Os sete pecados capitais e a MPB

— Parte VI —

 

É da condição humana sentir ira. Falar o contrário não é realista.

Segundo teoria científica, todos os cérebros mais primitivos da nossa evolução de alguma maneira ainda se acomodam nos nossos. Passaram os milênios a deixar resquícios a cada nova experiência da transformação. Somos todos selvagens cobertos pelas camadas das civilizações.

O que esperar diante da comprovação crua, sem manipulação ideológica ou agrado de ocasião?

Ao que me diz respeito, espero que os anos de evolução tenham sido bem educativos na formação da minha condição de primata. Fora isso, tenho o que as sociedades, conhecimento e cultura disponibilizaram para eu aprender.

Às vezes, tudo falha.

Aristóteles, esta criatura que depois de tantos anos ainda domina a filosofia do nosso ocidental pensamento, enumerou três tipos de ira: a dos violentos atinge quem se irrita por qualquer coisa; a dos rancorosos, em que a ofensa recebida fica cozinhando na lembrança do que aconteceu; a dos obstinados, para quem não há sossego enquanto não houver vingança.

O convite desta edição é ver como os raivosos da MPB se comportam. E a primeira parada é na emblemática “Vingança”, música de Lupicínio Rodrigues, do início dos 1950. Antes da letra, a historinha.

Lupicínio, o dono da dor de cotovelo do cancioneiro nacional, compôs o clássico inspirado em causa própria. Foi para Mercedes, com quem viveu durante alguns anos. Ela quis traí-lo com um funcionário, mas o rapaz, meio assustado com o assunto, resolveu fazer a delação premiada antes do fato consumado e contou ao patrão. Lupicínio rompeu com Mercedes e ela caiu em desgraça. Quando Lupi soube que ela estava “chorando e bebendo na mesa de um bar”, não teve piedade: tratou de usar a imagem em sua música que alcançou sucesso imenso na voz de Linda Batista e foi gravada por muita gente. “Mas, enquanto houver força no meu peito / Eu não quero mais nada / E pra todos os santos / Vingança, vingança / Clamar / Ela há de rolar qual as pedras / Que rolam na estrada / Sem ter nunca um cantinho de seu / Para poder descansar”. Orra! Coitada da Mercedes.

Outro que conhece bem os desejos de vingança é Caetano Veloso, que sabe que de um amor delicado pode brotar muita coisa difícil de diluir e o veneno transforma o que antes era calmaria em sede de queixa: “Um amor assim violento / Quando torna-se mágoa / É o avesso de um sentimento / Oceano sem água / Ondas, desejos de vingança / Nessa desnatureza / Batem forte sem esperança / Contra a tua dureza / Princesa, surpresa, você me arrasou / Serpente, nem sente que me envenenou”.

E só para fechar o capítulo dos vingativos da MPB, vale lembrar Chico e sua “Atrás da porta”, música que mistura o fel do abandono àquela maldita sensação de saber que não existe castigo no mundo que forneça escapatória para certas coisas: “Dei pra maldizer o nosso lar / Pra sujar teu nome, te humilhar / E me vingar a qualquer preço / Te adorando pelo avesso / Pra mostrar que inda sou tua / Só pra provar que inda sou tua”.

Outra face da ira, pegando a linha aristotélica, é aquele lance violento, que não tem medidas e vai destruindo tudo em volta. Adriana Calcanhotto sabe: “Nada ficou no lugar / Eu quero quebrar essas xícaras / Eu vou enganar o diabo / Eu quero acordar sua família / Eu vou escrever no seu muro / E violentar o seu gosto / Eu quero roubar no seu jogo / Eu já arranhei os seus discos”.

Gracia do Salgueiro também liberou a ira em “Raiva de tudo”, que Bezerra da Silva cantou: “Estou tomando raiva até de mim / Pelo que vejo na face da terra / O mundo já pode ter fim / Pode sim”.

