Reinações de Clementina no país dos lambrequins

 

 

cronica_herminio_retrato Nasceu em 1935 o compositor, poeta, produtor musical e agitador cultural Hermínio Bello de Carvalho. Hermínio lançou mais de 20 livros de poesias e crônicas e entre suas produções em discos de sucesso estão os de Cartola, Nelson Cavaquinho, Pixinguinha, Carlos Cachaça e Elizeth Cardoso. Em 1965, ficou conhecido como o apresentador de Clementina de Jesus ao público brasileiro e agora, você leitor(a), pode conferir a crônica Reinações de Clementina no país dos lambrequins pelo plural artista.

 

Seria um lambrequim? Os adornos rendilhados em madeira, nos beirais das casas, não deixavam dúvida: eram sim lambrequins, em tudo assemelhados às rendas francesas que paramentavam minha mãe Clementina de Jesus, quando a liturgia de seu ofício exigia que a portentosa Rainha Ginga pisasse no palco. Quelé eu a via assim: casa de madeiras nobres, lambrequinada, sombreada por imensas araucárias.

Araucárias: de princípio, Clementina pensou que fossem coqueiros, embora maiores do que aqueles que Jorge Amado lhe havia mostrado em Itapoã. Bem que estranhou a falta de cocos, até dar-se conta da realidade.

Clementina passeava sua realeza de mãos dadas com o estivador aposentado Albino Pé Grande, seu marido, achando graça na gringalhada jovem, loura e farfalhante que lhe pedia autógrafos na Rua das Flores, que ela gostava de atravessar de ponta a ponta. Ora parava na Boca Maldita, ora no bondinho colorido pra conversar com as crianças, ora se refestelava nos bancos de madeira junto aos aposentados. Sonhava em levar de lembrança uma daquelas jardineiras floridas, pra deitar inveja nas vizinhas faladeiras lá do Grajaú, que às vezes levavam pouca fé em seus contados.

A preta velha já avisara a mim, seu filho de olhos verdes: que eu os deixasse, esses meus olhos, vagabundeando pelos bairros mais antigos de Curitiba. Sonhava-os lambiscando a belezura daquelas casas que a ela, Mãe de Quelé, pareciam coisa de filme antigo, cartão-postal, tampa de caixa de costura trabalhada em madeira. E advertia: que me agasalhasse pra não pegar constipado, que o frio andava tinhoso de rachar os lábios. A Elis bem que lhe avisara. E os dela, Mãe Quelé, beiçudos e africanos, os protegia com manteiga de cacau que o sambista Lápis lhe presenteara.

Araucárias, eram araucárias! Relembro-as filetadas em madeira, claro!, na tampa da caixa onde minha mãe rebuscava dedal, retroses, botões de madrepérola, agulhas, tesouras. “Veio do Paraná”, informava para o vaso de fundo negro, todo recoberto de desenhos que, dizia, era artesanato dos polacos daquelas bandas. E agora, tantas décadas depois, ali na Praça do Relógio, eu e um amigo muito querido estamos os dois afagando as araucárias nas tampas das mesmas caixas de nossa infância. Os passantes apontavam aquele mulato sestroso (“não se parece com o Paulinho da Viola?”), e era.

Guardo, em minhas lembranças, as lições que me foram ensinadas por Pedro Nava: olhar pouco pro chão, deitar a vista pros balcões e sacadas, a lupa do olhar assestada nos lambrequins, nas platibandas, nas sancas e cantoneiras que, mesmo sujinhas, são para serem admiradas com vista desapressada e, se possível for, até preguiçosa. E se insisto em falar em lambrequins e araucárias, é porque existem logomarcas que definem a topografia de um lugar, assim como os cheiros. Lembro que na Grécia tudo recendia a carneiro, era carneiro? Já Salvador parece resinada com dendê. O Paraná, engraçado, não me cheira a barreado, mas a canela, açúcar mascavo, cravo-da-índia, creme chantilly. Talvez porque Mãe Quelé, doceira, me pedia que a levasse para se empanturrar na velha Schaffer: aqueles apfelstrudels, manjares, quindins – que prazer vê-la lambuzar-se nas massas polvilhadas que se esfarelavam pelo vestido. Cismou um dia levar gengibirra (“muito melhor que Coca-Cola, meu filho!”) para Divina Elizeth. Que deve ter adorado.

