Carnaval-manifesto

 

Eu sou o samba

A voz do morro sou eu mesmo sim, senhor
Quero mostrar ao mundo que tenho valor
Eu sou o rei do terreiro (…)

Salve o samba, queremos samba
Quem está pedindo é a voz do povo de um país
Salve o samba, queremos samba
Essa melodia de um Brasil feliz

(A Voz do Morro – Zé Keti)

 

 

O carnaval é um tema brasileiro, aqui se sabe fazer festa, desfile, fantasia, samba-enredo. O carnaval brasileiro, para os que vivem dele, os trabalhadores de todas as áreas, os que criam fantasias, músicas, danças e desfiles, todos-todas, para eles e elas, é um trabalho que ultrapassa os dias em que vira festa para as pessoas que buscam por diversão ou descanso em suas folgas. É também trabalho, organização, criatividade, manifestação cultural e política. É suor.

Além de ser alçada do Brasil, também já foi e é tema de estudo nas diversas áreas do conhecimento e, como é conhecido, movimenta a economia e o momento é visto como uma integração entre comunidades. Como o sociólogo Luiz Antônio Sobreira Cabreira escreveu, o carnaval “abre espaço para a manifestação cultural da população e entretenimento gratuito para todos”. Existem as alas exclusivas, bem se sabe, os camarotes, as festas VIPs, mas em todo canto, ou melhor, em várias ruas, espaço público implacável quando ocupado, os blocos contaminam com sua força e suas palavras.

Aqui em Curitiba temos muitos deles, que, por sinal, movimentaram janeiro e fevereiro com blocos de sexta a domingo, todos os finais de semana. A Bloca Ela Pode, Ela Vai, construída só por mulheres, possui letras-manifestos sobre empoderamento e sobre as condições das mulheres na sociedade. Também com deboches e enfrentamento aos homens que usam mulheres de fantasia quando o Brasil é um país de altos índices de violência contra a mulher, alertando hipocrisia e apontando machismos. Entre os vários temas que rodeiam nossa múltipla experiência, suas marchinhas também fazem paródias que arrasam e elevam, como esta de As águas vão rolar:

 

Orgasmos vão rolar

A mulherada tá querendo gozar,

Eu passo a mão e toco o meu corpo

E gozo até me afogar

Deixa o gozo rolar

Se o clitóris você não conhecer

E o ponto G não consegue encontrar

Eu passo a mão e toco o meu corpo

E gozo até me afogar

Deixa o gozo rolar

(Composição da paródia: Bloca Ela Pode, Ela Vai)

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Outro bloco que movimentou a cidade foi o Afro Pretinhosidade. Organizado e composto somente de pessoas negras, o bloco é uma valorização da cultura negra e periférica. Este ano, junto de outros blocos, levou as marchinhas, a festa e o manifesto para a Vila Torres, bairro de origem do bloco, mostrando a importância de descentralizar o carnaval dos bairros alheios às outras narrativas da cidade. Uma Curitiba pulsante e imponente que se coloca a ouvir. Aqui vai uma de suas marchinhas:

 

No rufar dos tambores

No estralar do timbau

Vamos mostrar para esse povo

Como é o nosso carnaval

Agradecemos aos mais velhos

Aos mais novos também

Pois é essa união

Que faz nosso povo ir além

Seja lá na Marechal

Na São Francisco ou largo

Nos becos e vielas

Das quebradas e favelas

Pretinhosidade vem trazendo através do som dos seus tambores

A voz de um povo que clama

Por justiça e paz

Kaô kabecilê kabecilê, meu pai

Eparre bela oya com os seus ventos a levar

A voz do Pretinhosidade pro nosso povo lembrar

Que a nossa história de luta

É de se orgulhar

Erga a cabeça meu povo pra sua beleza espalhar

Pretinhosidade a voz da liberdade que ecoa na cidade

Lutando por igualdade

Harmonia e paz

(Composição: Diorlei Santos)

 

Os sambas-enredos das grandes escolas do Brasil também estão dispostos a expor descontentamentos políticos em suas manifestações artísticas. A escolha de samba-enredo da Estação Primeira de Mangueira, que leva as cores verde e rosa por sugestão de Cartola, talvez seja o grande exemplo de 2019. Há um ano, Marielle Franco, socióloga e eleita vereadora pelo PSOL, ativista em prol do povo negro e feminista, foi assassinada junto de Anderson Pedro Gomes após 13 tiros. Até agora a pergunta “Quem matou Marielle e Anderson?” não foi respondida. Entre os movimentos sociais e partidos, a Mangueira também levanta o nome de Marielle para que ela não seja esquecida como parte de nossa história. História marcada por três séculos de escravização e ainda hoje tendo o jovem negro como a maior vítima de homicídios. A escola, portanto, não deixou de olhar para essas questões tão urgentes e criou com maestria seu samba-enredo:

 

Brasil, chegou a vez

De ouvir as Marias, Mahins, Marielles, malês

Brasil, meu dengo

A Mangueira chegou

Com versos que o livro apagou

Desde 1500

Tem mais invasão do que descobrimento

Tem sangue retinto pisado

Atrás do herói emoldurado

Mulheres, tamoios, mulatos

Eu quero um país que não está no retrato

Brasil, o teu nome é Dandara

E a tua cara é de cariri

Não veio do céu

Nem das mãos de Isabel

A liberdade é um dragão no mar de Aracati

(Composição: Danilo Firmino / Deivid Domênico / Mamá / Márcio Bola / Ronie Oliveira / Tomaz Miranda)

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As escolas estão em diálogo com uma urgência que deveria ser pauta também em outros espaços da sociedade brasileira, pois, além da criação, estamos falando de estruturas que limitam vidas e corpos específicos. O samba-enredo da Portela também conversa com a cultura negra e a necessidade de valorização além dos estereótipos: “Pra ver a Portela tão querida/ E ficar feliz da vida/ Quando a Velha Guarda passar/ A negritude aguerrida em procissão/ Mais uma vez deixei levar meu coração”. E a Paraíso da Tuiuti, em seu samba-enredo de 2019, afirma: “Vendeu-se o Brasil num palanque da praça/ E ao homem serviu ferro, lodo e mordaça/ Vendeu-se o Brasil do sertão até o mangue/ E o homem servil verteu lágrimas de sangue”.

O carnaval, por ser tão Brasil, é revisitado muito mais vezes do que espectadores e simpatizantes podem considerar, é trabalho criativo e político. Auxilia também na ressignificação que pode se fazer dos temas, das narrativas e das vidas que muitas vezes não importam nas grandes páginas. O olhar ao carnaval é múltiplo e sua riqueza está exatamente na pluralidade, dos feitos e efeitos desse trabalho de suor, de festa e de feitura, basta que a sociedade corresponda e converse, valorize o que se faz e o que se pede, atente-se ao que ouve. E não só, veja quem está por trás de cada uma das vestes e músicas. Cada lantejoula e batuque. Algumas figuras políticas podem até esquecer certas vidas e homenagear suspeito de assassinato, mas, ao que parece, os(as) foliões(onas), carnavalescos(as) e batuqueiros(as) não esquecerão.

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