O lançador do frescobol

Em 16 de agosto de 1924, no “Principado do Méier”, nascia na Rua Isolina, nº 59, um cidadão chamado Milton Fernandes. Mais eis que, por um erro cartorial, o escrivão, sabe-se lá o porquê, escreveria Millôr…

Doravante a estrada estaria lançada. O cronista, poeta, tradutor, dramaturgo, ademais: “inventor do frescobol”, Millôr Fernandes, começara sua trajetória de Dickens do Méier aos 10 anos na revista O Cruzeiro, onde atuava em diversos “afazeres”.

Neste espaço de crônica, Millôr atua como espécie de panteão de todos aqueles que atuaram no gênero crônica. Seu jeito de ser inumerável, algo como um estilo sem estilo definido, eclético e vibrante, com fina elegância ao esgrimir sua corrosiva ironia ante o(s) fato(s), perfeito no drible, brilhante no arremate. Exímio combatente de todo e qualquer regime. Podia ser político ou mesmo de emagrecer… Millôr em extrema galhardia e talento, sabia como nenhum outro, escapar ileso, fintando magistralmente – à época de chumbos e trevas, tanques e baionetas. Sabendo com seu pérfuro humor, demolir e desmascarar o poder constituído ou não. Pois Millôr foi uma baioneta falante. Usando seu não intimidado critério de felino, quando – de forma perfeita – dava um precioso bote em tudo que parecia sinistro, vindo de qualquer alto comando exercido na força.

Tremendo nos trocadilhos: “que eu me forte como um porte”, ou com seus poeminhas: As chuvas artificiais/Quando caem do céu/Fazem desabrochar/Flores de papel. Ou em seus imbatíveis desenhos, algo meio anti-prumo, meio anti-perspectiva, certo traço rústico, como em sua fase-Veja, onde seu nome encimava o espaço do texto, arbitrariamente, no volume das letras, mais parecendo um Crumb no jeito de abrir sua famosa coluna. De todos, o mais fiel atacante em todas as metas por onde marcou incontáveis gols de placa, inclusive como um fiel integrante do time do Pasquim, ao lado de outros fieis demolidores.

Encerraria com uma daquelas impagáveis celebrações “millôrianas”: O Quartzo é um Mineral depois do Terzo antes do Quintzo.

foto: Cynthia Brito

 

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