Falei no barreado, e a primeira vez que o provei foi no Guilhobel. Embirro um pouco com as chamadas comidas típicas, desde um célebre almoço que cismaram de me oferecer numa adega madrilenha, onde Hemingway costumava tomar uma sopa negra e nauseabunda com lesmas boiando na superfície, e que me foi trazida acompanhada de manzanilla. Mesmo vexame passei no Mercado Modelo com meu amado Camafeu Oxóssi, com o caldo de lambreta castigado nas pimentas. Claro que o barreado não oferece tais surpresas. Mas se recomenda que a um estrangeiro se explique do que consiste o acepipe, da ritualística de que se reveste sua feitura. Feijoada, por exemplo, há que adorná-la com miçangas, plumas e paetês antes de exibi-la a um estrangeiro. Aqueles nacos peludos, orelhas, focinhos espaventados, pés, buchos, convenhamos: pode haver prato visualmente mais asqueroso do que uma feijoada? Pois bem: no Paraná pode-se comer pantagruelicamente de tudo: comidas chinesas, alemãs, judias, polacas, churrascos monumentais – e até lindas e litúrgicas feijoadas. Já experimentou comer farofa com macarrão? Pois não cultive esses preconceitos: vá ao velho “Bar Palácio” e deixe baixar o queixo. Estique no Largo da Ordem prum chope preto no Hümmel-Hümmel e prum salsichão no chucrute. Claro, um bom Steinhaeger cai bem nessas horas. Depois aguente o porre.

E as livrarias? Tropeça-se nelas. Certa vez fiquei hospedado onde estava Dina Sfat. Alguém já ouviu serenata em quarto de hotel? Pois Zezé Gonzaga e eu fizemos uma para Dina. Dia seguinte quis presenteá-la com um livro, fui ali na esquina e trouxe um raríssimo de João Villaret e, para mim, uma primeira edição de Henriqueta Lisboa que o Mindlin adoraria ter em suas estantes. Discos? Pense no mais impossível. Leon Barg vai encontrá-lo para você, novinho em folha. Deu tesão de ir a um concerto, assistir a uma boa peça, participar de um workshop, ouvir um jazz maneiro? Pegue um jornal: a oferta é grande. Quem sabe uma ida ao Multiespaço Aramis Millarch ou ao Conservatório Aramis Millarch de Música Brasileira? Continuo aguardando que inaugurem. Andy Warhol voltou à moda? Fantástico: mas um nacionalismo paranaense não pega mal, sobretudo se você pode embarcar num Poty, num Miran, num Elifas Andreato. Bichos do Paraná. Baixou uma insônia? Bote uma beca, um ótimo programa é ir para a Rua 24 Horas. Bateu carência de amizades? Procure um ombro amigo: Aramis Millarch espalhou vários nos muitos discípulos que formou por aí. (“Não te cansas de falar dele?”)

E lá se pode falar do Paraná sem citar seu mais importante animador cultural? Embora não conste nos dicionários o ofício de fazedor de lambrequins, invoco para meu irmãozinho Aramis a denominação de lambrequeiro. Ele rendilhou o Paraná com sua arte de escrevinhador memorialista, de homem preocupado com o registro das culturas de sua terra. A estatura física de Aramis não condizia com a impressão que nos deixava: um Paraná caudaloso, por onde navegava (imensa araucária) rendilhado de lambrequins.

Embora em tupi a palavra Paraná signifique “semelhante ao mar”, não se cometa o exagero de louvar-lhe as costas praieiras, comparando-as com outras mais aquinhoadas de sol e arrebentações surfeiras. Nem se deite complexo por isso: as de Miami são uma porcaria. E as do Rio andam poluidinhas de dar dó.

Costumo dizer que, para se conhecer o Paraná, a gente quase precisa de passaporte, tantos são os países que ele abriga cultural e territorialmente. A viagem costuma sair mais econômica por causa da diversidade. Tudo bem: a Grécia é uma maravilha, Nova York um escândalo, Paris um escárnio. Mas que tal pegar um carro e conhecer incríveis formações rochosas de Vila Velha? Para que ir a Caracala, se temos a Pedreira Paulo Leminski? Vá a Foz do Iguaçu, esbalde-se musicalmente em Londrina, se enraíze em Antonina, abolete-se em Cascavel, não se esqueça daquele teatrinho do século XVIII (ou XIX?) na Lapa. E aproveite para reparar: as cadeiras continuam de palhinha.

Lambrequins, araucárias, feijoada e saxofones existem por todas as partes. Mas assim como a feijoada de Zica é inigualável e como o sax de Pixinguinha é um só, também os lambrequins e as araucárias que por aí gorjeiam, que me desculpe o poeta, não gorjeiam como no Paraná.

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