É bom já ir pra casa

mazza

 

Vivemos politicamente uma situação anedótica que lembra uma piada descrita por José Vasconcelos: um cidadão dirige seu automóvel quando estoura um pneu e percebe que está sem o macaco para fazer a troca. A uma distância de três quilômetros há uma luzinha que lhe dá a esperança de assistência. Na caminhada sofrida vai, em monólogos, imaginando gesto de má vontade do hipotético socorrista e é o suficiente para lançar brados de um atormentado shakespeariano. E à medida que avança na estrada a carga aumenta e de tal forma que, ao bater na porta e ao ver o morador com iluminação à antiga, um arqueológico lampião, xinga-o, desesperado, recomendando em plena ira que enfie o macaco naquele lugar.

Vivemos há décadas em plena democracia, mas nos revelamos extremamente ineptos para as possíveis mudanças de paradigmas como os que vieram com o agito das ruas em 2013 e, sobretudo, as revelações da Lava Jato. A expectativa quanto ao que fará Bolsonaro é muito próxima ao estado mental do desesperado motorista do pneu furado.

É verdade que ele contribuiu com suas falas controversas e preconceituosas para gerar essa hostilidade e com ela o temor de uma onda fascistoide que está presente em países bem mais credenciados em medida civilizatória do que o nosso. Aos poucos percebe-se o grau de dificuldades que terá com outros poderes como o reajuste do Judiciário e os benefícios que Michel Temer concedeu às montadoras que agravam severamente a quadra fiscal, algo que não se tira de letra.

Aos poucos recua nos transbordamentos, mas a cada momento inova, numa emulação com Trump, ora na questão da embaixada de Israel, ora na ação pretendida com a saída do país dos médicos cubanos. Nos EUA, há estamentos nos órgãos públicos habilitados a modular o comportamento presidencial como aqui também. Essas são reservas endógenas que serão acionadas na hipótese de desvios inaceitáveis, isso sem falar na mecânica institucional que operou em situações parecidas, embora não iguais, com Jânio Quadros e Collor.

Palavrão na estrada, ainda que justificável, só faz aumentar a aura supostamente ofensiva de alguém que está apenas no aquecimento. Paranoia não é resistência e essa, de uma forma ou de outra, sempre haverá.

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