Adeus às ilusões

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O título do romance de Robert Musil cai perfeitamente para este artigo sobre o novo presidente do Brasil, Jair Bolsonaro. Ele é o primeiro presidente de extrema-direita da democracia brasileira. Eleito por milhões, este populista representa o papel de homem comum, mas honesto, de moral rígida, que luta pelos bons costumes e promete tirar o Brasil das mãos de políticos corruptos que chafurdaram à vontade nos anos de hegemonia da esquerda. Um homem sem qualidades excepcionais, mas corajoso para enfrentar os ímpios.

Bolsonaro é uma novidade que os analistas de meia confecção procuram enquadrar em esquemas aprendidos nas apostilas da academia, do tipo que qualifica todo adversário com insultos de fascista, golpista, idiota e outros obscenos, e não consegue passar dos adjetivos. A miopia intelectual não permite que percebam que o novo presidente representa, principalmente, o brasileiro que nos últimos anos sentiu que perdeu privilégios. Nem sempre os privilégios são bem entendidos. Não se trata apenas de poder de compra, o que é determinante numa eleição, mas daquilo que dá chão a uma experiência de existir, aquilo com que faz com que aquele que caminha se sinta em terra mais ou menos firme, conheça as placas de sinalização e entenda como se mover para chegar aonde precisa.

A oposição precisa entender que Bolsonaro uniu parcelas da sociedade brasileira que um dia acreditaram em Lula, no PT, nos assemelhados e sofreram terrível decepção. A massa que se sentiu roubada, literalmente, diante das revelações do mais extenso sistema de corrupção que o Ocidente já viu. Essa gente que cantou “Lula, lá”, que fez maioria das esquerdas nos parlamentos, se recusou a repetir o fracasso petista e a excrescência em que se transformou a maioria dos políticos nativos.

Mesmo que seja difícil de engolir para a maioria dos brasileiros que não votou em Bolsonaro e escolheu o candidato oposto ou votou em branco, nulo ou simplesmente não compareceu às urnas, como eu, é preciso admitir que o fenômeno Bolsonaro e todas as ideias retrógradas e seu moralismo chinfrim mesclado com superstições religiosas foram gestados nos erros da esquerda.

Jair Bolsonaro não vem das elites. Filho de dentista prático do interior paulista, oriundo de uma família que poderia ser definida como de classe média baixa, não é representante apenas de um extrato social. Ele representa uma visão de mundo. Não há nada de excepcional nele, diz Eliane Brum. Cada um de nós conheceu vários Jair Bolsonaro na vida. Ou tem um Jair Bolsonaro na família. Ou mais. Pois foi ele, o homem “comum”, igual à maioria, escolhido para evitar políticos corruptos, especialmente os da esquerda que chafurdaram no mensalão e são alvos da Lava Jato. Por isso, Bolsonaro não deveria parecer melhor que seus eleitores, mas igual.

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Aposta na vida comum

Bolsonaro apostou na vida “comum”, simulou o cotidiano prosaico, o improviso e a gambiarra nas comunicações do candidato com seus eleitores pelas redes sociais. Bolsonaro não deveria parecer excepcional, mas “comum”. A mesma estratégia foi mantida depois de eleito, como a mesa bagunçada de café da manhã com que recebeu John Bolton, o conselheiro de Segurança Nacional do presidente americano Donald Trump. Neste sentido, Bolsonaro jamais pode ser considerado o “Trump brasileiro”. Trump, além pertencer a uma parcela muito particular das elites americanas, tem uma trajetória de destaque. Bolsonaro, não. Como militar, ele só se notabilizou por quebrar as regras ao dar uma entrevista para a revista Veja a reclamar do valor dos soldos. Como parlamentar por quase três décadas, conseguiu aprovar apenas dois projetos de lei. Era mais conhecido como personagem burlesco e criador de caso.

Quando Tiririca foi eleito, sua grande votação foi interpretada como a prova de que era necessária uma reforma política urgente. Mas Tiririca foi um grande palhaço. Num mundo difícil para a profissão desde a decadência dos circos, Tiririca conseguiu encontrar um caminho na TV, fazer seu nome e ganhar a vida. Não é pouco.

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Herói dos de baixo

Bolsonaro, não. O grande achado foi se eleger deputado e conseguir continuar se elegendo deputado. Em seguida, colocar todos os filhos no caminho dessa profissão altamente rentável e com muitos privilégios. A “família” Bolsonaro tornou-se um clã de políticos profissionais que, nesta eleição, conseguiu um número assombroso de votos. Mas não pela excepcionalidade de seus projetos e ideias.

O novo presidente do Brasil passou quase três décadas como um político daquilo que no Congresso brasileiro se chama “baixo clero”, grupo que faz volume, mas não detém influência nem arquiteta as grandes decisões. A alcunha é uma alusão injusta ao clero religioso que faz o trabalho de formiguinha, o mais difícil e persistente, seguidamente perigoso, no mundo das igrejas. O próprio Bolsonaro já comentou que não tinha prestígio. Quando disputou a presidência da Câmara, em 2017, só obteve quatro votos dos mais de 500 possíveis. “Eu não sou ninguém aqui”, afirmou em um discurso no plenário, em 2011.

Os deputados do “baixo clero” do Congresso descobriram a força de Jair Bolsonaro nos últimos anos. Logo perceberam como podem se locupletar unindo-se e fazendo número a favor dos interesses que os beneficiam. Ou simplesmente chantageando com o seu voto. Bolsonaro é dessa estirpe. Se ocupava um lugar no Congresso, era o de bufão. Até um ano atrás, poucos acreditavam que poderia se eleger presidente. Parecia impossível que alguém que dizia as barbaridades que ele dizia poderia ser escolhido para o cargo máximo do país.ilusoes3_esquerda

Bolsonaro é exceção. Ele rompeu com a ideia da excepcionalidade. Em vez de votar naquele que reconhecem como detentor de qualidades superiores, que o tornariam apto a governar, quase 58 milhões de brasileiros escolheram um homem parecido consigo mesmos. O que a esquerda idiotizada deixou de perceber é que as maiorias tinham algo de Bolsonaro. Logo essa evidência ficou clara, mas os “intelectuais” de meia pataca não entenderam que o homem é apenas uma continuação do que as redes sociais já tinham antecipado, ao revelar o que realmente pensam pessoas que pareciam razoáveis. Deixou-se de enxergar, talvez por negação, o quanto esse contingente de pessoas era numeroso. Os preconceitos e os ressentimentos recalcados em nome da convivência eram agora liberados e fortalecidos pelo comportamento de grupo das bolhas da internet. As redes sociais permitiram “desrecalcar” os recalcados, fenômeno que beneficiou Bolsonaro.

Os gritos das pessoas que ocuparam o gramado da Esplanada dos Ministérios, em Brasília, foram a parte mais reveladora da posse de Bolsonaro, em 1º de janeiro. Eufórica, a massa berrava: “WhatsApp! WhatsApp! Facebook! Facebook!”. Quem quiser compreender esse momento histórico terá que passar anos dedicado a analisar a profundidade contida no fato de eleitores berrarem o nome de um aplicativo e de uma rede social da internet, ambos de Mark Zuckerberg, na posse de um presidente que as elegeu como um canal direto com a população e deu a isso o nome de democracia.

 

 

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