A diáspora do povo judeu em direção ao Paraná

 

Moritz Schaia percebeu que a vida na Polônia estava muito monótona. Trabalhar na indústria pertencente ao pai não estava em seus planos. Era início dos anos 1920 quando ele resolveu abrir mão de uma vida relativamente tranquila para escrever sua própria história. Partiu para a terra de seus ancestrais hebreus: a Palestina, no Oriente Médio. A origem de todo o povo judeu remete desde a Antiguidade a essa região e era lá que Moritz visava encontrar sua terra prometida.

Moritz trabalhou como vidraceiro, comerciante e selecionador de ovos. A vida em terras europeias não era das mais fáceis para o povo judeu nessa época. O antissemitismo, desde então, fazia com que os judeus fossem impedidos de circular ou morar em determinadas regiões. Muitos judeus eram confinados nos shtelts – únicas aldeias onde eram permitidas suas residências.

Diante deste cenário, Rivka Aidelsohn, juntamente com seus irmãos, também abandonou a região da Polônia para arriscar uma nova vida no Oriente Médio. De uma família que sobrevivia com um pequeno armazém, eles cansaram de viver cercados de dificuldades financeiras e sociais.

Moritz conheceu e chegou a trabalhar junto com um irmão de Rivka. Compartilhando histórias parecidas, a sintonia entre Moritz e Rivka foi quase imediata. Casaram-se e permaneceram cinco anos na região palestina. Juntos, administraram um pequeno restaurante, onde ela cozinhava em um pequeno fogareiro. Até que apareceu a oportunidade de migrar novamente, desta vez para o Brasil.

Em Curitiba vivia Júlio, primo de Moritz. Após a travessia de navio e uma estada na Ilha das Flores, no Rio de Janeiro, onde ficaram em quarentena, rumaram para a capital paranaense. Chegaram em meados de 1928. Trabalharam na lavanderia que Júlio administrava em Curitiba e em fábricas de móveis até Moritz montar uma alfaiataria no centro da cidade. Aqui Moritz aportuguesou seu nome para Maurício e Rivka virou Regina.

“Chegaram aqui sem falar nada de português. Eles falavam polonês e o dialeto adotado pela cultura judaica, o iídiche. Tiveram que se acostumar com a comida. Minha mãe contava que no navio serviram feijão preto e ela não sabia o que era aquilo. Foram se acostumando na marra”, relata a filha do casal, Sara Schaia Schulman, que nasceu em Curitiba em 1933 e dedicou sua vida ao ramo da bioquímica, sendo uma das pesquisadoras responsáveis pela instituição do Teste do Pezinho.

Sara é uma das descendentes do povo judeu que luta pela preservação da cultura judaica no estado. Foto: Diego Antonelli

Sara é uma das descendentes do povo judeu que luta pela preservação da cultura judaica no estado. Foto: Diego Antonelli

Sara é descendente da primeira onda imigratória do povo judeu para o Paraná. Essa primeira fase começa em 1889 e segue até 1929.

Os primeiros imigrantes judeus eram oriundos da Galícia Austríaca, como aponta a pesquisadora Regina Gouveia em dissertação de mestrado sobre o tema. Vieram, primeiramente, cinco homens e três mulheres da família Flacks e dois irmãos da família Rosenmann. Eles se estabeleceram na então colônia agrícola Thomaz Coelho, criada em 1876, onde hoje é a cidade de Araucária. “A instalação de colônias agrícolas nos arredores de Curitiba constituiu um programa anterior mesmo à Proclamação da República e que visava estimular a imigração europeia para fins de abastecimento dos centros urbanos”, explica a autora.

Ao se instalarem em solo paranaense, assim como ocorreu no restante do Brasil, os judeus se dedicaram às atividades comerciais, vendendo principalmente produtos agrícolas, especialmente cereais. Os Flacks e os Rosenmann uniram-se e organizaram um armazém de secos e molhados.

