Ai, Londrina

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cronica_joaoantonio_retratoPaulistano de 1937, João Antônio mostrou seu potencial já em sua estreia com o livro de contos Malagueta, Perus e Bacanaço, que ganhou vários prêmios: dois Jabutis (revelação de autor e melhor livro de contos) – feito inédito à época (1963) –, Prêmio Fábio Prado e o Prêmio Prefeitura Municipal de São Paulo. Sua história no jornalismo e sua vocação à literatura renderam a criação do gênero conto-reportagem. Ficou conhecido por narrar histórias dos menos favorecidos que habitavam as periferias dos grandes centros urbanos. O eixo Rio-São Paulo é apresentado ao leitor para além dos cartões-postais, o cotidiano vibra em sua obra. No posfácio de Malhação do Judas Carioca, o autor escrevera que “Não é possível produzir uma literatura de heróis taludos ou de grandiosidade imponente, na vida de um país cujo homem está, por exemplo, comendo rapadura e mandioca em beira de estrada e esperando carona em algum pau de arara para o Sul, já que deve e precisa sobreviver”. A Ideias traz ao leitor seu conto “Ai, Londrina”, do livro Encontro das Águas (1994), da Travessa dos Editores, a retratar o “lado B” da cidade, como costumou fazer em suas obras. João Antônio morreu em 1996, no Rio de Janeiro.

Faroeste aceso no Norte do Paraná. Uma cidade é capital brasileira da boêmia e não tem mais de vinte anos de idade; correm aos anos loucos do café que iriam de 1949 a 53. A crise do muito dinheiro nas terras roxas, as fortunas surgidas da noite para o dia, a cidade fretando aviões de mulheres, chamados “balaios das putas”, a importação de bebidas, costumes e artistas estrangeiros, a multiplicação dos clubes de jogos de azar. Londrina é a primeira cidade brasileira a importar cadilaques.

No centro de tudo isso, o brega explode como o maior ponto de concentração – é o lupanar, a zona, o bordel, que se estende do centro da cidade às casas distantes e às chácaras, se infiltra no coração do próprio cafezal, devora dinheiro e faz proliferar cinco mil mulheres em exercício.

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Despreparados, fascinados, ricaços da noite para o dia, os poderosos de Londrina e os poderosos vindos de fora fazem nascer um movimento esdrúxulo e glorioso – e, conforme alguns testemunhos, a maior de todas as aventuras boêmias e alegres já vividas por uma cidade brasileira.

A loucura está solta. Há rodízio de mulheres no brega, gigolôs e coronéis se misturam e surge um triunvirato velhaco: coronel-mulher-gigolô, em que amores explodem violentos, gloriosos, malditos, ridículos. E se o ridículo é um grande momento do homem, Londrina dá cartas e joga de mão.

Agiotas enriquecem, picaretas aplicam golpes, continuam impunes e esbagaçando dinheiro no brega, cafetinas fazem fortunas e são odiadas, brilham tipos pitorescos como o inveterado otário Marquês do Bom Michê.

Corria um tempo em que, como se diz, se amarrava cachorro com linguiça e se ganhava dinheiro a rodo. Amavam-se mulheres finas, admiráveis, beldades que se revezavam, lindas e muitas, trazidas e chegadas de todas as partes. Havia chilenas, argentinas, mexicanas, bolivianas, as melhores cariocas, gaúchas, paulistas, uruguaias. Só se bebia champagne francês e scotch importado. Os cigarros eram americanos e acesos, alguns, ao fogo de notas enroladas de cinco mil réis, na meia penumbra de mesas ricas dos bordéis da cidade. O dinheiro rolava solto, ágil, fácil e muito. Inesperado.cronica_joaoantonio2

O herói era o café, do qual nunca se esperou tanto. A heroína era a terra roxa, firme, forte na cor e na fertilidade e que se impregnava em tudo. No dinheiro, nas roupas e entre as unhas.

E Londrina aceitava o desafio da loucura do café e assumia a si mesma. Esbanjando à grande, gulosamente festiva e boêmia, cumpria sua contradição – chegava aos vinte anos de vida e já era capaz de ganhar mais do que produzia, gastar mais do que necessitava, aproveitar menos do que podia assimilar. E, sem nenhuma raiz, trouxe todas as raízes de fora.

Como num golpe, como num susto, o movimento inflacionário deu partida. O meio circulante, o dinheiro, de um salto acompanhou o pulo dos preços do café. Fazendeiros, cafeicultores, exportadores, corretores, toda gente ligada ao café estava rica da noite para o dia.

A cidade, terceiro aeroporto em movimento do país. Para alguns veteranos, o ano de 51 é o momento alto da euforia. Táxis aéreos particulares, além das linhas regulares da Varig, Real-Aerovias e Vasp fazem a média de 40 a 50 voos diários, despejando ou levando gente que entra e sai, principalmente de Foz do Iguaçu, Porto Alegre, São Paulo, Curitiba, Rio de Janeiro, Goiás e Belo Horizonte.

