Os sete pecados capitais e a MPB

adriana

— Parte VII —

 

Chega ao capítulo final essa andança pela MPB que canta os pecados capitais. A última parada é justamente na mais séria. O vício que a Igreja chamou de supracapital: a soberba. Ela não é uma das sete piores coisas que o humano faça diante do Altíssimo, é mais que isso.

A soberba, ensinou São Tomás de Aquino, abre-se como um grande guarda-chuva a fornecer a energia necessária para todos os outros pecados. O gancho mais forte, de tudo que se pendura neste esteio, é o da vaidade e por isso é ela quem nomeia o mais sério de todos os pecados que a Igreja reconhece. Em algumas variações, o título é orgulho. Em outros, vanglória.

Tanto faz, soberba, vaidade, orgulho, vanglória, tudo, segundo a Igreja, encaminha para um mesmo buraco, aquele, o mais fundo, o inferno.

E na MPB essa coisa toda também existe. E existe, como diz a Iara Teixeira, de baciada.

Poderia citar vários tipos de pretensões bem cobertas de soberba, como por exemplo a de Caetano Veloso em “Eu organizo o movimento / Eu oriento o carnaval”; ou de Daniela Mercury em “A cor dessa cidade sou eu / O canto dessa cidade é meu” ou até o Zé Kétti no jogo de palavras “Eu sou o samba / A voz do morro sou eu mesmo, sim senhor”. Mas não farei isso porque tenho tendências a proteger músicas de que gosto muito. Prefiro tratá-las como representação da seriedade de um movimento estético ou cultural, Caetano com a coisa toda da Tropicália, Daniela com o lance de enaltecer o gueto, a rua, a fé e Zé Kétti a dar voz em primeira pessoa para o samba. E pronto, nenhuma das três composições tratam de vanglória.

Mas não é raro ouvir o cantarolar de jactâncias na música. Pior ainda são algumas atitudes, mas não tratarei delas…

Então, para dar tratamento adequado a quem merece, inicio a coluna de hoje com a rainha da soberba em nosso país. Aponto, sem nenhum constrangimento, Maria Magdala da Gama Oliveira, a Mag, que hoje é nome de praça no bairro Campo Grande, no Rio de Janeiro. Mag era crítica de rádio, tinha coluna no importantíssimo jornal Diário de Notícias, que assinava de maneira independente, repleta de suas impressões, doesse a quem doesse. O caráter popular das canções a irritava, o cotidiano comum dos trabalhadores, vagabundos, negros, boêmios não combinava com tudo aquilo que ela queria para as expressões de seu país; tinha vontades europeias e permanências no pensamento do que considerava digno da elite carioca da primeira metade do século passado. Sem medo de causar má impressão, equilibrando o nariz bem empinado, Mag não poupava ataques ao samba. Não o queria como música brasileira e menos ainda como representação de nossa cultura. Sim, tinha o direito de não gostar. Sim, tinha a moral para publicar. Sim, tinha leitores que concordavam. Muita gente! Mas, como ela, outros também tinham direito de reclamar, reclamar de sua reclamação. E foi isso que Haroldo Barbosa e Janet de Almeida (ah! quanta falta fazem essas inteligências!) fizeram. Criaram a imortal “Pra que discutir com madame?”, a madame era ela, a Mag, que insistia, prepotente e arrogante, em uma classe de brasileiros distinta do povo, numa casta aristocrática que imitava os salões franceses. “Madame diz que a raça não melhora / Que a vida piora por causa do samba / Madame diz o que samba tem pecado / Que o samba é coitado e devia acabar / Madame diz que o samba tem cachaça / Mistura de raça, mistura de cor / Madame diz que o samba democrata / É música barata sem nenhum valor.”

E o que dizer de quem se enterra em sofrimento só para manter o ‘orgulho’? Muita gente nesse mundo consegue chegar às últimas consequências do sofrimento em troca de ter o ‘orgulho’ intacto. Essa bobeira é campeã em enterrar relacionamentos de tudo quanto é tipo. Uma doideira que prova o tempo todo o tamanho da desordem e inversão de valores que a gente carrega na cachola.

