca irrecusável: Dona Margherita poderia escolher qualquer animal da tropa, com cangalha e tudo, pela galinha. Negócio fechado! Os meninos Malucelli – Marco, Batista, Lourenço, Antonio, Domingos e João (este o meu avô) – passaram então a levar lenha para a cidade, não mais num carrinho de mão, mas numa vistosa mula e sua cangalha. A lenha já cortada em feixes era vendida em várias casas para fregueses certos. Uma mula de carga foi a primeira condução de uma família que venceu todas as dificuldades de clima, idioma e fatalidade.

Marco Malucelli foi outro nosso herói. Não o conheci, mas meu pai, o saudoso Alfredo, lembrava sempre cheio de orgulho, em seus relatos de família, a retidão e o espírito de justiça do primogênito e líder do clã. Já proprietários de um pequeno engenho de cachaça e produtores de bananas, construíram dois sobrados, onde os Malucelli, hoje em sua maioria com mais de sessenta anos, nasceram.

Nos sobrados, filhas e noras eram tratadas com igualdade. Contam que certa vez a mulher de Marco, Josefina, encarregada das compras na cidade, adquiriu um par de chinelos de couro. Inteirado da compra, Marco perguntou:

– Comprou também para as cunhadas?

E ante a negativa de que o dinheiro só dera para um par, sentenciou:

– Então a senhora só o usará quando puder comprar outros pares para as suas cunhadas.

Marco Malucelli e Marco Tozetto, outro imigrante italiano da mesma época, eram muito amigos e foram contratados para uma determinada tarefa. Cumpriram-na antes do tempo, deixando o empregador muito satisfeito. Quando foram receber em horários distintos, o patrão pagou o combinado com o Marco Malucelli e entregou-lhe a quantia do outro Marco. Com o Tozetto fez o mesmo: pagou o que lhe devia e mais a parte do Marco Malucelli. Os dois se encontraram e cada um comunicou que havia recebido a parte do outro. Imaginando que o patrão se enganara, imediatamente foram ao seu encontro para devolver o que haviam recebido a mais. Para surpresa de ambos, o patrão afirmou:

– Não! Não me enganei! Paguei dobrado porque vocês valem mesmo por dois marcos!

Era uma alusão ao marco alemão, que já naquela época valia mesmo.

Meu avô João morreu aos 45 anos de úlcera gástrica. Chegou a voltar para a Itália, onde, com outros italianos de Curitiba – lembro-me do Bertoldi, pai do Aramis, Mattana, o Plácido, dono do hotel Roma, que era uma espécie de consulado italiano e morretense na Capital – foi-se tratar nas Águas de Recoaro.

O “vô” João, segundo meu pai, era um homem extremamente severo, estatura mediana, louro arruivado. “Brabo”! Contam que, ofendido pelo prefeito de Morretes, deu-lhe uma surra de chicote. Na saída de Morretes, perto da ponte velha de metal, ao lado do restaurante Madalozo – que vai para o Central e Sítio Grande, propriedades da família até 1958 –, existe uma ponte. Naquele tempo era construída de troncos e com piso de estiva de jiçaras. Malcuidada, provocou acidente com uma das carroças da família que transportava bananas para a estação da estrada de ferro. Um dos cavalos quebrou a perna. Avisado, o prefeito acabou se irritando com as reclamações do “vô” João e afirmou que, em vez do cavalo, quem deveria ter quebrado a perna era “você, seu italianinho de merda”!

Outra figura marcante na família e da minha infância foi o tio Sebastião, o único dos cinco irmãos do meu pai que ficou por lá. Passamos, eu e outros tantos primos, inúmeras férias em sua casa no Central. Nadando no valo que movimentava os engenhos de cachaça e uma serraria, pescando lambaris e carás no Nhundiaquara e cavalgando os pobres cavalos que, depois do trabalho, se prestavam a incontáveis corridas.

Tio Sebastião morreu acidentado debaixo de um trator, o grande sonho que conseguiu realizar. Um trator de esteira, com lâmina para destocar. Quando veio buscá-lo em Curitiba, com um caminhão velho, despencou na Serra da Graciosa. O trator, um Hanomag, passou por cima da cabina do caminhão e matou meu tio Sebastião e minha tia Mariquinha.

Tio Sebastião era encarregado das plantações de cana, em fase de expansão, pois a família havia construído uma pequena usina de açúcar. Lembro-me das visitas que fiz a bordo de sua charrete e do ódio que meu tio alimentava pelo capim-de-angola. Capim-de-angola é uma verdadeira praga em Morretes, onde o calor e o excesso de chuva compõem o habitat natural para ele.

– Esse desgraçado cresce um palmo por dia – irritava-se tio Sebastião, mastigando o “olho” do maldito capim.

Outro ídolo da minha infância foi o juiz de Direito Rolando Malucelli. Formado, concursou-se em Santa Catarina, onde exerceu e veio a falecer prematuramente. Grandão, era uma santa figura. Extremamente modesto e bondoso, só depois de morto é que viemos a saber da trilha de lisura e dignidade que deixou no Estado vizinho, onde ruas e praças conservam hoje sua memória.

Morretes mudou muito e aos poucos se transforma num refúgio sentimental para os Malucelli e os Trombini (os três “velhos” Trombini – Sinibaldo, já falecido, Geraldo e Mirtillo – são casados com três “meninas” Malucelli). As famílias subiram a serra a partir da década de 30 e agora estão voltando. Sempre unidas, construíram um recanto maravilhoso no final da reta do Porto, à beira do inigualável Nhundiaquara e aos pés do majestoso Marumbi.

Foi lá que tudo começou. A “bisa” Margherita, sua prodigiosa galinha-choca, a mula de carga que, trocada pela galinha, deu início aos negócios da família. Uma velha história, que a gente jamais gostaria de esquecer.

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