Repolho sai de cena

marcio

 

Acordo e é tão bom estar, de fato, acordado. Escapo de um pesadelo com enredo absolutamente assustador, prefiro até esquecer. Meu coração bate tanto, não desacelero. Dormindo ou acordado, tanto faz, sigo tenso o tempo todo.

Então, em frente ao Café Pequeno, vejo a Escuta. Olho para baixo, quero evitar contato visual, mas ela me vê e pronuncia em voz alta o meu nome: Repolho!

Foram sete, ou mais?, minutos que demoraram para passar.

Perguntou o que ando fazendo e, evidentemente, desconfiei que se referia ao crime que cometi semana passada. Eu disse estar atrasado, a Escuta queria saber se era para um encontro, comentei que tinha compromisso e ela falou cuidado para não se comprometer, o que me deixou ainda mais noiado.

Estou na Praça Glú-glú-ié-ié e quase fico tranquilo por não encontrar conhecidos. Mas se não identifico nenhuma pessoa, alguém pode estar observando os meus passos, o que não é nada bom, ao contrário.

Sigo por ruas ao acaso, aparentemente sem destino temporário, e entro em uma pastelaria. No balcão, peço um especial de carne e ovo, refrigerante e sento em uma cadeira. Olho para o lado esquerdo e, coincidência?, vejo o Baiúca. Nos cumprimentamos, ele sorri e pergunta o que estou fazendo. Digo que tenho fome, o Baiúca pede informações sobre minhas atividades, permaneço em silêncio, e o sujeito diz que tem sonhado comigo.

Um garçom traz o pastel e o refrigerante, dou mordidas no salgado e goles na bebida, e o Baiúca faz perguntas que não respondo.

Nunca fui entrevistado e, sei lá, isso que acontece agora, em vez de uma entrevista, deve ser algo que se aproxima de um interrogatório.

Termino o pastel e o refrigerante e digo ao Baiúca que preciso sair. Ele pergunta para onde vou e com que finalidade, comento que é urgente e tenho pressa, o Baiúca segura em uma de minhas mãos, a direita, e afirma que a pressa é inimiga da perfeição.

Não quero ser perfeito e já estou caminhando.

Desconfio que o Baiúca sabe o que fiz semana passada, mas não quero pensar nisso. Preciso esquecer e apenas andar.

E em toda rua por onde passo vejo conhecidos, como o Lambe, a Jira, o Fióte, a Pochete, o Haxa, a Gorda Loka e o Mauro Mensagem, entre tantos. Abaixo a cabeça, aumento a extensão de meus passos e escuto cada um e todos eles pronunciando o meu nome: Repolho, ei Repolho!

Começo, finalmente, a correr. Pessoas olham, alguns agarram a mochila, o celular ou a mão de um filho. Esbarro em pedestres, derrubo dois ou três, quase me desequilibro ‒ tenho a impressão de que alguém passou a perna em mim, e, apesar disso, e de outras coisas, me movimento em velocidade acima da média, pelo menos em relação a minha média, os três quilômetros por hora.

Cada passo é um temor, terror, posso estar em terreno minado, com armadilhas sem fim, mundo inimigo. Por isso, estou correndo. Correr, fugir, sabe-se lá para onde, mas correr ‒ é isso. Vou em frente. Até o limite de minhas energias e, creio, tenho energia suficiente para ir bem distante, longe daqui.

Tchau.

 

 

Ilustração: Vitor Mann

 

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