Seres irritantes

Não há nada mais desagradável no trato do dia a dia, do que você se deparar com seres irritantes. E que não se confunda os irritantes com os chatos. São muito parecidos, mas não são iguais. Por exemplo: a voz do ex-juiz e agora Ministro da Justiça, Sergio Moro, é profundamente irritante. Aquela voz permeada de sons esganiçados me deixa nervoso e invariavelmente me faz abandonar as suas entrevistas na mídia. No entanto, não é um chato de galocha, pois suas explanações técnicas têm conteúdo e são interessantes, mas bem que o ministro já poderia ter procurado um fonoaudiólogo para tratar dessa voz de Nelson Piquet. O pior é que não estou sozinho nessa avaliação primária. Há certa unanimidade, reconheça-se.

Mas não é só pela voz que se avalia os seres irritantes. Podem compor a lista até animais. Surpresos? Não, há muitos insuportáveis, tais quais cães fedorentos, os que latem sem parar, os que ficam te cheirando o tempo todo, os que te olham de modo ameaçador. Já vi na casa de amigos, papagaios que não param de falar com uma voz mixada de Sergio Moro e Nelson Piquet. Não pensem que é fácil ficar escutando. Certa vez, sem que o dono percebesse, me aproximei da ave e dei um cocorote no verdinho. Ele ficou quieto. Mas quando me aconcheguei na poltrona da sala, o maldito voou lá do poleiro em minha direção tentando me atacar. O dono ouviu a gritaria e retornou imediatamente à sala e sem saber explicar a atitude do verdinho, me disse que ele nunca tinha agido dessa forma. E eu, sonso, disse que também fora uma surpresa, pois nunca tinha visto um papagaio atacar alguém. Ainda tentei fazer um carinho falso, mas o bicho abriu um bico ameaçador e o dono resolveu prendê-lo na gaiola. Olhei pra ele de soslaio e ele pra mim. Soube um dia que ele fugiu e nunca mais foi encontrado. Preservei a amizade.

Não há interrogações quando os irritantes se tratam de pessoas. Esses são os piores. Aqueles que nos fazem refletir de forma insana com a seguinte pergunta: “Onde estão os snipers?”. Nessa hora somos inimputáveis, pois afinal, repita-se, estaremos insanos. O fato é que dificilmente você se livrará desses seres no dia a dia. Seja no interlocutor que não para de te cutucar, de corrigir e dar “aulas” sobre o quanto você desconhece sobre o mundo, economia, politica e o destino do homem. Seja pelo mentiroso que narra longas e inacreditáveis histórias desinteressantes, emendando uma na outra sem dar fôlego ao interlocutor, trazendo de volta aquela loucura de pegar em armas e acabar com aquela agonia. Mas faço uma ressalva ao mentiroso que conta lorotas agradáveis. Em geral se tornam lendários e nos fazem dar boas risadas quando relembramos as “epopeias”.

A lista de seres irritantes é longa e o espaço é curto para tanta espécie e já estou irritado com o atraso do texto. Então minha homenagem especial como amante do cinema vai para os campeões, os narradores de spoilers. Aqueles que, por puro e mórbido prazer, ficam contando o desenrolar do roteiro dos capítulos da sua série favorita ou do filme que você pretende ver. Esses estão na categoria dos insuportáveis e certamente merecem a danação eterna. Que o diabo os carregue a todos. Tenho dito!

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