As contradições das livrarias

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Saraiva e Cultura pediram recuperação judicial no mesmo ano em que as vendas de livros cresceram no país

 

Em entrevista à Paris Review, William Faulkner profetizou tempos que chegariam mais rápido do que o esperado. Perguntado sobre o futuro do romance afirmou que ele existiria enquanto as pessoas continuassem a ler, exceto se as histórias em quadrinhos ou revistas ilustradas atrofiassem a nossa capacidade de ler, aí voltaríamos à escrita pictórica na caverna de Neandertal. Atrofiamo-nos? O consumo de variados tipos de conteúdo através de imagens poderia confirmar. Ou poderia ser apenas uma posição conservadora quanto ao renovar da comunicação, como aqueles que martelavam contra o cinema. Embora, deva haver alguma diferença entre Godard e as piadas com engomadinho riquinho que circulam pela internet. Mas e o fechamento das livrarias? Não seria um indicativo de nossa atrofia? Recentemente, o mercado das grandes varejistas sofreu um revés brabo.

Em outubro do ano passado, a Cultura entrou com um pedido de recuperação judicial. Há meses não consegue cumprir acordos e pagar fornecedores. Em nota a empresa responsabilizou a crise econômica brasileira e o encolhimento do mercado editorial. “As incertezas do cenário econômico brasileiro e, dentro dela, a crise do mercado editorial, que encolheu 40% desde 2014, fez com que a Livraria Cultura passasse a enfrentar dificuldades, também. Infelizmente, após quatro anos de recessão, o cenário geral no país não apresenta sinais claros de melhoria”, diz a nota.

No mês seguinte foi a vez da Saraiva. Com uma dívida de R$ 674 milhões, a líder em venda de livros do país afirmou que “ante os desafios econômicos e operacionais do mercado e indicadores que retratam uma mudança na dinâmica do varejo, tem tomado uma série de medidas voltadas para a evolução da operação e perenidade do negócio”.

Para justificar a crise, alguns acusaram, além do fraco desempenho econômico, a própria cultura brasileira não dada à leitura. Faz sentido? Poderíamos dizer talvez. Isto porque outros dados indicam aumento no consumo de livros. Portanto, se a Saraiva e a Cultura estão a fechar as portas pode indicar má competência administrativa em vez de a formação de um mercado. Muitos tópicos podem ser elencados para esta discussão. Vamos do início.livrarias1_cultura

Sérgio Buarque de Holanda, em “Raízes do Brasil”, faz numa passagem muito breve – pouco mais de uma página – um estudo editorial comparativo entre as Américas espanhola e a portuguesa nos três primeiros séculos após a chegada dos europeus. Revela dados que ecoam contemporaneamente, cuja relação não é tão consequencial como se supõe, mas aponta direcionamentos. Diz o autor que em 1535 já se tem notícia da impressão de livros na Cidade do México, e, em 1584, em Lima. Holanda garante que o Brasil foi um dos últimos países da América Latina a ter uma oficina gráfica. E logo após seu aparecimento, em 1747, no Rio de Janeiro, uma ordem real fecha-a, eis o que dizia (em português setecentista): não era conveniente que no Estado do Brasil “se imprimão papeis no tempo presente, nem ser utilidade aos impressores trabalharem no seu ofício aonde as despesas são maiores que no Reino, do qual podem hir impressos os livros e papeis no mesmo tempo em que d’elles devem hir as licenças da Inquizição e do meu Conselho Ultramarino, sem as quaes se não podem imprimir nem correrem as obras”.

Proibida a imprensa, só seria reestabelecida com a vinda da família real no começo do século XIX. Em 1821, quando a indústria gráfica brasileira ainda engatinhava com suas primeiras publicações, já tinha-se conhecimento de 11.652 obras na Cidade do México. E entre os anos de 1584 e 1824, Lima havia editado 3.948 obras. De acordo com Holanda, o impedimento por parte do Estado lusitano do florescimento da vida intelectual brasileira se deu justamente para impedir a circulação de ideias, favorecendo desta maneira o domínio português. Ao contrário da América espanhola.