Alfaiataria montada por Moritz em Curitiba/ Reprodução

Alfaiataria montada por Moritz em Curitiba/ Reprodução

Depois de deixar a colônia de Thomaz Coelho, a família Rosenmann foi para o centro urbano da cidade de Curitiba. Os Flacks retornaram à Europa, segundo pesquisas do Instituto Cultural Judaico Brasileiro Bernardo Schulman. Já Rosenmann instalou, no centro de Curitiba, um moinho a vapor e, com o passar dos anos, tornou-se líder da pequena comunidade judaica que já se formava.

Durante essa época, muitos judeus saíram das nações europeias onde eram perseguidos e vieram para o Sul do Brasil. Esse processo imigratório foi estimulado pela agência Jewish Colonization Association, fundada ainda em 1891 pelo banqueiro Maurice de Hirsh. A história da diáspora judaica rumo ao Brasil se deu por razões que ameaçavam a existência do povo judeu: perseguições, guerras, preconceitos. Parte deste contingente de imigrantes judeus chegados ao Brasil no início do século 20 se dirigiu ao Paraná. “Em geral, vinham apenas os homens, que após algum tempo chamavam suas esposas, noivas e demais parentes”, relata a pesquisadora Regina Gouveia.

Para congregar os imigrantes foi fundada no ano de 1913 a União Israelita do Paraná, em Curitiba, com atividades religiosas e culturais. Oficialmente, como aponta Regina, o grupo judeu nessa época já era constituído por 12 famílias e mais 17 homens, alguns solteiros e outros que haviam chegado sem as respectivas esposas ou outros parentes.

Celebração religiosa em sinagoga em Curitiba no ano de 1966/ Divulgação

Celebração religiosa em sinagoga em Curitiba no ano de 1966/ Divulgação

Durante o início da Primeira Guerra Mundial (1914-1918), o processo migratório do povo judeu ao Paraná foi interrompido parcialmente, segundo aponta a pesquisa de Regina. Porém, já no final do conflito, os judeus que residiam no estado viram a necessidade de criar grupos de ajuda mútua para o auxílio aos refugiados da guerra na Europa e na integração de novos imigrantes que começavam, principalmente, a aportar em Curitiba. Dessa forma, nasceu em 1917 um Comitê Feminino formado pelas esposas dos imigrantes pioneiros, que tinha como objetivo integrar os novos imigrantes que chegavam à cidade e prestar assistência social. “As prioridades dos judeus curitibanos, como de resto de outras comunidades europeias aqui residentes, deslocaram-se para a ajuda às vítimas do conflito”, explica a pesquisadora.

Em 1920, esses primeiros judeus organizaram o Centro Israelita do Paraná. Vale ressaltar que o período entre guerras representou um aumento expressivo na imigração judaica ao Paraná.

Primeira Escola lsraelita Brasileira de Curitiba em 1933/ Divulgação

Primeira Escola lsraelita Brasileira de Curitiba em 1933/ Divulgação

Em 1925, por meio de uma doação, a comunidade judaica estabeleceu o seu primeiro cemitério, no bairro Água Verde. Durante esta primeira fase, os judeus já procuraram, portanto, criar estruturas para manter a cultura e o legado judaico em terras paranaenses.

Em um segundo momento, criou-se a escola israelita, com sede própria, no terreno doado por um dos líderes da comunidade na época, Salomão Guelmann, em 1935. Com a escola tinha-se o objetivo de manter a educação, as tradições, os costumes e a cultura judaica, além da preocupação com o estudo da Torá (o Pentateuco ou os cinco primeiros livros da Bíblia) e da literatura no dialeto iídiche.

“Aqui no Brasil os imigrantes judeus eram pobres, mas respeitados e em paz. Aqui reiniciaram suas vidas em um contexto de consonância com o povo brasileiro e sua cultura”, ressalta Sara Schulman, que é autora do livro “O teatro na vida da coletividade judaica em Curitiba”.

