Sobre a brevidade da vida

Este tema que parafraseia a obra de Sêneca visa fazer uma reflexão sobre a nossa existência, mas, sobretudo, a maneira que muitas vezes ela é abreviada.

Desde o começo deste ano, temos assistido a acontecimentos trágicos que, realmente, nos deixaram reféns de muita emoção, de muita tristeza.

Começou com a tragédia de Brumadinho, seguida do incêndio no CT do Flamengo e, no momento em que pensava sobre este artigo, concatenando sua estruturação, fui assolado com a notícia da morte do jornalista Ricardo Boechat em função da queda do helicóptero que o transportava.

Vamos nos ater a estas três tragédias tão recentes para desenvolvermos o tema central deste artigo.

Comecemos por Brumadinho. Pessoas estavam em suas casas, em suas lavouras, em restaurantes, pousadas, enfim, em todos os locais possíveis que ficavam próximos dessa barragem. Conversando, dormindo, lendo, trabalhando, não importa: foram engolidas, em segundos, por uma avalanche de lama, que não lhes deu sequer a chance de gritarem. Morreram ali, sem saber nem como nem por quê.

Vamos agora para o incêndio no CT do Flamengo, também conhecido como “Ninho do Urubu”. Meninos de, em média, 14 anos, que um dia deixaram suas casas e suas famílias, ali estavam dentro de um alojamento-contêiner, que não tinha condições técnicas de ser usado para esse fim, dormindo, na inocência de estarem seguros. Provavelmente todos sonhando com o momento em que se profissionalizariam, assinando um contrato, que, certamente, tiraria suas famílias de uma condição difícil, como já vimos em tantas outras histórias. No meio desses sonhos, um enorme pesadelo os abateu: um incêndio que, em minutos, devorou suas vidas, seus sonhos e a esperança de suas famílias. Morreram praticamente dormindo.

Por último, na ordem cronológica dos fatos, Ricardo Boechat. Como tantos outros ouvintes o fazem rotineiramente, escutei seu programa naquele dia fatídico para ele.  Ora concordava, ora discordava das opiniões duras desse jornalista de coração afável.  Admirava-o. Pois bem, às 9h30 encerrou o programa, já embarcou em um helicóptero para uma palestra em Campinas, ao lado de São Paulo. Era uma fase boa, e ele surfava na onda de sua merecida fama, fazia muitas palestras paralelas ao seu dia a dia na Band. Fez essa palestra e embarcou novamente no helicóptero que o levara, mas que não o traria até seu destino previsto. A aeronave caiu e o matou.

Mas como? É tudo brutal, avassalador, como ficam as coisas depois disso? Ninguém se preparou, ninguém esperava, sequer se cogitava, é surreal!Como ficam as lavouras de Brumadinho? Os sonhos dos meninos do Flamengo? O jornal da noite da Band, sua doce Veruska, as meninas?

Fica como tudo fica após as tragédias, tudo revirado, todos incrédulos. Uma dor imensa pela implacabilidade da maneira como a vida lhes foi ceifada, abrupta e peremptória.

Os parentes das pessoas de Brumadinho vão procurar na justiça uma maneira de tentar compensar a perda material, mas e a dor da ausência que lhes dilacera o coração, quem compensará?

Os pais dos meninos do Flamengo olharão para a foto de seus filhos e se porão a imaginar a vida que cada um desses garotos teria. O sucesso que poderiam alcançar, os netos que lhes dariam e, também, no vazio de suas ausências, a tentativa de cicatrizar suas feridas, abertas, escancaradas, dilaceradas.

E a família Boechat? Assistirá muitas vezes às suas imagens gravadas na televisão, ouvirá sua voz no rádio e mais nada. Uma ausência que será sentida pelo barulho ensurdecedor do silêncio de sua voz calada brutal e precocemente. Sua doce Veruska e as meninas terão que se reinventar para poder absorver o acontecido e suas consequências.

Quando as pessoas são acometidas por doenças graves, a notícia dada pelo médico é terrível, mas não é mortal. Por mais grave que seja, a pessoa ouve, vê e analisa. Está viva, ainda. Não importa o que as estatísticas mostram com relação àquela doença. Está viva. Existe esperança. A medicina avança nos tratamentos, surgem novos remédios, pesquisas não param. Há esperança. Existe muita fé. Um milagre, por que não? Tantas histórias já ouvidas de bênçãos alcançadas por outros. Por que não?

A doença avança, as pessoas sofrem, famílias participam, amigos se solidarizam, mas há esperança.

Se persiste a evolução inexorável da doença, todos se preparam para o desenlace fatal. Dá tempo. Às vezes até clamamos pela passagem da pessoa, pois sua vida já se foi, contemplamos apenas um corpo praticamente inerte dependente de aparelhos. Preparamo-nos. Chamamos o padre, dá-se extrema unção, o doente morre em paz.

O ponto crucial desta discussão é sobre a “surpresa da morte”, a tragédia, o não preparo para ela. Num segundo é, e já no outro não é mais. Num segundo está, e já no outro segundo não está mais.

O rompimento da barragem, o incêndio, a queda do helicóptero, o infarto agudo, a queda de um raio, o tiro fatal, o aneurisma roto, etc, etc, etc. Não dá tempo, ninguém se prepara, ninguém esperava. Como fica?

A vida não para, os compromissos não esperam, as contas vencem, as máquinas vasculham, os treinos continuam, o jornal tem outro apresentador. Seja como for, de qualquer jeito, tem que ir…

E os nossos sonhos, planos, promessas? Pra quê? Morrem conosco. Ou vivemos o hoje, ou simplesmente rezamos pelo amanhã e pelo amanhã e pelo amanhã. Para que a barragem não rompa, para que o incêndio não devore, para que o helicóptero não caia.

 

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