Turbante, fé e comércio: os muçulmanos no Paraná

muculmanos_00abre

A ideia era deixar a cidade de Trípoli, no Líbano, e partir para os Estados Unidos. Mas um amigo fez Haidar Omar mudar os planos. Insistiu que eles deveriam deixar o Oriente Médio e seguir para o Brasil. As possibilidades de crescimento por esses lados seriam maiores. Dito e feito. No dia 29 de novembro de 1959, Omar atravessou o Atlântico e chegou, aos 19 anos, ao Brasil.

Decidiu tentar recomeçar sua vida no Norte do Paraná, na cidade de Jandaia do Sul. Contudo, para regularizar a documentação em território brasileiro, precisou vir a Curitiba. E se encantou com a capital paranaense.

muculmanos_01

Em poucos meses após pisar em solo brasileiro, Omar se mudou para Curitiba. Desembarcou em maio de 1960 e foi logo tratando de montar uma loja para custear as despesas. O hoje comerciante é casado com uma brasileira, possui sete filhos e 15 netos e se considera mais brasileiro que libanês. “Em 2003 tentei voltar para o Líbano, mas não aguentei e em seis anos retornei para o Brasil”, conta Omar.

Poucos anos depois foi a vez de o também libanês Said Baki, com então 28 anos, chegar ao Paraná. O seu irmão morava na cidade da Lapa e, para manter a família unida, Baki encarou, em 1963, quase um mês a bordo de um navio – com direito a escalas na Itália, no Egito e na Grécia – para, finalmente, chegar ao Brasil. “Quando cheguei meu irmão ficou tão feliz… Ele disse que o coração dele estava enorme de felicidade”, lembra.

Formado em Direito, no Líbano, Baki mora no Paraná há 55 anos e já está se aposentando do comércio. “Aqui no Brasil fiz minha riqueza. Tinha lojas na Lapa e em Curitiba”, conta ele, que hoje está com 82 anos. Durante as cinco décadas em território paranaense, Baki já voltou para visitar a terra natal mais de 30 vezes.

As histórias de Haidar Omar e Said Baki estão inseridas na segunda onda de imigração muçulmana para o Paraná. Segundo o pesquisador Omar Nasser, autor de uma dissertação de mestrado sobre o tema, essa fase começa em 1941 e segue até início da década de 1970, com maior pico na década de 1950. “Havia uma instabilidade política da região que promoveu o processo de migração. E com a alta da economia do café no Brasil, que agitava a economia local, os muçulmanos também foram, entre as décadas de 40 e 50, para o Norte do Paraná, como Ibaiti, Santo Antônio da Platina, Londrina e Maringá”, explica Nasser. Havia na região do Oriente Médio um acirramento na disputa entre os diversos grupos políticos que dividiam entre si o controle do estado libanês, provocando disputas e instabilidade social e econômica para a população.

muculmanos_02

O início

Os primeiros imigrantes muçulmanos que pisaram no Paraná remontam aos anos de 1920. Durante esta primeira fase, França e Inglaterra disputavam entre si os mandatos sobre o Oriente Médio, o que favoreceu o surgimento de movimentos nacionalistas. Uma vez estabelecidas entre si as áreas de influência, ambas as potências europeias viram-se às voltas com grupos que, empunhando armas, lutavam pela independência. A instabilidade política, permeada por conflitos, foi determinante para o início da imigração muçulmana.

“Havia uma predominância, nesta leva de imigrantes que saíram da região, de pessoas oriundas do meio rural, especialmente do Monte Líbano, do Vale do Bekaa e do Sul do Líbano”, completa o pesquisador Omar Nasser.

Segundo ele, esses imigrantes vinham de navio e sofriam com doenças, passavam necessidades – há, inclusive, registros de óbitos durante o percurso rumo ao Brasil. “Eles buscavam condições melhores de vida em âmbitos políticos, econômicos e sociais. Com liberdade de atuar no ramo do comércio, que é forte na região já que recursos naturais lá são escassos. Os conflitos acabaram gerando a expulsão do povo muçulmano”, explica.

Na busca por mercado, esses imigrantes foram se espalhando. No Paraná se dirigiram, principalmente, para a região de Curitiba e Paranaguá.

