Os povos afros deixam suas marcas no Paraná

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Uma mulher livre, pobre e negra. Essa era Maria Águeda, uma das primeiras afro-brasileiras a afrontar em terras paranaenses o período mais sombrio da história brasileira. O ano era 1804. Alforriada, Maria, com aproximadamente 25 anos, teve a coragem de lutar por seus direitos e pela igualdade. Sem que ninguém esperasse, ela se negou a obedecer às ordens da esposa do capitão-mor da vila de Tindiquera, hoje Araucária, e acabou atrás das grades.

Nessa época, os negros eram mercadorias. Escravizados, esses povos eram comprados e vendidos por meio de anúncios de jornais. Não tinham direito a absolutamente nada. Ao contrário, qualquer ato que desagradasse poderia render-lhes dolorosas punições.

Nascida entre 1776 e 1779, Maria Águeda quis valer o seu direito de ser livre.

Era uma quarta-feira, dia 15 de agosto, quando, em frente à Igreja Matriz da Vila de Curitiba, Maria recebeu a ordem de buscar brasa para acender um aquecedor. Maria Águeda respondeu com um redondo “não”. O simples gesto e, sobretudo, a condição de ser negra lhe rendeu uma série de arbitrariedades nas mãos do tenente-coronel do destacamento de cavalaria. A atitude de Maria Águeda certamente serviu de exemplo para que os povos afros em terras paranaenses também se vissem como seres humanos e não meros produtos que se compravam e se vendiam.

Ao longo da história do Paraná, milhares de pessoas negras escravizadas estiveram presentes na construção da área que forma o atual território paranaense. Desde meados de 1550, os europeus decidiram pelo tráfico de moradores da África para servirem aos senhores brancos que habitavam o Brasil. Vinham do Congo, de Angola, Moçambique e Etiópia. Forçados ao trabalho escravo, eles atuaram em mineração, construção e cultivo de erva-mate, além das tarefas no campo, na lida com o gado e ainda em afazeres domésticos. Também eram empregados nas oficinas de carpinteiro, sapateiro e alfaiataria.

Apelar para a escravidão significava para os “senhores de terra” brasileiros que nenhum outro trabalhador teria acesso aos meios de produção, que naquela época eram agrários. Afinal, garantindo a submissão dos trabalhadores, eles não teriam condições de ter seus próprios bens – pelo contrário, teriam que obedecer a severas ordens.

O Paraná tornou-se um dos tantos celeiros deste episódio que manchou a história do país por quase três séculos. Vale ressaltar que o Brasil foi o último país das Américas a abolir oficialmente a escravidão, em 1888. No continente africano, os escravos eram adquiridos em troca de cachaça e tabaco – apreciados na África e abundantes no Brasil.

Navios negreiros atravessavam o Oceano Atlântico  conduzindo em seus porões aldeias inteiras em condição insalubre. Não foram raros os mortos durante a travessia. Chegando ao Brasil, os escravos eram transformados em uma lucrativa moeda de troca. Geralmente eram trocados por produtos, como o açúcar, que, por sua vez, era revendido pelo traficante negreiro com grande margem de lucro para a Europa. Como o açúcar era levado aos países europeus no mesmo navio, o “comerciante” de escravo forçava os senhores de engenho a adquirir novos escravos sob a pena de não comprarem o açúcar. O porto de Paranaguá, inclusive, virou um centro de contrabando de escravos.

Em 1772, a área que hoje pertence ao Paraná tinha cerca de 7,6 mil habitantes, segundo estudos da historiadora Altiva Pilatti Balhana. Desses, 1,7 mil eram escravos – quase 22% da população total. O historiador Carlos Roberto Antunes dos Santos destaca que os escravos eram fundamentais para a economia brasileira e, consequentemente, para a província da época. A elite dependia diretamente da força de trabalho dos escravos para aumentarem suas riquezas e movimentarem o ciclo econômico.

A partir de 1853, quando foi criada a Província do Paraná – o território até então pertencia a São Paulo –, a escravidão marcou a região de forma mais acentuada. Tanto que, quase uma década antes da abolição, em 1876, o Paraná chegou a contabilizar 10.560 escravos – sendo mil na cidade da Lapa e 920 em Curitiba.