Nesse ano, a famosa Boate Diana fretava um avião de linha comercial trazendo vinte mulheres. A dona da boate, Selma, anunciara pelas rádios, pelos alto-falantes da cidade e até com fotos de biquíni, a nova safra que estava por chegar: BOATE DIANA – NOVOS SHOWS – GRANDES ATRAÇÕES. O bar principal da cidade, o Líder, da Rua Rio de Janeiro, expunha fotos de jovens mulheres lindas e gritava reclames.

Cafeicultores, fazendeiros, madeireiros, coronéis, picaretas foram ao aeroporto assistir à chegada das chinas, como a linguagem da época as chamava. E, ali mesmo, cada um já escolheu a sua mulher, com quem se avistaria à noite. A safra de mulheres era chamada lote e os compradores as escolhiam previamente, como gado. Gado de raça, diga-se.cronica_joaoantonio3

Nas grandes casas, rodízio permanente, que os consumidores querem novidade. Pagam e pagam alto – se chove, o fazendeiro vai ficando na casa e está disposto a tudo enquanto chover e quiser ficar. Sustenta o fogo aceso de trinta mulheres bebendo. Bêbado, é roubado na conta. Gasta vinte mil cruzeiros, paga trinta ou mais. E paga. As grandes casas não servem cerveja, é bebida barata. Só trabalham com scotch autêntico (Cavalo Branco ou John Haigs), vinho Adriano Ramos Pinto, legítimo português, ou champagne francês. Os garçãos, vestidos a rigor, trabalham com pratarias, cristais e servem em pires de metal, quando a pedida é individual.

Noutras cidades do Norte do Paraná, o café fazia enriquecer. Toda a região cresceu. No estado de São Paulo, as cidades de Presidente Prudente, Marília, Ourinhos, Bauru conheciam o auge. Mas ele era ela: Londrina, centro boêmio dessa euforia que chegou a nacional – café – e abriu suas asas para os vícios e as graças da vida alegre. Montou as casas mais ricas de prostituição do país, conluiou picaretas, cáftens, marafonas caras e finas, hábeis malandros de jogo carteado, do pif-paf à cacheta, do bacará à roleta, músicos, cantores famosos e nomes internacionais em moda, orquestras estrangeiras, suntuosos automóveis importados, manteve clubes de jogos às dezenas, trouxe e renovou em aviões fretados as mais finas de mulheres da noite, enquanto suas ruas continuavam sem pavimentação e a cidade tinha problemas de saúde, saneamento, educação, transportes.

A cidade está dividida em duas, a de baixo e a de cima, a que fica antes e a que fica depois dos trilhos dos trens, a zona e a família, a devassa e a bem-comportada. O café, só se planta café, cerca a cidade dividida em duas.

Nas ruas, uma lama só, quando chove. E pó vermelho, se faz sol. Mas a ostentação e as viagens dominam. O carro estrangeiro, enorme, bebedor de gasolina, de preço, chega a Londrina ‒ principalmente o grandalhão Cadilaque. Os fazendeiros e enricados preferem o bem preto, banda branca, exuberante, suntuoso, embora o pó avermelhado suje tudo, se intrometa e fique impregnado em tudo: pessoas, animais e coisas.

Rápidos, ariscos e impunes, os vigaristas, chamados corretores, funcionam elétricos, desenvolvendo tombos, estouros, segundas, datas (lotes de terra) que jamais existiram. Levantam o dinheiro fácil, fácil, gadanhando do jacu (o comprador de terras, pacato, crédulo, ignorante, vítima frágil) e vão gastas lá em baixo, à noite, nos bordéis. Nasce a expressão “ir para baixo”, ir para o brega, para o lupanar.

Era só café. O resto da produção agrícola era ralo, para o gasto – verdura, hortaliças, ovos, leite. O gado de leite vinha à cidade, era puxado pelas ruas lamacentas ou poentas. E os vendedores, gente rude, gritavam:

– Leite! Leite!

E o leite era tirado na hora, vendido ainda quente do úbere.

Essa, a Londrina louca e gloriosa, devassa e amante, alegre e boêmia, velhaca, consumidora, frívola e transitória, que os anos cinquenta viram brilhar à grande e de repente, passando como uma chispa.

Em 53 viria a primeira queima do café, a geada, a queda violenta de vendas e preços.

A loucura acabou. As luzes foram desmaiando, as casas sendo deixadas pelos grandes nomes importados, a festa quase parou e a cidade foi voltando ao seu lugar.

Quem viveu os anos de ouro, viveu. Quem não viveu, não olhe para trás.

Londrina é outra.

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