Direita, volver

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Pela primeira vez a direita mais conservadora assumirá o governo do país. A população aguarda com ansiedade e a maioria aplaude ou apoia todas as suas iniciativas. Espera a superação da crise o mais rápido possível e, por enquanto, confia. Mesmo que entenda que o desafio é grande. O primeiro passo para uma avaliação realista da situação é reconhecer o tamanho do problema. Para controlar a dívida pública, uma das mais pesadas do mundo, a nova equipe terá de batalhar durante quatro anos. Se der tudo certo, poderá celebrar um avanço importante no fim do mandato de Jair Bolsonaro. Se a estratégia for mal concebida, ou se as medidas forem mal negociadas, a herança para quem assumir a Presidência em 2023 será assustadora, bem mais do que aquela deixada pelo presidente Michel Temer.

Só em 2023, no começo do governo seguinte ao do presidente Jair Bolsonaro, as contas primárias ficarão de novo no azul, disse o especialista à Comissão de Assuntos Econômicos do Senado (CAE). Contas primárias são calculadas sem os encargos financeiros. Portanto, só em 2023, de acordo com a projeção, o governo terá algum dinheiro para pagar pelo menos uma parte dos juros vencidos. Até lá, nem isso. Enquanto a mera operação do governo consumir mais que o valor arrecadado, será preciso rolar os juros, além do principal, e assim a dívida bruta continuará em crescimento.

A dívida bruta do setor público já superou 77% do Produto Interno Bruto (PIB) e é maior, proporcionalmente, que a da maior parte dos países, desenvolvidos e em desenvolvimento. Em alguns poucos países desenvolvidos o endividamento é superior ao brasileiro, mas suas condições de financiamento são melhores que as do Brasil. Não se resolverá o problema do déficit primário da noite para o dia com uma bala de prata, resumiu Felipe Salto, afastando claramente a hipótese apresentada durante a campanha eleitoral pelo técnico indicado para o Ministério da Economia, Paulo Guedes. Até agora, lembrou, o controle das contas tem sido realizado basicamente com o corte dos chamados gastos discricionários, como os investimentos.

Para avançar, o novo governo terá de atacar também as despesas obrigatórias. Destas, as mais pesadas são as da Previdência. O sistema é amplamente deficitário e sua situação deverá rapidamente piorar nos próximos anos.

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A direita passará no teste?

Na medida em que Jair Bolsonaro escala seu governo e escolhe cinco generais para compor o núcleo duro, entre eles o general Mourão, vice que passará a coordenar diretamente a ação administrativa, a esquerda que ocupou o poder por quase uma década e meia sente-se perdida e não tem outra explicação a dar que não seja a esfarrapada teoria do golpe de direita que acabará em ditadura. O organograma do Palácio do Planalto está a receber nova configuração. Por quê? Para ajeitar melhor nomes e funções da trupe nova que está chegando.

A verdade é que Bolsonaro não negocia politicamente e vai compondo seu ministério com o aval das bancadas temáticas, das igrejas e seguindo sempre a sua linha. A indicação do juiz Sergio Moro, como ministro da Justiça com superpoderes para combater a corrupção, foi outro duro golpe nos petistas que veem Moro como o algoz de Lula.

Mais um estupor. A indicação do novo chanceler,o diplomata Ernesto Araújo. Ele é apresentado como uma espécie de cavaleiro cruzado pelo resgate da identidade do Ocidente no mundo moderno. Para o novo chanceler, Donald Trump não é o chefe da superpotência mundial que toma decisões desconexas, arbitrárias e caóticas. Longe disso: Araújo o vê como alguém que atua “na recuperação do passado simbólico, da história e da cultura das nações ocidentais”.

E para acabar com as esperanças da tigrada, surgiu Ricardo Vélez Rodrigues, o colombiano escolhido por Jair Bolsonaro para comandar o Ministério da Educação, que escreveu em seu blog um texto no qual diz que o dia 31 de março de 1964, que marca o golpe militar no Brasil, é “uma data para lembrar e comemorar”.

Vélez compara a instauração da ditadura a outros eventos históricos, como o “dia do fico”, em que dom Pedro se recusa a deixar o Brasil e voltar a Lisboa. “Nos treze anos de desgoverno lulopetista os militantes e líderes do PT e coligados tentaram, por todos os meios, desmoralizar a memória dos nossos militares e do governo por eles instaurado em 64.”

Estes exemplos são suficientes para que se tenha uma ideia clara de que teremos um governo ultraconservador, de direita radical. Ora, pois, as eleições presidenciais entronizaram Jair Bolsonaro (PSC-RJ), ferrenho defensor da ditadura militar, do autoritarismo e de ideias ultraconservadoras, como presidente da República. Surpresa? Só os falsos profetas da academia e os militantes sectários da esquerda tinham certeza oposta. Eles não perceberam que a onda conservadora que elegeu Bolsonaro levantou-se há muito tempo e só tem crescido no Brasil.

 

A esquerda na maionese

As vitórias de Dilma Rousseff, apesar de todos os escândalos de corrupção, passaram a impressão de que o petismo seria invencível na sociedade. Louca ilusão. Após eleger em 2014 o Congresso mais conservador em cinco décadas, a sociedade brasileira atingiu o ápice do conservadorismo dos últimos anos em dezembro de 2016, segundo uma pesquisa divulgada pelo Ibope. De acordo com o levantamento, 54% dos brasileiros têm posições tradicionais em relação a questões como legalização do aborto, casamento entre pessoas do mesmo sexo, pena de morte e redução da maioridade penal.

