Muito QI na passarela

Uma das áreas em que entrei para valer nos Diários Associados foi a do concurso Miss Brasil sob o patrocínio dos maiôs Catalina. Havia momentos até de alguma erudição quando Guido Viaro, nosso grande pintor, quase sempre membro do júri, versava sobre o corpo da mulher e medidas antropométricas numa perspectiva estética. E lá vinham referências a Vênus de Milo, Vênus Calipígia, o foco de clássicos e modernos, dos quais os surreais despontavam, mas eram precários os cubistas e as meio tortas do Modigliani.Todos esses cuidados eram insuficientes para evitar conflitos de opinião e a chiadeira de padrinhos das disputantes. No começo foi complicado fazer até o desfile em maiô por causa de uma corrente vitoriana de mães que achava aquilo demais, mas se tratava de imposição férrea dos patrocinadores.

Na hora das entrevistas, em que se procurava saber o nível de leitura das misses, era comum uma referência: “O Pequeno Príncipe”, de Exupéry. Até que houve o contraponto de linda estudante de arquitetura, Ângela Vasconcellos, a paranaense mais destacada como Miss Brasil, que colocou ao lado da referência inevitável nada menos do que Franz Kafka e com alusão à genial peça “A metamorfose”, a alucinante narrativa de Gregório Sansa que se vê de repente a transformar-se numa barata.

A interpretação dos dois textos, conflitantes em sua subjetividade, na voz doce da miss, era surpreendente na captação dos seus múltiplos significados. Um barato na síntese de um jornalista sem intenção de trocadilho com o drama do Gregório que o nosso Valêncio Xavier sonhava, até com alguma aflição, em levar para o cinema.

Deixe uma resposta