“Foram as pessoas negras escravizadas que construíram muitas obras no nosso estado usando tecnologia negra, como a técnica de construção de pilão de pedra e de pilão de taipa”, afirma Adegmar Candiero, assessor de Políticas de Igualdade Racial da Prefeitura de Curitiba, ativista da causa negra há mais de 30 anos.

Foi pelas mãos de homens e mulheres afros que se ergueram em Curitiba, por exemplo, os casarios e as antigas igrejas, as alvenarias de pedra, como as Ruínas de São Francisco, a própria Igreja da Ordem e a Casa Romário Martins – além da Igreja do Rosário dos Homens Pretos de São Benedito (1737), demolida nos anos 1930, para dar lugar ao templo atual. “Essa igreja, que foi destruída, era usada pelos afro-brasileiros e foi construída no tempo da escravização. Para haver uma igreja para escravos a população afro deveria ser muito grande na capital do estado”, ressalta Candiero, que também é autor do livro “Oralidades afroparanaenses: fragmentos da presença negra na História do Paraná”.

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Liberdades compradas

Quando o escravo Eleuthério foi arrolado como um bem a ser transmitido aos herdeiros, ele logo procurou alguma forma de se tornar livre. Ingressou com uma ação pedindo liberdade, que foi concedida pelo judiciário paranaense. Não sem antes passar por uma situação vexatória.

O artigo 4.º da Lei de 28 de setembro de 1.871, conhecida como Lei do Ventre Livre, dava permissão para que os escravos formassem pecúlios com autorização do senhor, podendo comprar sua alforria. O escravizado também poderia juntar dinheiro por meio de doações, legados e heranças.

No entanto, caso a indenização não fosse fixada por acordo entre as partes, o valor seria por arbitramento, o que incluía uma avaliação perante o júri da época. Ou seja, o cidadão negro que quisesse ser livre, teria que comprar sua liberdade e ainda era avaliado por outras pessoas que lhe diriam quanto ele custava.

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Em 1876, por exemplo, somente 16 escravos no Paraná foram alforriados. O historiador Romário Martins relata que em 1884 havia cerca de 6,7 mil escravos distribuídos em pelo menos 24 localidades do Paraná. Outra brecha na mesma Lei do Ventre Livre estava em seu artigo terceiro. A legislação determinava que anualmente seriam libertados em cada Província do Brasil Imperial “tantos escravos quantos corresponderem à quota anualmente disponível do fundo destinado para a emancipação”.

O fundo era composto, entre outros, de impostos sobre transmissão de propriedade dos escravos, das multas governamentais, das cotas que deveriam ser estabelecidas pelo orçamento das províncias e municípios e de doações destinadas à libertação dos escravos. Porém, a lei foi praticamente inócua.

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A historiadora Altiva Pilatti Balhana escreve que alguns municípios tinham que esperar acumular duas ou até mais cotas para conseguir fundos e liberar os escravos. As cotas, porém, eram exíguas, incapazes de reduzir significativamente o volume de negros escravizados. Sem falar da morosidade dos trabalhos e até de fraudes nos processos. Balhana revela que apenas 214 foram libertados por esse fundo, o que, nas palavras dela, era um reflexo das ações daqueles que queriam protelar o fim do regime escravo.

Sem falar que, mesmo após libertas, as pessoas negras não tinham políticas públicas que as auxiliassem a reconstruir suas vidas. Muitas padeciam na miséria, não raramente passando necessidades para sobreviver.