A análise mostrou uma variação importante. Em temas ligados à violência, todos os questionamentos apresentaram oscilação para cima. A porcentagem de pessoas a favor da pena de morte saltou de 31% para 49%. Quando a pergunta foi acerca da prisão perpétua para crimes hediondos, a porcentagem passou de 66% para 78%.

Mas isso não é tudo. A onda conservadora se expressava em manifestações muito concretas. As manifestações contra exposições artísticas no País, o retorno de um moralismo exacerbado, principalmente nas redes sociais, e a ascensão de políticos como o deputado federal Jair Bolsonaro nas pesquisas de intenção de voto para presidente da República transformaram o cenário político e social do Brasil.

Nada disso deveria ser tão surpreendente. A ascensão da política promovida por Bolsonaro e pela extrema-direita tem a ver com a ausência de opções plausíveis no cenário político nacional. O momento se tornou propício para o surgimento de líderes do tipo, diz.

 

Trocando em miúdos

É possível dizer que o Brasil é um país conservador? De acordo com o professor Emérito da USP, José Arthur Giannotti, o conservadorismo brasileiro está associado às bases históricas de construção da sociedade. “Um país que nasceu do Estado, forjando uma economia escravocrata e mais tarde, muito desigual, só poderia ser governado por elites cujos acordos excluíam as vontades populares. Há uma camada que sempre foi extremamente conservadora no Brasil e que agora encontrou meios de manifestação”, disse.

A desigualdade é um fator que ajuda a explicar o conservadorismo atual, acredita José Álvaro Moisés, professor de Ciência Política da USP e Diretor Científico do Núcleo de Pesquisa de Políticas Públicas – NUPPs/USP. “Qualquer sociedade contemporânea complexa e desigual, como é o caso do Brasil, tem uma multiplicidade de interesses que estão escondidos e passam a se debelar publicamente, gerando uma série de conflitos”, afirma.

Para Luiz Felipe de Alencastro, professor emérito da Universidade da Sorbonne, em Paris, e docente na Fundação Getúlio Vargas (FGV), a onda conservadora atual se apoia na insatisfação da classe média. “Eu acho que é uma gente que se sentiu ameaçada por uma ascensão social de pessoas mais modestas. Os últimos debates sobre concentração de renda mostram que os ricos continuaram ricos, e os pobres avançaram em detrimento da classe média. Isso levou a uma exacerbação dessa mentalidade quase de apartheid social”, pondera.

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Mistura de política e religião

Outro fator que tem acentuado a presença de ideias mais tradicionais é o crescimento das igrejas pentecostais e neopentecostais no Brasil, pontua Reginaldo Prandi, sociólogo da USP. O número de evangélicos no País aumentou 61,45% entre 2000 e 2010, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Em 2000, cerca de 26,2 milhões se disseram evangélicos, ou 15,4% da população. Em 2010, eles passaram a ser 42,3 milhões, ou 22,2% dos brasileiros.

Atualmente, a Frente Parlamentar Evangélica (FPE), liderada pelo deputado João Campos (PRB), tem 92 deputados no Congresso. Os membros da FPE são a principal vitrine da mistura de política e religião no Brasil. Dezenas de projetos de cunho conservador ligados aos deputados da frente vêm sendo levadas ao Congresso.

“Isso [conservadorismo] é efeito do crescimento do segmento evangélico e de alguns setores de posição ideológica mais à direita, e que até agora não se sentiam à vontade para se expressar”, argumenta Álvaro Moisés. “Esses agrupamentos que estão colocando a cabeça de fora e assumindo suas identidades estavam escondidos. Eles tinham medo de se manifestar contra a liberdade sexual, contra a união de pessoas do mesmo sexo”, analisa.

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O fator Bolsonaro

“Tenho feito pesquisas com o eleitorado brasileiro para medir a confiança nas instituições. Elas apontam uma tendência de desconfiança muito grande dos setores mais diversos em relação aos partidos e ao Congresso Nacional”, afirma. “Se essa tendência de descrença e rejeição permanece por muito tempo, essas pessoas que se sentem desrespeitadas começam a formar uma base social a favor de posições autoritárias.”

Bolsonaro arregimentou seguidores no Brasil e fora dele. Durante viagem pelos EUA, ele defendeu o fim da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), a liberação de armas de fogo para cidadãos, a desburocratização para empresas, entre outros temas. A visita contou tanto com gritos de “mito” entoados por simpatizantes quanto com a manifestação de pessoas contrárias às posições expostas pelo militar.

“Uma coisa que a gente aprendeu desde o começo com as pesquisas é que quem sai na frente nem sempre chega lá. A coisa só vale depois que a campanha começa, as alianças se estabelecem, os discursos vêm a público e as rivalidades aparecem. Ele é um franco-atirador, e eu não acho que tenhamos que ter medo desse tipo de figura”, completa. Pois, pois, Bolsonaro chegou lá e agora assusta todos os que não acreditavam em seu sucesso eleitoral, inclusive os falsos profetas instalados em institutos de pesquisa.

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