 

 

 

Unidade cultural

O povo judeu mantém sua unicidade cultural independentemente do país de origem. Muitos judeus que vieram para o Paraná moravam no Oriente Médio, na Espanha, Alemanha e Polônia, por exemplo. Em comum mantêm, além da religião, traços culturais representados em danças, gastronomia, festas e música. Em Curitiba é realizada anualmente a Festa das Luzes Chanucá ou Hanucá. O evento faz parte da tradição judaica e celebra o triunfo dos judeus contra os gregos no movimento insurgente de recuperação do Templo Sagrado, em Jerusalém, no Estado de Israel, por volta de 200 a.C. A festa está incluída no Calendário Oficial de Eventos de Curitiba, a partir da lei nº 13.736, instituída no dia 20 de dezembro de 2011. Atualmente, a comunidade judaica paranaense conta com aproximadamente mil famílias, que em sua maioria vivem em Curitiba.

 

 

Nazismo e Holocausto

Eva Hohane, judia natural da Polônia, viu com apenas 18 anos sua casa ser saqueada, seu pai morrer, seu irmão de 10 anos ser morto com um tiro enquanto brincava e ainda presenciou sua mãe ser levada e assassinada pelas tropas nazistas. Apesar de todas essas adversidades e da profunda perseguição capitaneada por Adolf Hitler, Eva tentava resistir no gueto onde morava. Por dois anos conseguiu sobreviver aos horrores nazistas. Até que em 1942 foi presa e deportada para o campo de concentração de Auschwitz. Entre 1933 e 1945, a Alemanha nazista construiu mais de 40 mil campos de extermínio e aprisionamento.

A função básica desses lugares era o trabalho forçado e o assassinato coletivo de judeus e outros grupos considerados antissociais, como ciganos, dissidentes políticos, prisioneiros de guerra, homossexuais, deficientes físicos e mentais, negros, andarilhos e mendigos. Sabe-se que a matança em massa de judeus começou em 1941.

Em Auschwitz, Eva viu famílias serem separadas para sempre e foi tatuada com o número 49.057. Trabalhava forçadamente 17 horas por dia e presenciou inúmeras mortes de amigas pela câmara de gás.

Fotografia exposta no Museu do Holocausto mostra o massacre frente ao povo judeu/Reprodução

Fotografia exposta no Museu do Holocausto mostra o massacre frente ao povo judeu/Reprodução

Com o fim da Segunda Guerra Mundial, Eva foi libertada do campo de extermínio quando já estava com 24 anos. Tentou retomar a vida, casou-se na Alemanha e chegou grávida a Curitiba. Eva faleceu em 2008, aos 87 anos, e fez parte das estimadas 80 famílias, segundo o Museu do Holocausto, que encontraram no Paraná um novo lar após os horrores do nazismo.

O Museu possui catalogadas histórias de aproximadamente 100 sobreviventes do Holocausto que reconstruíram suas vidas no Paraná. Hoje, são seis sobreviventes vivos que residem em Curitiba. O Holocausto e a perseguição nazista motivaram a segunda grande leva de imigrantes judeus que chegaram ao Paraná.

O genocídio, ou extermínio em massa dos judeus, foi o ápice de um período marcado por atrocidades e medidas discriminatórias nos territórios dominados pelos nazistas. O plano de extermínio ficou conhecido como “solução final” e objetivava aniquilar o povo judeu da Europa. Alguns campos de concentração – que já existiam desde o início do regime nazista e onde os prisioneiros eram obrigados a trabalhos forçados – se transformaram em campos de extermínio.

 

Serviço:

Em Curitiba existe o Museu do Holocausto, no bairro Bom Retiro, e as visitas podem ser agendadas pelo site:
agenda.museudoholocausto.org.br.

 

 

Schulman

Bernardo Schulman foi uma importante figura na comunidade judaica do Paraná. Em 1937, preocupado com o cenário mundial, ele escreveu o livro “Em legítima defesa – a voz de um judeu brasileiro”. Na obra ele relata sobre antissemitismo e sobre a perseguição ao povo judeu. O livro ficou conhecido em todo o país e chegou a ser resenhado e citado em grandes jornais no Brasil e na Argentina. Schulman morou em Araucária e foi um dos primeiros comerciantes a trabalhar com a venda de cereais na localidade. Chegou ao Paraná no começo do século XX vindo da Rússia. Bernardo Schulman dá nome ao Instituto Cultural Judaico Brasileiro do Centro Israelita do Paraná (CIP), que foi fundado em Curitiba em 14 de agosto de 1988.

