Misiones I

armando

Certo dia resolvi reunir amigos que tinham em comum o pôquer como diversão semanal. Lembro que era um inverno muito gelado. Viajamos juntos em direção a Foz do Iguaçu com o objetivo de “quebrar” a banca dos cassinos de Puerto Iguazu na paupérrima Província de Misiones. Como o objetivo era nos aventurarmos em grupo pela jogatina, todos se hospedaram por lá mesmo em um hotelzinho barato e honesto. O primeiro passo foi estabelecer um plano estratégico: o horário iria das 19h às 4h da manhã por dois dias seguidos, parando apenas para o jantar. O dia serviria apenas para dormir e conhecer um pouco das redondezas da empobrecida Misiones.

Pois bem, confesso! Era eu e mais três. Todos “experientes” jogadores de pôquer e fascinados por cassinos, tendo no currículo, passagens “espetaculares” por Las Vegas, Monte Carlo e Estoril. Combinamos: dois iriam para as slots machines e roletas e eu e o outro arriscaríamos tudo nas mesas de Texas H’oldem No Limit. Como o cansaço da viagem ainda nos fazia companhia prejudicando nosso desempenho, dormimos umas duas horas até uma fome insana nos acordar. Precisávamos estar bem alimentados, de preferência com um suculento bife argentino, cuja fama todo sulista conhece.

Resolvemos então almoçar em um asador tradicional argentino. No grupo havia um amigo italiano viciado em cassinos e que fazia negócios de queijos e vinhos lá por aquelas bandas. Todo entusiasmado, disse que tinha o lugar perfeito para um legítimo bife de tira em um asador amigo seu, o El Andariego (O Andarilho). O italiano caminhava pelas calles falando maravilhas do lugar. Não sei dizer se foi instinto, mas desconfiei que ele nos levaria para uma armadilha. Sei lá, naquele lugarejo eu só conhecia o tal de Quincho del Tío Querido e olhe lá que não era essas coisas que falam em Curitiba. O resto era duvidoso.

Desconfiados, fomos seguindo o pequeno amigo, com seu espetaculoso sotaque italiano falando pelos cotovelos. Notamos que por onde passava era cumprimentado, revelando intimidade com a população local. Chegando ao Andariego vimos o baixinho (como carinhosamente o tratamos) correr para abraçar efusivamente o proprietário e, chamando-o ao pé de orelha, passou a conversar discretamente como se estivesse revelando um segredo. Olhamo-nos mais uma vez desconfiados. Ele voltou todo entusiasmado dizendo que encomendara um bife de tira maravilhoso e gritou a plenos pulmões: Madonna!

Como já tinha imaginado, o lugar era mesmo uma espelunca. Acanhado e meio sujo. Toalhas encardidas, usadas ao limite e cheias de manchas de gordura que certamente nunca foram trocadas. Tentei escapar na hora. Todos me seguiriam, mas o italiano me chamou em um canto e disse que se eu fosse embora ele perderia o amigo argentino e ainda falariam mal dele na cidade e ali ele era benquisto e fazia negócios. Per favore, amico! Naquele dia vi o quanto era importante ser um amigo de verdade. Não deixaria o italianinho na mão. Pensei: “Viemos juntos a Misiones, somos bons companheiros”. Adiós ao preconceito. Que venga el bife de tira! Não estava tão mal assim, mas o arroz servido por “cortesia” do dono estava completamente mofado e o pão, dormido e em coma. Mal-humorados, pagamos aquela conta com a raiva nos açoitando. Quando olhei para trás, vi o italiano agarrado ao proprietário em um abraço parceiro e desconfiei na hora que a conta do baixinho já estivesse paga quando entramos naquele restaurante dos infernos.

A primeira noite foi para o reconhecimento da arena de combates, afinal cassinos são para profissionais e nós precisávamos conhecer o inimigo. O nosso pequeno italiano é parecidíssimo com o Danny De Vito, e desde o início se apresentou como nosso guia, pois conhecia a todos nos cassinos. O fato é que quando desceu do quarto causou a estranheza de todos. Vestia roupas negras, portava três anéis de aço e prata em cada mão, pulseira reluzente e uma corrente de metal no pescoço caída no peito à mostra, pois desabotoara a camisa até a metade. Disse-nos que nos cassinos ele se transforma num personagem durão, digno da Camorra, a máfia napolitana e assim seria respeitado pelos oponentes. Todos seguraram o riso na marra. Não sei o porquê, mas naquele momento ele me lembrou um super-herói do pequeno Calvin, de Bill Watterson.

O italiano segue então à nossa frente e de repente para na entrada do Cassino, dá uma aspirada profunda e diz emocionado e com toda autoridade de um profundo conhecedor: “Sintam o cheiro de ópio… É sim, quem conhece sabe, eles borrifam os cassinos com ópio misturado a essências para deixar todos calmos e felizes”. Caímos todos na gargalhada, mas nos olhamos com uma ponta de dúvida. Então nos distribuímos no salão daquele pandemônio. Uns pelas roletas e nas slots machines, e os demais aguardando a abertura do pano verde de Black Jack e do Texas H’oldem. Resultado: paramos às 4h da manhã, exaustos. Lucro: US$ 4.000,00. Fora um bom começo e as aventuras só estavam começando. Continua…

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