Olhar de poeta, coisa simples

 

Penso sempre no olhar do poeta, imagino-o sempre em silêncio com os olhos abertos para tudo. Imagino sua caminhada pela cidade, seus passeios noturnos, suas visitas aos amigos e tudo e qualquer coisa que o poeta faça. Seu silêncio e o olhar aberto para tudo. No lugar onde nasce o poema, o despertar para uma emoção qualquer e única. Quem pode ensinar um olhar a ser um olhar de poeta? Quem pode fazer daquela percepção o nascimento de uma emoção? Escrevê-la, colocar voz, corpo, olhar. E então fechar o livro. Sentir de novo.

Construo identidade de poeta. Uma identidade coletiva. Um grupo de solidões espalhadas, vivendo de olhos abertos, vivos. O mais próximo do ensinamento, onde há interesse, é poder acompanhar o olhar escrito. Abrir o livro de um poeta e viver com ele todas as suas emoções. Se entregar e vivê-las junto. Caminhar, sentir, conversar. Viver de novo.

As coisas simples, novo livro de poesias de Fábio Campana, editado pela Travessa dos Editores, é mais uma organização de olhares que podem ser atentos ou não, mas vivos e entregues ao despertar. Abertos para a vida, para o toque, para as liberdades, para os pássaros, para as vocações, para as invenções de palavras indestrutíveis, para o abandono de transcendências, para ausências e urgências, para as dissipações dos ecos das paixões, para a juventude, para a solidão, para a dor, absoluta e inevitável, para o amor efêmero, eterno, para o vinho e para as dívidas da vida. Para não encerrar a participação, independente da comédia que seja o fim. As coisas simples é uma possibilidade de encontro, do olhar do poeta e do despertar dos dispostos.

Cabe agora aceitar quando ele colocar em suas mãos um copo de sangue ou de lágrima, posta uma a uma.

 

 

 

Mentiras

 

Não acredite no que eu digo.
Para me entender, toma esta lágrima,
este sangue,
e ouça meu silêncio.
Eu viajo outros reinos
que você desconhece.
Pertenço à geração derrotada
em todas as batalhas.
Cuidado com a impureza
de minha linguagem
e as mentiras que subvertem
a memória dos mortos.

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