Bicicletas, compartilhamento e mudanças

No dia 22 de janeiro, quem andava pelo centro de Curitiba e adjacências pôde encontra-las abandonadas, quase esquecidas ou desprezadas. No meio da calçada, largada, como objeto velho que já não serve, logo não exigia a preocupação de garantir a segurança para que não houvesse o furto ou indicar que aquilo tinha dono. Parecia como uma carteira num balcão de loja quando o sujeito pega o produto e vai embora. A pressa ou a falta de atenção não permitiram o lembrete “Isto é meu, tenho que levar”. E lá ficou. Ao léu.

Mas como pode? Tão bonitinha. Novinha em folha. Deve ser de alguém. Ninguém abandona algo assim. E os jornais noticiaram. Chegaram, no verão de 2019, na cidade famosa por seu transporte público, sua eficiência em mobilidade urbana com as rápidas, canaletas etc., as Yellow Bikes. Demorou. Curitiba já não pode ser referência de mais nada no que tange à mobilidade urbana. Parou, como diz a música do Chico, no sucesso do rádio de pilha, e desde Jaime Lerner não houve qualquer mudança significativa, inovadora, de vanguarda. Há agora (?) uma tentativa de ser São Paulo, não só com binários e uma fracassada marginal chamada de Linha Verde (?). Bem, não só agora, os paranistas que nos perdoem, mas não sabemos se o Paraná de fato existe ou ainda hoje, no século XXI, é uma extensão de São Paulo. A Gazeta do Povo tenta tomar o lugar do Estado de S. Paulo como o jornal da direita nacional, com seus colunistas recheados de conservadorismo barato, mas é ainda pequenina. Talvez não haja santo que ajude. Talvez o Paraná como extensão de São Paulo seja obra de Deus. Enfim, de qualquer maneira, as simpáticas Yellow Bikes chegaram.

Havia um projeto por parte da prefeitura, ainda da gestão Fruet, para compartilhar bicicletas. Era uma das marcas do prefeito que chegou para tomar posse do cargo numa magrela. Foi-se adiando e adiando. O Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba (IPPUC) afirmara em 2017 à Gazeta do Povo que o projeto precisou de uma revisão. “A lógica é fazer com que a bicicleta converse com o transporte coletivo, já que o nosso modelo é fortemente ancorado no transporte coletivo”, disse à época o arquiteto responsável, Antonio Taboada. Goura (PDT), eleito deputado estadual no último pleito, mas à época vereador, estava impaciente com a demora – mobilidade é uma das bandeiras do deputado. “Poderia ser muito mais rápido, muito mais ágil? Acho que sim. Poderia haver uma forma de gestão muito mais ativa sobre o uso de bicicleta na cidade”.

A burocracia pública é complicada. O projeto no IPPUC tinha que ser revisto, a URBS tinha que não sei o quê, rever trajeto e um monte de coisa. Nessas de rever isso, repassar aquilo, pegar a assinatura do Jurandir na repartição, carimbar com a Marta, autenticar com o Pedro, a Yellow abandonou suas bicicletas nas calçadas com um adicional: os patinetes. A prefeitura ficou para trás.

A startup já opera em Belo Horizonte, Brasília, Campinas, Curitiba, Florianópolis, Recife, Rio de Janeiro, São José dos Campos, São Paulo e no verão em Ilha Bela. E iniciará atividades em Bogotá, Buenos Aires, Cidade do México, Montevidéu, Porto Alegre, Santiago e Vila Velha.

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Diferentemente de outros serviços de compartilhamento de bicicletas, as Yellow Bikes não precisam de estação fixa. Se está lá, use! Na frente do mercado, na praça, no meio da Rua XV. “O atrativo é justamente ser complementar aos trechos urbanos que as pessoas fazem, substituir um trajeto curto que é feito de carro, levar até um ponto de integração de ônibus e diminuir o gasto das pessoas”, disse Luiz Felipe Marques, diretor de marketing da Yellow. Tudo muito legal, mas elas não estão disponíveis para toda a cidade. Os bairros Ahú, Alto da Glória, Alto da XV, Batel, Cabral, Campina do Siqueira, Centro, Centro Cívico, Juvevê, Hugo Lange, Seminário e Rebouças têm as bicicletas à disposição. O serviço custa R$ 1 a cada dez minutos para as bikes. Os patinetes têm o custo de fixo de R$ 3 para começar a usar e mais R$ 0,50 por minuto. Com o Greca querendo aumentar a tarifa, está valendo a pena.

Também é possível criar estações para “estacionar” as bicicletas. No site da empresa, os pré-requisitos são apontados: área de propriedade privada, com livre acesso à população (24 horas por dia, no caso de bikes); espaço mínimo de 1,8 metro de largura x 4 metros de comprimento para estações de bike ou mistas (bike + patinete); espaço mínimo de 1,2 metro de largura x 0,6 metro de comprimento para estações exclusivas de patinete; estabelecimento localizado dentro da área de atuação Yellow, e em casos de estações de patinete, é importante estar próximo a ciclofaixas e ciclovias.

Para utilizar uma das “amarelinhas”, como a startup chama, basta baixar o aplicativo, encontrar uma bicicleta, colocar créditos em sua conta e usar o scanner para liberar o equipamento que tem uma trava de segurança.

É de se pensar nos furtos das bicicletas e dos patinetes ou mesmo de peças. A empresa afirmou que ambos foram projetados pela própria Yellow, portanto uma peça da Yellow não servirá em outra bicicleta ou patinete. E os aparelhos são monitorados 24 horas por dia. Isto não impediu, no entanto, que uma bike aparecesse no meio do Rio Belém, no Centro Cívico, uma semana após o sistema chegar à cidade. Outras bicicletas foram encontradas no Parque Barigui com as rodas tortas. A Yellow disse que atua junto à Guarda Municipal para garantir que não haja atos como esses. E em nota complementa: “A empresa toma conhecimento de casos importantes por meio dos guardiões ‒ sua equipe de rua, destinada ao monitoramento e à organização das operações ‒, por meio das autoridades locais ou por meio de denúncias feitas pelos próprios usuários, tanto no aplicativo como à polícia, com a qual a Yellow atua em parceria”.

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É um sistema que exige a compreensão de todos e precisa ser ampliado, visto que funciona num perímetro de 21 quilômetros. E resta a dúvida se vingará na cidade com relevo acidentado e muita chuva. Quem não preferirá um Uber num dia de garoa ou mesmo frio? A existência das bicicletas à disposição da população já é um início, mas é preciso haver uma mudança de cultura, de comportamento. É preciso não haver tanto carro na rua, pois até nisso Curitiba começa a imitar São Paulo – em suas proporções provincianas, é lógico. Compartilhar bicicletas é um passo, mas é insuficiente para compartilhar uma vida em sociedade que imponha a solidariedade ante o egoísmo. Logo, se não vier acompanhada de políticas públicas que demonstrem o interesse na permanência e no aperfeiçoamento das bicicletas compartilhadas, pouca eficiência terá e aquela bike abandonada, esquecida como uma carteira num balcão será surripiada pelo carro.

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