O Proust de Vila Isabel

bellinho

Em certo período da Universidade, surgira uma disciplina: Técnica de Composição Escrita. Dentre as opções lançadas, uma, por certo, me enstusiasmara de pronto: A Letra de Música & Seu Universo. Trabalho individual. Tão logo sabedor da tarefa, tratei de sair em busca de um nome representativo.

Sem pestanejar, pensei naquele que traduzia os aspectos mais “clamorosos” àqueles que sabiam o que era/é residir nas cercanias de Vila Isabel & Arredores…

Pelos anos 80, a finada Última Hora encartava um suplemento feminino aos sábados. E o Pasquim trilhava seus caminhos de molotov & esgrima. Nas duas publicações, o letrista escolhido assinava suas crônicas. Imperdíveis na altura daquele momento brasileiro. Abertura política. Óbito celebrado à Ditadura… Volta dos exilados.

Finalmente, consigo o telefone da residência do letrista, cronista, salgueirense, vascaíno, Aldir Blanc.

Marco com sua esposa o encontro para o trabalho da universidade. Tudo certo. Na hora. No apartamento. Aldir me recebe cordialíssimo. Atenciosíssimo. Partimos então para a entrevista gravada, ele me narra sua maneira, segundo ele, de “letrar”.

Peço a ele suas maiores referências. Ele cita: Capinam & Torquato Neto. Nisso, aquela paradinha: ele abre uma Malt-90… acende um Advance. Me pede um segundo. Traz os seus livros para autografar: Rua dos Artistas & Arredores – Porta de Tinturaria – publicados pela heroica Codecri. Ainda me presenteia com dois ingressos para assistir ao show do João (Bosco) no Clara Nunes…

Resultado da façanha: nota máxima ao trabalho. Sucesso na audácia. E aqui quero homenageá-lo com uma de suas narrativas mais deliciosas. Escolho uma do livro Porta de Tinturaria. “Amor de mãe”.

Dona Lucélia, viúva, mãe de três filhas. Helena Lúcia, Lúcia Helena, Lúcia Lucélia. Todas bonitas, prendadas, formadas. Mas Dona Lucélia queria as três felizes na cama, como ela tinha sido com o Vivaldo, o falecido. Os pretendentes aos respectivos noivados, ao serem recebidos pela matriarca, eram motivo de um teste, ministrado por Dona Lucélia. Esta trazia o calção do falecido, bem largo… e pedia aos futuros noivos para subir a escada e ver se havia algum “curto”. Já no último degrau, a filha perguntava à mãe – que segurava a escada aqui embaixo: “… é curto, mãe?”

No que esta respondia ao ver a lâmpada, o noivo e o “panorama…”: “É filamento pra ninguém botar defeito, Tás numa boa…”

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