Do Centro Cívico e sua fauna

fauna

A temporada de troca de governos altera os hábitos da população nativa da ilha do poder paranaense

 

O Centro Cívico é uma parte diferente de Curitiba. Com Bento Munhoz da Rocha, em 1953, a região pouco habitada e distante do centro, formada por campos e pinheirais que margeavam o Rio Belém, transformou-se no Centro Cívico, uma ilha de construções modernistas, com suas rampas e seu mármore, sede do poder político paranaense.

A mudança deu origem a uma fauna própria que perambula pelos prédios públicos. Essa fauna se divide basicamente em dois grupos: os que mandam e os que obedecem. Os que mandam são numericamente minoritários e mais difíceis de serem encontrados. Vivem trancados em gabinetes e andam com motoristas para lá e para cá. São os poderosos. Vamos deixá-los de lado no momento e concentrarmo-nos na família dos que obedecem. Daremos a eles o nome de servidores. Os servidores moram neste ou naquele bairro. Não importa. O que os une é o local que frequentam entre a segunda e a sexta-feira. O servidor trabalha no Executivo, no Judiciário e no Legislativo. Alguns trabalham no Tribunal de Contas também, embora pouca gente saiba dizer em qual poder o órgão se encaixa.

O servidor é um bicho de hábitos relativamente simples. Ele gosta de cafezinho, de adesivos para estacionar o carro nas vagas privativas e de consultar o portal da transparência para saber quanto ganha o colega. Há algumas diferenças entre as espécies. Há os concursados e os comissionados. Estes são mais suscetíveis a sacudirem bandeiras nos sinais em época de eleição; aqueles têm o hábito único de calcular, todo dia, quanto tempo falta para a aposentadoria. No resto, porém, eles são iguais em tudo. Ao meio-dia os servidores deixam os prédios em busca de um restaurante por quilo bom e barato. Falam aos celulares, cumprimentam o Zé da Bíblia e descansam nos banquinhos em frente à Assembleia.

A vida do servidor, mais ou menos tranquila na maior parte do tempo, enfrenta duros percalços nesta época. O fenômeno ocorre de quatro em quatro anos ou, com alguma sorte, de oito em oito, e chama-se “temporada de troca de governo”. O período é marcado pela substituição dos poderosos por conta de um processo chamado eleições. As eleições fazem com que saia uma turma dos poderosos e entre outra. Muitos poderosos possuem capacidade única de sempre ocuparem algum cargo e, portanto, sempre estarem presentes no Centro Cívico. Mas, como já dissemos, este texto não trata deles. Falemos das consequências da substituição dos poderosos para os servidores.

No geral, a temporada de troca de governo gera uma série de efeitos indesejáveis para os servidores. Eles sofrem com insônia, falta de apetite e dificuldades de concentração. As adversidades fazem com que apenas os servidores mais bem adaptados sobrevivam, isto é, mantenham seus cargos. Isso significa abandonar antigos chefes e pular rapidamente na canoa dos novos chefes. Para o comissionado, uma migração bem-sucedida é a chave entre continuar a vida no seu ambiente natural ou ser expulso do grupo. Muitos comissionados acabam migrando junto com seus antigos chefes, indo do Palácio Iguaçu para a prefeitura ou para a Assembleia, por exemplo. Mas centenas não têm a mesma sorte. Terão de buscar abrigo em casas tristes e bolorentas que abrigam os partidos, ou, em último caso, terão de enfrentar o ambiente cruel e inóspito da iniciativa privada, com sua insegurança e suas regras próprias, um mundo em que certamente o servidor não se sente à vontade.

Nesta dança, o concursado conta com um pouco mais de segurança. Mas ainda assim é sempre uma tristeza quando um outrora servidor alfa no Centro Cívico é mandado para uma espécie de exílio em alguma repartição qualquer do Butiatuvinha, ou de qualquer outro bairro afastado do centro de Curitiba. E quando o servidor não é despachado para o exílio forçado no interior do Paraná? Terrível destino que aflige centenas de servidores na temporada de troca de governo.

Neste ano, para piorar, o servidor ainda não sabe sequer para onde correr. O poderoso-mor eleito em outubro inventou uma tal de consultoria privada e, como resultado, não se sabe ao certo qual poderoso vai mandar em qual pasta. Para piorar, pode haver mudanças na Assembleia assim como houve no Tribunal de Justiça. O servidor está ansioso. Olha para o celular de cinco em cinco minutos, lê os blogs, busca almoçar onde possa ver e ser visto. É o espetáculo da sobrevivência na ilha do Centro Cívico.

 

 

Legenda: O Jardim das Delícias Terrenas, Hieronymus Bosch

 

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