 

 

 

Sobrevivente do nazismo e do stalinismo

Aos 47 anos, o judeu David Lorber Rolnik escolheu o Paraná para viver. A vida agitada em São Paulo não era recomendada para ele, que havia sobrevivido a um recente infarto. Mudou-se para Ponta Grossa para trabalhar no ramo do comércio. O ano era 1967. Quem via David trabalhando e cuidando de sua saúde com rigorosas caminhadas não imaginava o passado sombrio que o visitava diariamente.

Aos 19 anos, ele sobreviveu a uma “marcha da morte” realizada pelas tropas nazistas em sua cidade natal, Chelm, na Polônia. Foi conduzido sob a mira das metralhadoras durante quatro dias sem comida e sem água até a fronteira com a Ucrânia. Os que caíam eram mortos impiedosamente. Dos 2,6 mil homens que marcharam, apenas cerca de 200 sobreviveram. Essa foi considerada uma das 10 piores marchas da morte, onde os prisioneiros judeus eram deslocados a pé entre vários campos de concentração do regime nazista.

David Lorber Rolnik com a família, recém-instalados no Brasil/ Reprodução

David Lorber Rolnik com a família, recém-instalados no Brasil/ Reprodução

David conseguiu cruzar a fronteira da Ucrânia, mas foi preso pelos soviéticos. Lá ele foi obrigado a trabalhar nos gulags siberianos (campos de trabalho forçado) estabelecidos pelo governo stalinista. Só conseguiu voltar para seu país de origem no pós-guerra (1945) e emigrar de vez para o Brasil, em 1953.

Já radicado em Curitiba, faleceu em 2008, aos 88 anos, como conta o filho, Szyja Ber Lorber, que escreveu o livro “As catorze vidas de David” em homenagem ao pai. A irmã Blima também é coautora da obra.

David Rolnik fazia questão de contar as histórias do que vivenciou e testemunhou. Fez diversas viagens à Polônia, onde ministrou palestras sobre o tema. Ele também deu seu depoimento para a Fundação Shoah, do diretor de cinema Steven Spielberg.

 

 

 

Notáveis

Dentre os muitos judeus que se destacam na sociedade paranaense está Miguel Krigsner. Fundador de uma das maiores franquias do Paraná, O Boticário, ele é descendente de judeus que fugiram da perseguição nazista. Nascido na Bolívia, seu pai era polonês e chegou à América do Sul em 1949 e sua mãe fugiu da Alemanha antes da Segunda Guerra, assim que começaram, com a ascensão do regime nazista, as perseguições ao povo judeu.  Em 1960, quando Miguel tinha 11 anos, a família mudou-se para Curitiba.

Também no campo políticos alguns descendentes judeus se destacaram na história do Paraná. Um deles foi o ex-prefeito de Curitiba e ex-governador do estado Jaime Lerner, além do ex-prefeito da capital Saul Raiz.

 

 

 

Linha do tempo

Confira um pouco sobre as principais atividades desenvolvidas em Curitiba, cidade que recebeu o maior número de imigrantes do povo judeu.

 

1913 – Fundação da União Israelita do Paraná, primeira manifestação de estrutura comunitária formal

 

1917 – Criação do Comitê Beneficente Feminino

 

1917 – Criação da Organização Sionista ShelomSion

 

1920 – Fusão das três instituições: União Israelita do Paraná, Shelom Sion e Sociedade Beneficente Feminina

 

1938-1945 – O Centro Israelita parasse torna Centro Mosaico

 

1955 – Muda o nome para Centro Israelita do Paraná

 

Meados de 1950 – Construção da Sinagoga Francisco Frischmann, onde existia o Centro Mosaico do Paraná. O centro era um espaço múltiplo, em que se concentravam as atividades sociais, culturais e religiosas da comunidade

 

2011 – Inauguração da Sinagoga Beit Yaacov e do Museu do Holocausto, o primeiro do Brasil

 

 

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