Uma dessas repercussões pode ser vista no levantamento realizado pelo World Cities Cultural Forum, de 2015, a revelar que Buenos Aires é a cidade com maior número de livrarias por habitantes no mundo. À época eram 2.8 milhões de habitantes, com 734 livrarias, ou seja, 25 livrarias para cada grupo de cem mil habitantes. A tomar o dado do mesmo período, para efeitos comparativos, São Paulo tinha, de acordo com a Associação Nacional de Livrarias (ANL), 390 livrarias, o que correspondia a 3,5 livrarias por cem mil habitantes. No Brasil há uma livraria a cada 64,9 mil habitantes. Segundo a Unesco, o número adequado seria uma a cada dez mil habitantes.

Tendo isso em mente, o que revela o estudo de Holanda? A cultura livresca começou tarde no Brasil e para um segmento muito restrito, a considerar o alto nível de analfabetismo existente. De acordo com José Ricardo Pires de Almeida que publicou, em 1889, um estudo intitulado “História da instrução pública no Brasil”, em 1886 a população escolarizada era apenas de 1,8%. E dados do IBGE mostram índices relativamente altos de analfabetismo, em 2012 estava em 8,7%, o que corresponde a 91,3% da população alfabetizada. Cuba, por exemplo, tem taxa de 100% de alfabetizados. Uruguai tem 99%; Argentina, Costa Rica e Chile, 98%. O Brasil está atrás de países como Venezuela (97%); Paraguai, Panamá, México, Indonésia, Jordânia, Arábia Saudita (todos com 95%).

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CONSUMO

Isso serve como contextualização para o entendimento de determinadas características indicadas pelas pesquisas. O Instituto Pró-livro apontou que, em 2011, 21% da população brasileira não tinha livro próprio em casa, enquanto a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), em 2014, divulgou o dado que 97,6% têm televisão. Ano passado, o Pró-livro também pesquisou a média de leitura do brasileiro: 2,43 livros por ano. Enquanto a PNAD afirmou que assistimos televisão de duas a três horas por dia. A curiosidade aqui é o que foi argumentado sobre o porquê de não ler mais. De acordo com 43% é falta de tempo. Outros 23% falaram que não gostariam de ter lido mais. 9% preferem outras atividades. 9% não têm paciência para ler. E o resto se divide em outros quesitos tão assustadores quanto estes. Aramis Chain, proprietário da Livraria do Chain, afirma que estas “respostas são medíocres” e não ler por falta de tempo “é uma grande mentira”. Em 2019, a Livraria do Chain completa 51 anos. Foi considerada na década de 1990 a melhor livraria do país. Aramis Chain sublinha: “vendemos livros”, em referência às livrarias que investem em outros produtos ou em outras práticas, como os cafés.

A contradizer tudo o que foi dito até aqui, o Sindicato Nacional dos Editores de Livros publicou os números de 2018 em comparação com o ano anterior sobre o faturamento e volume dos livros. Em 2017, faturou-se R$ 1.231.136.151,75, enquanto em 2018, R$ 1.346.026.785,24, um aumento de 9,33%. E o número de livros vendidos acompanha o crescimento do faturamento. De 29,4 milhões para 31,1 milhões. Os dados são referentes aos nove primeiros meses do ano. O número de ISBNs também teve aumento, ou seja, mais livros foram publicados. Em 2017, foram 284.896 novos ISBNs, enquanto em 2018, 299.508, acréscimo de 5%.