E tem aquele tipo que, quando o sangue ferve, não quer nem saber, fala pelos cotovelos, queima navios, se despede de qualquer razão para, ao fim e ao cabo, acabar tudo igual. Alcione cantou: “Na hora da raiva não pensei em nada / Perdi a cabeça e descontrolada / Peguei minhas coisas gritei vou embora / Te disse umas tantas só pra te agredir / Mas você me pegou com aquele seu jeito / Me puxou com força me apertou o peito / E como acontece quando a gente ama / E esqueci da raiva e acabei na cama”.

Não dá para passar por uma edição que fala sobre o assunto sem um destaque especial para a dupla João Bosco e Aldir Blanc em “O ronco da cuíca”. A música é forte e revira as entranhas do país, que parece não ter limites na descida: “Roncou de raiva a cuíca / Roncou de fome / Alguém mandou / Mandou parar a cuíca, é coisa dos home / A raiva dá pra parar, pra interromper / A fome não dá pra interromper / A raiva e a fome é coisas dos home / A fome tem que ter raiva pra interromper / A raiva é a fome de interromper / A fome e a raiva é coisas dos home”.

E quem engole a raiva, revira o choro, coloca pedra em cima e deixa que a ira se transforme em rancor? Não é fácil também e o caldeirão da MPB ferve com o assunto, o que tem de gente com o coração que é um pote até aqui de mágoas não está no gibi. Para ficar em um exemplo porque a página está perto do fim, cito a emblemática “Mágoas”, de A. Pontes, cantada por Paraguassu. Antes da letra, um trecho de entrevista dada pelo próprio Paraguassu à TV Cultura de São Paulo para o programa MPB Especial, em 1974. Perceba como o negócio é sério: “Essa canção, quando gravei, fez um sucesso de arromba, vendeu milhares e milhares de discos. Acontece que o sucesso foi tão grande que até ao suicídio chegou. Ouvindo essa música, suicidaram-se cinco apaixonados. Escrito por jornais e dito por cartas que esses apaixonados tocaram esse disco e depois liquidaram com a vida. O nome dessa gente eu não sei, não, mas tem um que chama-se Ramiro e a pequena (tratamento dado às mocinhas, na primeira metade do século) chamava-se Lídia, mais ou menos isso, eu não me lembro bem, o nome certo não me lembro. Um foi em Campinas, outro foi em Limeira, outro foi em Curitiba, outro foi em Rio Bonito. O ano foi de 1929, 1930, os suicídios foram em diversas épocas diferentes de um e de outro. Tanto é que a Carioca (revista que já não existe), do Rio, dá essa nota que está no meu álbum. E de Limeira estão até os dois, tem a fotografia, uma reportagem da Gazeta, os dois mortos na cama, ele com o revólver no peito”. A canção é de 1925: “Maldita hora / Partirei saudoso / De ti choroso / Ao pensar em ti / Malditos olhos / Que abraçou meu peito / Maldito afeto / É paixão de amor”.

Cuidado! A ira às vezes é provocada por uma tristeza violenta. Repare: não uma tristeza lânguida ou silenciosa; não a tristeza melancólica e reflexiva. Falo da tristeza cruel, bárbara, atroz. E esta tristeza trilha as vielas mais escuras das sensações, oferece pêsames aos sorrisos, tranca as vontades e quando esbofeteia o coração se transforma em rancor.

Um bichinho muito miudinho que tem fome e corrói as entranhas, as tripas, suga o sangue e cospe veneno. O rancor cresce se alimentando de qualquer esperança que encontre pela frente, devora tanta coisa que explode e seus farelos se juntam, criam massa sólida e volumosa chamada raiva.

A raiva ressuscita o corpo, faz vibrar uma porção de sentidos, se move rápida e cheia de engenhos. Atira copos, quebra cristais, engata em erros, contesta o perdão. A raiva se aprisiona num grito para dentro, sapateia no túmulo do amor e vira ódio.

E o ódio é paixão em grau máximo. Rasga fotografias, pica cartas, arruína prédios, espatifa qualquer sinônimo do antônimo e no avesso incendeia tudo. E só consegue provar que em cada brasa ainda mora a primeira chama: o amor, que não pode ser insultado para que não faça parte deste círculo de imperfeições.

Cuide bem do amor e até a próxima edição.

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