O som do piano é líquido – Espelho retrovisor – Devaneios noturnos da mulher de um pianista

O som do piano é líquido

O som do piano é líquido.

Cada nota, uma gota, uma lágrima, uma navalhada.

O pianista se corta enquanto toca.

O pianista é metade suicida, outra metade assassino.

Ele chora.

Não tem como ser diferente, senão não seria pianista.

O piano tem som de chuva, tem gosto de chuva, de garoa às terças-feiras no início da tarde, num jardim no Barigui.

O piano também colhe o vento.

E o transforma em brisa ou tempestade.

Às vezes até num sopro de Deus.

Ou em relâmpagos prateados e cortantes, antes da chuva que não veio, num jardim no Barigui.

Tudo depende do estado de pungência ou paixão ou solidão ou frieza ou febre da alma do pianista ali!

Somente ali, naquela hora!

Porque em outra hora, ele, o pianista, pode ser outro.

Pode ser o avesso de tudo.

Tudo!

Tudo é possível para o pianista.

Ele pode virar areia.

Pode virar elefante.

Pode virar um eco.

Perséfone!

Pode virar um copo quebrando,

uma estrela caindo.

Um vazio.

Uma alga na praia.

O perfume de uma planta noturna.

Mas aqui, nessa hora, em que o pianista virou nada,

Chopin chegou orvalho.

Debussy, chuva.

Rachmaninoff, tempestade.

Ravel, vento.

E eu?

Eu sou apenas a mulher do pianista.

Que pode virar areia.

Que pode virar elefante.

Pode virar eco.

Perséfone!

Pode virar um copo quebrando,

uma estrela caindo.

Um vazio.

Uma alga na praia.

O perfume de uma planta noturna.

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Espelho retrovisor

Queria poder fazer novamente o meu primeiro e o meu segundo filho. E mais uma. Queria poder reviver cada minuto do meu grande amor, cada gozo, cada riso, cada café que ele fez pra mim no meio da tarde, cada vez que ouvi de sua boca “você é meu anjo, minha vida”. Queria poder viver novamente todos os tempos. Colher todos os ovos azuis, ouvir aquele cachorro a morder minha boca. Queria aquela gralha azul que meu pai soltou antes da viagem a Foz do Iguaçu, e o casal de perus na carroceria do caminhão sob o céu de maio largando estrelas, em 1977, quando eu e minha irmã fomos para o inferno, achando que seria o paraíso. Queria tudo de novo

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Devaneios noturnos da mulher de um pianista

No Concerto nº1 de Chopin a mão esquerda pergunta à direita “o que você quer da vida, sua louca?”, e a direita responde: “não me pressione, se nem eu mesma sei, como poderei te dizer?”. “Não faça isso com você, sua tola! Suba aquela montanha e descubra o céu logo acima dela!” “Não sei se quero, não sei se posso, não consigo, não sei…” “Vá!” Ordena a esquerda. E a direita foi. E descobriu o vento, e o perfume do vento. Então a esquerda e a direita conseguiram falar sobre o tempo. E subiram juntas a próxima e mais alta montanha. Misturaram-se ao azul cobalto do céu, e depois de duas estações, choraram chuva sobre os campos, brotando novamente a primavera, fazendo da esperança, náufraga na lama, o lótus de mil pétalas.

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Ieda Godoy escreve. Seu corpo que cria, performa e faz, também é um corpo escritor. São poemas e crônicas de uma força que se sente ao fundo do olhar de Ieda. Veja bem. Também atriz e modelo. Um corpo inquieto e livre no momento de ser artista. Na lente, no papel, na cidade. Um corpo inquieto que ama. Não para, pensa, pois é isso que os corpos artistas e vivos fazem. Ieda agita. Claro, ela também é dona de bares que lembram Curitiba do delírio da noite.

Fotos de Christopher Gegembauer

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