Levando em consideração este aumento no faturamento e de ISBNs, por que as livrarias estão a fechar? De acordo com o presidente da Associação Nacional de Livrarias, Bernardo Gurbanov, alguns aspectos justificam: contexto nacional de recessão, baixo índice de leitura dos brasileiros, a concorrência dos meios digitais – seja através da leitura de e-books ou de vendas de empresas como Amazon, por exemplo – e aumento dos aluguéis e IPTU. Ao jornal Nexo, Gurbanov afirmou que “Os aluguéis também estão subindo muito e não recebemos nenhum tipo de apoio do poder público, como é o caso, por exemplo, de igrejas, que não pagam IPTU”.

Socorro Araújo, dona da Livraria Vertov, uma portinha na rua Visconde do Rio Branco, cujo catálogo (em torno de 10 mil títulos) contempla livros à esquerda do espectro político, embora trabalhe com os mais diversos assuntos (sociologia, história, gastronomia, livros infantis, turismo, jornalismo etc.), não vê a gigante Amazon tão grandiosa assim: “A Amazon não nos atinge. Nosso caráter específico faz com que tenhamos um público consolidado. Há livros que nem coloco na Estante Virtual [site para venda de livros usados ou novos que reúne sebos e livrarias do Brasil todo] porque sei que interessará a determinado cliente”. Embora veja a necessidade de frear a empresa americana: “Considero urgente a regulação do mercado. Na França, por exemplo, a Amazon não pode dar desconto maior do que 10%. Ela compra livro por quilo, a concorrência é desleal.”

A opinião de Evandro Martins Fontes, editor, livreiro e sócio da Martins Fontes, é categórica. Afirmou em entrevista à Folha de S. Paulo, em dezembro passado, que deixou de fornecer livros à Cultura há dois anos por falta de pagamento. Logo, para ele, esta crise das varejistas não surpreende e culpa também determinadas editoras. “Essa crise não é novidade. Me surpreende quando agora vem a público o montante que algumas editoras têm com essas empresas. Fico espantado. Como os diretores dessas editoras permitiram que isso acontecesse? Eu os vejo como coniventes.” Além de certa dissimulação entre os grandes grupos editoriais: “O Luiz Schwarcz [presidente do grupo Companhia das Letras] aparece na mídia fazendo campanha, se declarando apaixonado pelo livro. Acho piegas, sou bem crítico. Esses grandes grupos editoriais, ao longo desses anos todos, praticaram uma política comercial bastante diferente, oferecendo descontos muito maiores para Saraiva e Cultura do que para as pequenas e médias livrarias. Ele não teve paixão pelas livrarias pequenas na última década”.

Por outro lado, Socorro Araújo, no negócio desde 2010, destaca a boa relação com as pequenas editoras, “Das pequenas editoras não tenho nenhuma reclamação. Não falta e não atrasa nada.” E também ressalta a relação existente entre a Vertov e as editoras com que trabalha. “Faz diferença a identificação com as editoras que trabalhamos. Você sabe que elas precisam ter tudo em dia para ter giro para, dessa forma, gerar a literatura que vendemos. Não há um descompromisso. Estamos comprometidos ideologicamente. A maneira que pensamos e o que nos propomos a fazer”.

Segundo Martins Fontes, a crise enfrentada pela Saraiva e Cultura pouco se relaciona com o mercado do livro e se aproxima mais de uma crise administrativa das varejistas. “É um certificado de irresponsabilidade administrativa. Vejo um problema de modelo de negócio. E não uma crise do livro como produto. As vendas de livros cresceram. Esses casos são pontuais”. Socorro Araújo também não enxerga uma crise do livro em si, e vê o mercado com otimismo. “O que tenho visto é que do final do ano passado para o começo deste ano, as editoras estão procurando as pequenas livrarias. Editores tradicionais, como Rocco, estão dizendo que este é o momento das pequenas livrarias. Porque eles não querem mais trabalhar da forma que se submeteram nas grandes redes”. Chain tem opinião contrária. Para ele a alta carga tributária engolirá os pequenos livreiros. “As pequenas livrarias vão quebrar. Não há como sobreviver economicamente. Espero estar errado, mas só vejo futuro se a livraria tiver apenas um funcionário”. Mas concorda com a má administração das varejistas. “É um despreparo econômico e uma irresponsabilidade, inclusive das editoras”. Martins Fontes lembra que parte da dívida da Saraiva e da Cultura é com o BNDES, por causa de empréstimos para abertura de lojas em shoppings.