 

LEGENDAS

 

  • Na imagem de abertura a lavagem com água e perfume das escadarias da Igreja Rosário dos Pretos é um dos pontos altos da Festa do Rosário e foi inspirada na limpeza da Igreja do Bonfim (Salvador). O evento se tornou uma das mais fortes manifestações no Sul do País em defesa da igualdade racial. O ato também resgata a história do negro na construção de Curitiba
  • Na primeira sequência de encartes: Na época da escravidão, era comum os jornais estamparem anúncios de compra e venda de escravos
  • Na segunda sequência de encartes: Informes publicados nos jornais anunciando atividades das associações abolicionistas e sobre as alforrias dos escravos
  • Na última imagem: Trabalhadores em frente à Sociedade Beneficente Protetora dos Operários em 1917, durante a greve geral que aconteceu naquele ano

 

Escravos na Guerra do Paraguai e a campanha abolicionista

A luta contra a escravidão tomou fôlego no Paraná devido à Guerra do Paraguai (1864-1870). Muitos escravos chegaram a ser alforriados pelos seus patrões para que fossem incluídos no rol dos “voluntários da pátria”. A maioria nunca mais regressou ao Paraná. O fato provocou a revolta em parte da população e o crescimento do movimento abolicionista no estado.

Surgiram sociedades emancipadoras, como a Sociedade Emancipadora Paranaense, a Sociedade Libertadora do Paraná e o Clube Abolicionista do Paraná. Já nos anos 1880, cidades como Lapa, Palmas, Campo Largo e Paranaguá também conheceram sociedades emancipadoras.

Na frente da antiga Igreja Matriz de Curitiba, os voluntários da pátria da Guerra do Paraguai eram recepcionados. Muitos escravos morreram na mais sangrenta guerra que assolou a América do Sul

Na frente da antiga Igreja Matriz de Curitiba, os voluntários da pátria da Guerra do Paraguai eram recepcionados. Muitos escravos morreram na mais sangrenta guerra que assolou a América do Sul

Duas sociedades ficaram bem famosas no final de 1880: a Sociedade de Redenção Paranaguense, que chegava a comprar escravos para depois os libertar, e, em Curitiba, a Sociedade Ultimatum, que facilitava a fuga dos escravos para outras localidades, como Uruguai e Ceará, cuja província conseguiu abolir a escravidão quatro anos antes da Lei Áurea.

Pessoas ilustres na época, como José Cleto da Silva, promoviam gratuitamente ações judiciais para livrar os escravos. Alvaro Alvarez escreve que em Paranaguá foram conseguidas 74 cartas de liberdade.

A Princesa Isabel assinou a Lei Áurea em 13 de maio de 1888 – 18 anos depois do fim da Guerra do Paraguai.

 

 

 

 

 

 

 

Legado cultural africano na terra dos pinheiros

Curitiba é o berço do primeiro caricaturista brasileiro. João Pedro, o “Mulato”, era um negro que satirizava a vida colonial nas províncias do Paraná e Santa Catarina. O pesquisador Newton Carneiro descobriu em Lisboa oito aquarelas do humilde curitibano, pintadas entre 1807 e 1819. Morou também em Paranaguá e em Florianópolis. Muito além do processo de escravização que os negros sofreram, a história dos afro-brasileiros está na arte, na arquitetura, na cultura e no ensino. O “Mulato” é, portanto, só um dos tantos afros que deixaram suas marcas e seu legado Paraná afora.

Foi um homem negro também um dos primeiros trovadores paranaenses. Chamado de Bento Cego, ele nasceu em Antonina por volta de 1821. Cego de nascimento, andava pelas ruas da cidade, acompanhando de uma viola, cantando seus poemas.

O mestre construtor Vicente Moreira de Freitas era escravo e, enquanto construía a Catedral de Curitiba, conseguiu sua liberdade

O mestre construtor Vicente Moreira de Freitas era escravo e, enquanto construía a Catedral de Curitiba, conseguiu sua liberdade

O mestre construtor Vicente Moreira de Freitas era escravo e, enquanto construía a Catedral de Curitiba, conseguiu a liberdade em 1884, após 27 anos de escravidão. Vicente ainda foi o responsável por, junto com outros afro-brasileiros, fundar o Clube Beneficente Treze de Maio, em julho de 1888. Há ainda Enedina Alves Marques, a primeira engenheira negra do Brasil, e Maria Nicolas, que foi professora e escritora, com mais de 30 livros escritos.

