Os sete pecados capitais e a MPB

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— Parte V —

 

Dezembro, mês de tratar de vários pecados. Tudo em altas doses, como se o mundo fosse acabar junto com o ciclo do planeta. Mas o mundo caminha, o sol gira, o universo se expande, a gente não sabe de nada e mantém a fidelidade, repetindo velhos hábitos que chegaram para cada um de acordo com as instruções culturais-familiares.

Nesta parte do mundo, um dos traços mais marcantes desta época é aquela comilança sem fim em eternos almoços e jantares de final de ano, de Natal, de festa da firma, de revelação de amigo secreto, de encontro anual com a turma da faculdade e por aí vai. E a cada rendez-vous a balança se altera um pouco, mas isso não inibe as extravagâncias. Ao contrário, parece que toda gula, por magia cristã, será perdoada.

Mas a gula está entre os sete pecados capitais apontados por São Tomás de Aquino. E o assunto é tão sério para a Igreja Católica – ou foi tão sério, ou queria ser tão sério – que as escrituras não condenam apenas o excesso: o pecado está, e principalmente está, também em sentir prazer ao comer.

Uma historinha rápida: São Francisco de Assis se prevenia de cair em tentação salpicando a comida com cinzas, assim comia porque precisava manter o corpo atento e forte para sua jornada, mas não sentia prazer algum no ato porque o gosto era intragável. Desculpe dizer isso aos crentes, mas para mim isso é maluquice pura.

A MPB se esparrama na boa mesa e muita gente já cantou os prazeres vividos entre pratos e copos, incluindo aqueles que conseguem se embalar em prato que nem conhecem, caso de Zeca Pagodinho, em música de Luiz Grande, Barbeirinho do Jacarezinho, Marcos Diniz, “Caviar”: “Sou mais ovo frito, farofa e torresmo / Pois na minha casa é o que mais se consome / Por isso se alguém vier me perguntar / O que é caviar, só conheço de nome / Você sabe o que é caviar? / Nunca vi, nem comi / Eu só ouço falar”.

Em 1942, Dorival Caymmi, aquele gênio maluco, conseguiu colocar em música uma receita completinha de vatapá. Se você duvida que o homem não falhou nas indicações do que fazer para servir o tradicional prato baiano, procure um passo a passo aí e confira como ele não desafinava nem na cozinha: “Bota castanha de caju / Um bocadinho mais / Pimenta-malagueta / Um bocadinho mais / Amendoim, camarão, rala um coco / Na hora de machucar / Sal com gengibre e cebola, iaiá / Na hora de temperar / Não para de mexer / Que é pra não embolar / Panela no fogo / Não deixa queimar”.

Outro que também soube dizer o caminho das panelas cantarolando um samba foi Chico Buarque e sua prescrição para uma feijoada completa: “Mulher, você vai fritar / Um montão de torresmo pra acompanhar / Arroz branco, farofa e a malagueta / A laranja-baía ou da seleta / Joga o paio, carne-seca / Toucinho no caldeirão / E vamos botar água no feijão / Mulher, depois de salgar / Faça um bom refogado / Que é pra engrossar / Aproveite a gordura da frigideira / Pra melhor temperar a couve mineira”.

E já que assunto virou a esquina do feijão, é bom lembrar as Frenéticas a cantar “O preto que satisfaz”, música de Gonzaguinha, abertura da novela da Globo “Feijão Maravilha”, que ficou no ar de 19 de março a 4 de agosto de 1979: “Dez entre dez brasileiros preferem feijão / Esse sabor bem Brasil / Verdadeiro fator de união da família / Esse sabor de aventura / Famoso Pretão Maravilha / Faz mais feliz a mamãe, o papai / O filhinho e a filha”.

E se Gonzaguinha tratou do Feijão Maravilha, Luiz Gonzaga, ao lado de J. Portella, compôs “Feijão-de-corda”, mas que fala pouco sobre a refeição e se liga mais no amor. E o velho Lua também compôs “Baião de dois”, mais que pecado, um crime nos dias de hoje, digno de linchamento em praça pública: “Abdom que moda é essa / Deixa quente a colher / Homem não vai na cozinha / Que é lugar só de mulher / Vou juntar feijão-de-corda / Numa panela de arroz / Abdom vai já pra sala / Que hoje tem baião de dois”.

Vamos sair do menu feijão, sem esquecer que ele foi lembrado por muitos outros,  para tratar de banana.

A primeira, aquela de João de Barro e Alberto Ribeiro, do carnaval de 1938, parece que foi ontem. E foi, porque virou clássico cantado desde então: “Yes, nós temos bananas”. A historinha da música contada por Zuza Homem de Mello:

“Ao ouvirem casualmente um grego quitandeiro, dizer para um freguês a frase absurda e gramaticalmente incorreta ‘yes, we have no bananas’, os compositores Frank Silver e Irving Cohn tiveram a ideia de usá-la numa canção humorística, cheia de disparates: ‘Yes, we have no bananas / we have no bananas today / we’ve string beans / and onions, cabbages and scallions / and all kind of fruit…’ (‘Sim, nós não temos bananas / não temos bananas hoje / nós temos vagens / e cebolas, repolho e alho-poró/ e toda espécie de fruta…’).  Lançada em 1923, a canção estourou na voz do cômico Eddie Cantor, que a aproveitara na peça ‘Make it snappy’. Daí espalhou-se pelo mundo como um dos sucessos dos ‘loucos anos vinte’, quando a música dos Estados Unidos assumiu a hegemonia do mercado internacional.  Quinze anos depois, partindo dos compassos iniciais de ‘Yes, we have no bananas’, Braguinha e Alberto Ribeiro fariam a marchinha carnavalesca ‘Yes, nós temos bananas’. A composição era uma crítica bem-humorada à empáfia dos americanos, que chamam de ‘bananas republics’ os países da América Latina: ‘Yes, nós temos bananas / Bananas pra dar e vender / Banana menina / Tem vitamina / Banana engorda e faz crescer’. Segue-se uma segunda parte que, depois de referir-se às nossas exportações de algodão e café, termina com um desaforado ‘Pro mundo inteiro / Homem ou mulher / Bananas pra quem quiser’. Sucesso carnavalesco. ‘Yes, nós temos bananas’ antecipa clima e motivos explorados pelo tropicalismo no final dos anos sessenta”.

No mesmo tema, tem o “Vendedor de bananas”, de Jorge Ben Jor; Joyce Moreno também escreveu música sobre o assunto.

O cardápio da MPB é vasto quando o assunto é comida. E cada pedaço do país se arrisca em encaminhar via cancioneiro essa outra fatia da cultura brasileira. É bonito de ver, abre os apetites, do corpo e do espírito.

Termino a coluna com um protesto. Nunca que gula deveria ser pecado, acho isso o fim da picada! Por isso convido você a ir para o computador, abrir o YouTube, digitar “Marisa Monte – Não é proibido”, cantar junto e rezar por essa cartilha: “Jujuba, bananada, pipoca / Cocada, queijadinha, sorvete / Chiclete, sundae de chocolate / Paçoca, mariola, quindim / Frumelo, doce de abóbora com coco / Bala juquinha, algodão-doce e manjar / Venha pra cá, venha comigo / A hora é pra já, não é proibido / Vou te contar: tá divertido / Pode chegar”.

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