Um exemplo está na sofridíssima “Orgulho”, de Valdir Rocha e Nelson Wadekind, coisa da década de 1950, lançada por Ângela Maria e repetida por Nelson Gonçalves, Maria Bethânia, Ney Matogrosso e outros de igual envergadura: “Tu me mandaste embora, eu irei / Mas comigo também levarei / O orgulho de não mais voltar / Mesmo que a vida se torne cruel / Se transforme numa taça de fel / Este trapo tu não mais verás”.  

Gilson de Souza, conhece? O nome pode estar longe da memória, mas não tem como não lembrar de um grande sucesso que fez na metade dos anos 1970 e desde então está a batucar por aí. “Orgulho de um sambista” conta a triste história de um sambista que foi abandonado no altar, o que significa, na linguagem do ritmo, que foi largado na consagração do carnaval. A cabrocha em questão não quis saber de desfilar pela escola do sofredor, deixando-o em frangalhos ao partir com um amor ‘de três dias’. Mas ele teve seus minutos de glória quando soube que a moça sofreu: “Você falou que junto comigo não mais desfilava / E se a minha escola perdesse você nem ligava / Ensaiei, fiz meu samba-enredo pra minha escola ganhar / E na ala de porta-bandeira você não quis desfilar […] Mas esse orgulho eu vou levar comigo pro resto da vida / Me contaram que você chorou quando eu passei na avenida / Eu vi outra de porta-bandeira desfilando em seu lugar / Comissão julgadora presente falou que meu samba ia ganhar / Meu bem, o azar foi seu / Ganhei o carnaval e você me perdeu”. Uma notinha que não tem muita relação com os pecados capitais, mas que de alguma maneira pode-se enquadrar na palavra ‘orgulho’: Gilson de Souza também é o autor daquele outro estrondo de sucesso da mesma época: “Poxa, como foi bacana te encontrar de novo / Curtindo um samba junto do meu povo / Você não sabe como eu acho bom”.

Em 2001 a Viradouro tratou do carnaval com o enredo “Os sete pecados capitais”. Passou pela avenida, nesse feriado tão significativo para o tema, a abundância de delitos de nossa fraca existência: “Eu quero e quero muito mais / Eu quero o ouro pois o ouro me seduz / Sou o narcisista, o melhor artista / Nesta festa popular”. A composição é de Gilberto Gomes, Gustavo, Dadinho, PC. Portugal e R. Mocotó.

E na contramão desse samba, uma a humildade da Portela em “Vaidade de um sambista”, composição antiga, coisa do repertório da Velha Guarda, que peço licença para transcrever inteira de tão comovente que é: “Um dia um sambista em sua vaidade / Disse que vitória pra Portela é banalidade / Mais tarde outro dizia / Mesmo derrotados cantaremos com alegria / Ganhar todo mundo sabe, sorri e sente prazer / Mas o bonito é saber perder / A Portela enfrenta derrota como vitória / O seu passado é repleto de glória / O seu azul e branco quando desce é pra valer / Só a Portela sabe ganhar e perder”.

E veja do que era capaz a aquela fofurinha que era o Adoniran Barbosa quando pisavam no seu calo: “Mulher, eu te abandonei pra te ver chorar / Mulher assim / Cheia de vaidade eu não quero amar / Sorrindo digo / Não arrependo o tempo que perdi contigo / Agora vives reclamando a sorte / Vá ficando por aí / Teu orgulho acabou / Hoje sofres grande dor”. A música é uma parceria com Pedrinho Romano.

“A banca do distinto”, de Billy Blanco, música de 1959, poderia entrar como hino dos cristãos, só para dar aquela lembrança incômoda de que “todo mundo é igual quando a vida termina, com terra em cima e na horizontal”. E é com ela que me despeço hoje, nesse difícil exercício de encontrar o equilíbrio entre os vícios e virtudes que todos nós carregamos nas costas.

Salve, Billy Blanco, obrigada: “Não fala com pobre, não dá mão a preto / Não carrega embrulho / Pra que tanta pose, doutor / Pra que esse orgulho / A bruxa que é cega esbarra na gente / E a vida estanca / O enfarte lhe pega, doutor / E acaba essa banca / A vaidade é assim, põe o bobo no alto / E retira a escada / Mas fica por perto esperando sentada / Mais cedo ou mais tarde ele acaba no chão / Mais alto o coqueiro, maior é o tombo do coco afinal / Todo mundo é igual quando a vida termina / Com terra em cima e na horizontal”.

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