O pesquisador Jakson Hansen Marques, que também produziu uma dissertação sobre o tema, afirma que de maneira tímida alguns muçulmanos começaram a chegar a Curitiba já nas vésperas da Primeira Guerra Mundial (1914-1918). “Mas é entre 1925-1930 quando começam a se estabelecer os maiores contingentes. Os primeiros árabes muçulmanos em Curitiba se estabeleceram na região que compreende a Praça Tiradentes, o Largo da Ordem, o Largo São Francisco, a Rua do Rosário”, escreve.

muculmanos_04

A terceira fase

A terceira fase da imigração muçulmana para o Paraná tem início em meados de 1971 até 2000, com intensificação na década de 1980. A explicação para a saída dos muçulmanos da região era a pouca democracia que assolava, e ainda assola, o Oriente Médio. “A partir da década de 1980, Foz do Iguaçu passou a apresentar-se com mais força como uma opção aos imigrantes. Com a construção da Usina de Itaipu, inaugurada em 1984, a cidade transformou-se ainda mais em um importante centro comercial internacional”, explica Nasser.

muculmanos_05

Vislumbrando um crescimento comercial, muitos decidiram remigrar para a cidade do Oeste paranaense e investir em estabelecimentos comerciais. Hoje, Foz do Iguaçu é a maior colônia muçulmana do Paraná. “Esta imigração foi motivada especialmente pelo comércio paraguaio e pela busca de maior qualidade de vida”, ratifica a pesquisadora Poliana Fabíula Cardozo.

O que existe em comum em todas essas fases de imigração muçulmana para o Paraná é a predominância de sírios e libaneses. Segundo Nasser, eles representam cerca de 80% dos imigrantes muçulmanos no estado. Os outros 20% se dividem entre palestinos, marroquinos, egípcios, senegaleses, iraquianos, argelinos e iranianos – principalmente. Em 20 cidades paranaenses, os muçulmanos estão organizados em torno de uma mesquita, o templo religioso propriamente dito, ou de uma mussala, uma espécie de capela.

muculmanos_06

 

LEGENDAS

1 e 2: O libanês Haidar Omar quase foi aos Estados Unidos, mas desistiu da ideia e decidiu construir sua vida no Paraná

3: O libanês Said Baki, com então 28 anos, chegou ao Paraná

4: Fachada da Mesquita curitibana localizada perto do Largo da Ordem

5: Momentos de oração na mesquita situada no Largo da Ordem

 

 

A escolha do comércio

Falar em muçulmano e comércio é praticamente redundante. Quase todos os descendentes ou imigrantes seguem neste ramo para sobreviver em terras tupiniquins. A explicação para isso tem lógica. O pesquisador Omar Nasser relata que no Oriente Médio, região de origem da maioria dos imigrantes, os recursos naturais são escassos. “Eles veem no comércio uma forma de se sustentarem”, conta.

O também pesquisador Jakson Hansen Marques explica ainda que no final da Segunda Guerra Mundial, e em especial na década de 50 – ápices da imigração muçulmana no estado –, alguns desses recém-chegados se estabeleceram em um primeiro momento em zonas rurais.

“Porém aqueles que se estabeleceram no campo sentiam uma diferença muito grande, comparando a relação existente entre campo-cidade em seu país de origem”, conta. Segundo Marques, apesar de morarem no campo no Líbano, os agricultores tinham intenso contato com a cidade. “Assim, eles iam às cidades negociar seus produtos muitas vezes na semana. Eram verdadeiros comerciantes”, relata. Já no Brasil, as distâncias eram maiores entre a zona urbana e a zona rural.

“Com esta constatação começou um movimento migratório para a cidade, especificamente para o centro das cidades, onde o comércio é muito forte”, completa Marques.

Segundo Jamil Ibrahim Iskandar, em um primeiro momento a opção mais corriqueira era o comércio informal. “Os mascates espalharam-se por todo o Paraná, chegando às mais longínquas cidades do interior. Não é exagero afirmar que desbravaram o interior. As pessoas os aguardavam ansiosas porque, além das mercadorias, levavam notícias das cidades grandes. Carregavam nas mãos ou nos ombros, ou ainda em lombo de burros, malas com tecidos, roupas, armarinhos e muitas ‘bugigangas’”, escreve.

