Um domingo malvado

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Era esperado um domingo festivo, ninguém colocava dúvidas. A data era 16 de julho de 1950 e, para um dia de inverno curitibano, estava até quente, mas ficaria marcado na história para os brasileiros. No ar um clima de festa antecipada, pois a glória tinha hora marcada e a cidade estava inquieta: ruas vazias, apenas nas janelas bandeiras debruçadas. A vibração tomava conta da Pátria, que, como diria depois Nelson Rodrigues,
calçava chuteiras. Pela rua Comendador Araújo, Zito Alves Cavalcanti carregava um pesado rádio Zenith a válvulas, pois os radinhos portáteis a pilha inexistiam e muito menos a televisão. Era observado por dois ou três moleques mais uns cachorros vadios, que, pelo jeito, não se davam conta do que estava para acontecer. Zito chegou ao cine Palácio, na avenida Luiz Xavier, subiu até a cabine de projeção onde era o operador (depois chamado de projecionista). Com seu ajudante improvisou a antena, ligou o aparelho e logo a Rádio Tupi sintonizada narrava e empolgava. Brasil e Uruguai decidiriam a Copa do Mundo, no Maracanã novinho, o maior estádio até então. O mundo esperava ansioso por uma Copa, pois as competições foram interrompidas na década de 40 com a Europa arrasada pela guerra.

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Cinema aberto, havia apenas alguns raros inimigos do futebol. Na tela era projetado o filme “A malvada” (All about Eve, 1950), com Anne Baxter, Bette Davis, George Sanders e Marilyn Monroe, em uma ponta deslumbrante. Com roteiro e direção de Joseph L. Mankiewicz e distribuído pela Fox, venceu seis prêmios Oscar, inclusive de melhor filme, e teve mais 14 indicações. Isto em um ano em que foram apresentados “O segredo das joias” (The asphalt jungle), de John Huston, “Rashomon”, de Akira Kurosawa, “Crepúsculo dos deuses” (Sunset boulevard), de Billy Wilder, “Rio Bravo”, de John Ford, e outros. É um filme de diálogos inteligentes, personagens fascinantes, embora seja difícil aceitar que a malvada seja interpretada por Anne Baxter e que pudesse ameaçar uma Bette Davis em seu auge.

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Friaça marcou pelo Brasil, e o grito de 200 mil bocas ecoou no estádio do Maracanã. A bola rolava, e o Zito permanecia atento à tela e às passagens dos projetores (lembrando que os filmes vinham em partes) irradiando a marcante interpretação de Baxter e Davis. Aconteceu então o que parecia impossível: o Uruguai empatou a peleja. Correu um frio na espinha, mas tínhamos no gol o soberbo Barbosa. O empate serviria para glorificar a fantástica equipe verde-amarela. Na tela Eve liquidava a rival Margo e foi na narrativa do locutor da Rádio Tupi que Gighia colocou nas redes brasileiras a mansa bola, aos 79 minutos, liquidando as nossas esperanças. A mudez cimentou o gigantesco estádio. Parecia mentira e o País chorava sem lágrimas.

Cena de “A malvada”, em que aparecem Gregory Ratoff, Anne Baxter, Gary Merrill, Marilyn Monroe, George Sanders, Celeste Holm.

Cena de “A malvada”, em que aparecem Gregory Ratoff, Anne Baxter, Gary Merrill, Marilyn Monroe, George Sanders, Celeste Holm.

Terminada a sessão, Zito foi devolver à mãe o rádio emprestado, que no trajeto de volta à casa pela mesma Comendador Araújo parecia pesar mil quilos. A mãe o consolou: outros jogos virão, e vieram outros domingos, outros jogos, outros filmes.

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