CHC

Em algumas vezes, acontecia: infelizmente, hoje, o jornal apenas servirá para forrar a gaiola do canário. Em pleno domingo, no espaço destinado, folha 2, não saiu o texto do CHC. Parecia que o céu começava a nublar. Passar o domingo sem lê-lo, algo como a roda-gigante emperrar ou a derrota do nosso time mediante fragorosa goleada.

Desvendando as iniciais: Carlos Heitor Cony, nascido e criado no Lins de Vasconcelos, um bairro com jeito de “quase-Méier”, começava a trilhar por um rumo único no universo jornalístico.

Além de sua trajetória como romancista. Confesso, comovidamente, o instante do término de seu belíssimo romance Quase memória, de quando Cony rememora o “laço dado no barbante do embrulho feito por seu pai”. Lembrou meu pai. Aquela simetria suíça perante as pontas do barbante. Aquela precisão espartana na finalização do nó. Nada mais cirúrgico que o manejo da tesoura.

Das melhores leituras dos últimos tempos, foi encontrar seu arsenal memorialístico, no livro Eu, aos pedaços. Onde suas deliciosíssimas crônicas estão à disposição. Nada tão impagável quanto. Destaco um momento do texto: Roteiro. Onde Cony sai disparando sua “contrariedade famosa”. Então vejam: “Sou contra o ovo de Colombo, a bacia de Pilatos, o tendão de Aquiles, a espada de Dâmocles, os gansos do Capitólio, as asas de Ícaro – e contra a trompa de Eustáquio. Contra as guerras do Peloponeso, a Batalha de Itararé, o tratado de Tordesilhas – sobretudo contra a vingança do Zorro, o voto de Minerva e a besta do Apocalipse.”

Mas o melhor estava por vir. Em Reflexões-Enquete. Em uma suposta entrevista “proustiana”, Cony respondera assim:

Pergunta: Qual seu ideal de felicidade terrestre?

— Não fazer nada.

Pergunta: Qual o principal traço de seu caráter?

— Não procuro ter caráter.

E a melhor pergunta, dentre as 28 respondidas.

Pergunta: Sua divisa?

— Não ter nada. Dever muito. O resto deixar para os pobres.

Não menos imbatível que a de número 16 da enquete: Que qualidade prefere no homem?

— A distância.

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