Após estarem consolidados, muitos desses muçulmanos mandavam trazer o restante da família para o Brasil. Isso porque era comum primeiramente vir o homem para estabelecer-se economicamente. “A chegada dos familiares se constituía numa segunda etapa da imigração, ou seja: o estabelecimento de um lar”, resume Jamil.

 

Os muçulmanos escravos

A história da chegada dos muçulmanos ao Brasil é anterior ao processo imigratório, propriamente dito. Aglutinados nos porões dos navios negreiros, milhares de escravos africanos professavam em seus países de origem a fé islâmica.

A entrada mais significativa deste contingente ocorreu a partir do século 19, com a criação do Califado de Socoto na região do Sudão Central, em 1804. “Constituindo-se desde cedo em potência imperial na região central da África, o Califado teve como base da economia o escravismo, tornando-se importante fornecedor de escravos para o Brasil”, explica Omar Nasser.

Tanto que, em 1835, escravos muçulmanos na Bahia realizaram a Revolta dos Malês. E foi essa revolta que deu origem à Colônia Sutil, em Ponta Grossa. Segundo Eonio Cunha, que mantém um blog sobre a cultura islâmica no Paraná, alguns desses escravos fugiram em direção ao Sudeste do Brasil. Como eram nômades, uma parte veio parar no Paraná.

“Eles atingiram, por volta de 1850, a 5.ª Comarca da então Província de São Paulo, ou seja, o atual estado do Paraná”, conta. Os líderes desses grupos que vieram para o estado eram Sebastião Subtil e Domingos Subtil. “Durou entre 15 e 20 anos o tempo de deslocamento, de êxodo, desde a Bahia até a chegada ao Paraná”, relata Cunha. Hoje, os descendentes que moram na Colônia Sutil não professam mais a fé islâmica.

 

Curiosidade

Os primeiros imigrantes árabes eram cristãos

Os primeiros imigrantes árabes a pisarem em território brasileiro e paranaense eram cristãos. Existem relatos de que o primeiro imigrante árabe chegou ao Paraná em 1878. A maioria entrava via Porto de Santos e, depois, se dispersava para as várias regiões do Brasil, do Sul ao Norte.

“O motivo deste súbito interesse pelo país foi a visita do Imperador Dom Pedro II a terras do Oriente Médio nos anos de 1871, 1876 e 1879. A partir da visita do Imperador, a emigração direta em direção ao Brasil aumentou consideravelmente”, explica o pesquisador Omar Nasser.

A intensificação da chegada desses árabes cristãos se intensificou entre 1880 e o início do século 20. Eram cristãos maronitas, ortodoxos e católicos romanos, que estavam insatisfeitos com as restrições inerentes à condição de minoria num território multiétnico e multirreligioso e que resultavam, eventualmente, em conflitos entre os diversos grupos religiosos. A quase totalidade destes primeiros grupos de imigrantes era constituída por indivíduos oriundos das regiões onde hoje estão localizados o Líbano e a Síria. Em menor quantidade, vieram pessoas das regiões da Palestina e Egito.

 

 

 

Histórias de vida

 

O senegalês

Faye Ndiaga está há 10 anos no Brasil. Já morou em Cascavel, Porto Alegre e Londrina. Há cinco reside em Curitiba. Muçulmano, o artesão e estofador de móveis de 53 anos veio ao Brasil sem conhecer muito do país. “Só via pela televisão e via muita coisa sobre futebol”, conta.muculmanos_13

A curiosidade em arriscar uma vida nova em um país novo o motivou a sair de seu país, Senegal. Ele enaltece que, assim como qualquer religião, o islamismo não prega a violência. “É isso que deve ser ressaltado. Não existe religião melhor que a outra”, conta. Ele segue a fé islâmica e, como ordena o credo, realiza as cinco orações diárias voltado para Meca.

É o que também pensa o nigeriano Taiwd Waliu, que há cinco anos mora em Curitiba e trabalha em um shopping da cidade. “Toda a minha família é muçulmana, nasci no Islamismo. Não se pode generalizar, como muitos fazem, que a violência faz parte da religião. Não existe isso. A gente prega a paz, como qualquer fé. Pessoas violentas existem em qualquer religião”, ressalta Taiwd.