Acompanhando Martins Fontes, a presidente da Liga Brasileira de Editores (Libre), Raquel Menezes, considera que tanto a Saraiva, quanto a Cultura tiveram problemas de gestão, investindo num mercado que ultrapassa a venda de livros, como os eletrônicos. Outro fator é a maneira que se vende. O comércio eletrônico (via internet) da Cultura corresponde a 30% de suas vendas, o objetivo da empresa é chegar a 70%, ou seja, a tendência é reduzir ainda mais o número de lojas.livrarias3_reader

Os preços praticados pelas grandes varejistas não favorece pequenos e médios livreiros, levando muitos a fecharem as portas, na opinião de Menezes. Em 10 anos (2007-2017), os pequenos livreiros (até nove funcionários) e pequenas papelarias representaram 20.912 das 21.083 livrarias e papelarias que fecharam no país, ou seja, um encolhimento de 29%. Para Chain, a crise é moral e não considera o mundo digital como um vilão. “O universo digital não é o responsável pelo falecimento das livrarias. Os governos, de maneira global, ensinam a desaprender ciência, arte e filosofia. Este anti-intelectualismo praticado pelos donos do mundo, que tem seus asseclas na América Latina e na África, pregam a igualdade por baixo, a liberdade sem deveres e a fraternidade entre as quadrilhas”.

 

O QUE LEMOS?

Para concluir este cenário que não é dos melhores, a Ideias buscou que tipo de literatura é consumida pelos brasileiros. Quem tem os dados é o Instituto Pró-livro e eles são referentes ao ano de 2015. Disparado na frente estão os livros religiosos com 64%, divididos entre 42% para a Bíblia e 22% para outros livros. Com 22% também estão “contos” e “romances”, seguidos por “didáticos” (16%); infantis (15%); HQs, gibis ou RPG (13%); poesia (12%); história, economia, política, filosofia ou ciências sociais (11%); ciências (10%), a lista segue, o último dado a ser destacado é sobre “autoajuda”, que sempre está entre os mais vendidos, embora apenas 8% costuma ler tal gênero. A média de gêneros escolhidos por entrevistado foi de 2,8, logo não há uma leitura tão plural.

O que podemos concluir de tudo isso é uma imensa contradição. Não se tem muita certeza do que está acontecendo. A crise na Saraiva e Cultura parece ter tomado nos últimos meses uma proporção no mercado das livrarias desproporcional e não representa tão bem o andamento da carruagem. Há encolhimento de livrarias, há crescimento na venda de livros, há gente lendo de menos e nunca se leu tanto. Para Chain, “as pequenas livrarias serão engolidas pela ignorância”, isto é, pela falta de interesse no livro. Socorro, por sua vez, compreende que não fará fortuna, mas permanece firme com sua clientela e destaca a sua responsabilidade social. “Ninguém aqui tem um centavo sobrando. Mas, por outro lado, não temos nenhuma dívida. Nossa intenção não é fazer fortuna. Quando abrimos a Vertov queríamos fazer o papel das antigas livrarias, ou seja, estar aberta à comunidade. Quem quer acumular capital, este não é o negócio.” E conclui cutucando os proprietários das grandes varejistas: “Os pequenos livreiros podem até ter alguma dificuldade para pagar, mas pagam. E ninguém está rico, nenhum pequeno livreiro comprou um iate, um apartamento em Paris ou investiu em patrimônio pessoal”.

Não sabemos se é a hora e a vez das pequenas livrarias, da Amazon ou do que o futuro reserva. Os fatos concretos dizem que as grandes livrarias são irresponsáveis, as grandes editoras convenientes e nada disso favorece a uma cultura livresca, defasada no Brasil.

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