 

O egípcio

Yasser Mohamed nasceu e se criou no Egito. Está há 15 anos no Brasil. O idioma português já está completamente dominado. Atualmente ele trabalha em uma empresa multinacional no setor de comércio exterior – profissão que já exercia em seu país de origem. muculmanos_14

Vice-presidente do Centro Islâmico Beneficente do Paraná (CIBP), ele nasceu na cidade de Zagazig, localizada no Delta do Rio Nilo. Veio para o Brasil em busca de liberdade de expressão e liberdade de trabalhar. “A vida política lá está muito complicada. Há restrições para você crescer profissionalmente se não for de uma família influente”, revela.

Casou-se com uma brasileira que se converteu ao Islamismo no Egito. Eles se conheceram pela internet. Ela estava buscando mais informações sobre a fé muçulmana e acabou conversando por meio do extinto programa de trocas de mensagens o ICQ com Yasser. Após ela viajar ao Egito para passear, conheceu o futuro marido e acabaram se casando.

 

O marroquino

Yassin Salama é o coordenador de uma nova mesquita que está sendo fundada no bairro Jardim Botânico, em Curitiba. Ele se criou no Norte de Marrocos e vive há quatro anos em território brasileiro. A saída de seu país de origem foi totalmente programada.muculmanos_15

Curioso, estudioso e um leitor voraz, Yassin queria desbravar novos horizontes e escolheu o Brasil como destino. Graduado em Letras, ele almeja cursar mestrado na Universidade Federal do Paraná.

Com um português impecável, ele ‘culpa’ os livros. “Gosto muito de ler em português e isso me ajuda a falar melhor, eu acho”.

Aos 27 anos, Yassin também já atuou em Curitiba como professor de inglês. Segundo ele, ser muçulmano em terras paranaenses não é difícil. “Não sofro preconceito e tenho liberdade. Mas as mulheres muçulmanas sofrem mais, especialmente para conseguirem trabalho. Há locais que não aceitam as mulheres com os véus”, revela.

 

O argelino

Sofiane Benhamou está há oito anos no Brasil. Natural da Argélia, ele veio para o Brasil para atuar na Renault, em Curitiba. Após viver por três anos na França, onde se formou em Engenharia Civil, Sofiane acabou adotando Curitiba como nova casa.

Depois de concluir suas atividades na Renault, ele decidiu continuar a vida no Paraná. Fez cursos de português ofertados pela Universidade Federal do Paraná com o objetivo de cursar mestrado. Mas antes era preciso revalidar o diploma no Brasil. A burocracia era tanta que ele achou ser mais fácil fazer novamente a graduação. “Cursei novamente Engenharia Civil e agora tenho dois diplomas de engenheiro”, conta ele, que foi criado em família muçulmana.

 

O sírio

Ayman Damas, de 42 anos, desistiu do Rio de Janeiro porque achou muito violento. Ele, que vinha da Síria, achou a Cidade Maravilhosa tão perigosa quanto o país de origem. Ficou sabendo de Curitiba e decidiu arriscar. Por enquanto, tem dado certo.

Está, ao todo, há três anos no Brasil. Graduado em Literatura Francesa pela Universidade de Damasco, ele atua como professor de francês dando aulas particulares e também trabalha com traduções.

Segundo ele, existem casos esporádicos de preconceito a respeito de sua religião. “Mas eu acho que o preconceito acontece mais pelo fato de ser estrangeiro e não só pela religião”, assinala.

 

LEGENDAS

1) Faye Ndiaga é senegalês e está há 10 anos no Brasil

2) O egípcio Yasser Moahamed atua como vice-presidente do Centro Islâmico Beneficente do Paraná

3) Marroquino, Yassin Salama afirma que há casos em que mulheres muçulmanas têm dificuldade de conseguirem emprego no Brasil por causa do uso do véu

 

Curiosidade

Ao todo, 25 países no mundo falam árabe, o idioma utilizado oficialmente no Islamismo. A religião possui cinco grandes profetas: Adão, Moisés, Abrão, Jesus e, o mais importante para os muçulmanos, Maomé.

Em Curitiba, existe a Mesquita Ali Ibn abri Talib (ra), localizada próximo ao Largo da Ordem, que é dirigida majoritariamente por xiitas, mas há muitos sunitas que a frequentam. Está sendo também construída a Mesquita no Jardim Botânico, que reúne majoritariamente sunitas.

 

(Fotos de Diego Antonelli)

Leia mais

Deixe uma resposta