Os irmãos André e Antônio Rebouças também deixaram marcas importantes no desenvolvimento da cidade e do estado. Participaram do projeto da ferrovia Curitiba-Paranaguá. Em 1871, os irmãos André e Antonio Rebouças instalaram a primeira indústria a vapor do Estado. Nesse mesmo ano, eles fizeram a primeira canalização de água potável na capital. Foram comprados canos de cobre no Rio de Janeiro e Antonio sistematizou a canalização até o Largo da Ponte – hoje Praça Zacarias – através de 21 tubos de cobre soldados uns aos outros. O chafariz dos Rebouças, depois de desativado no começo do século 20 com a captação de água nos mananciais da Serra e com o reservatório no Alto do São Francisco, foi para o Museu Paranaense e posteriormente voltou à Praça Zacarias, onde está até hoje.

Não há ainda como mensurar o aspecto cultural disseminado pelo estado, seja pela capoeira, pelo samba, pela gastronomia, pelas congadas ou pelas religiões de matrizes africanas, como umbanda e candomblé. Só em Curitiba há dois mil terreiros. Difícil imaginar que em 1829 os batuques, comuns tanto no samba quanto nas atividades religiosas, chegaram a ser proibidos pela Câmara Municipal da capital.

Imigração pós o período da escravidão

Durante os séculos 20 e 21, imigrantes africanos, na maior parte estudantes e refugiados políticos e econômicos, chegam ao Paraná. A maioria é oriunda do Congo, Angola, Guiné Equatorial, Guiné Bissau, Cabo Verde, Moçambique, Senegal e Gana.

Isso porque o continente africano sofreu inúmeras guerras civis que assolaram a população local, levando miséria, fome, destruição e genocídios contra grupos étnicos minoritários.

O Brasil foi um dos destinos de parte dessas pessoas. A imigração de populações africanas teve um aumento significativo a partir dos anos 2000, saltando de 1.054 para 31.866 – vindos de 48 países da África.

 

Linha Preta alerta para a cultura afro na capital

A Linha Preta é um roteiro turístico com os principais pontos históricos da população negra em Curitiba. O projeto da Linha Preta foi concebido durante o II Congresso de Pesquisadores/as Negros/as da Região Sul, organizado pelo Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros da Universidade Federal do Paraná. Confira cinco locais por onde a ‘Linha’ passa:

1   Ruínas de São Francisco: Há relatos de que se trata da construção de uma igreja em homenagem a São Francisco de Paula, iniciada por um grupo de devotos portugueses no começo do século. É inegável a participação de trabalhadores negros na construção desse edifício que exigia mão de obra especializada em taipa de pedra, arquitetura vernacular africana.

Inicialmente era chamada de Igreja do Rosário dos Pretos de São Benedito e foi patrocinada, projetada e construída por pessoas negras em 1737

Inicialmente era chamada de Igreja do Rosário dos Pretos de São Benedito e foi patrocinada, projetada e construída por pessoas negras em 1737

2  Igreja do Rosário: Inicialmente era chamada de Igreja do Rosário dos Pretos de São Benedito e foi patrocinada, projetada e construída por pessoas negras em 1737. Em 1931 a antiga igreja foi demolida, dando lugar à igreja atual, inaugurada em 1946.

3  Praça Tiradentes: A Praça Tiradentes passou por um processo de ressignificação nos últimos anos pela comunidade negra de Curitiba, especialmente por pessoas ligadas aos movimentos sociais de negras e negros e por praticantes da umbanda e do candomblé. Há na Praça Tiradentes um conjunto de gameleiras sagradas. A gameleira é moradia de Iroco, um raro orixá de origem Iorubá. Iroco também é moradia de espíritos infantis e está associado à longevidade, já que a gameleira vive por mais de 200 anos.

4  Arcadas do Pelourinho: O Pelourinho da Vila Nossa Senhora da Luz dos Pinhais, localizado ao lado do Paço da Liberdade, foi levantado em 4 de novembro de 1668. O pelourinho marcava a fundação de uma vila e também um espaço onde pessoas escravizadas eram castigadas.

5  Sociedade Beneficente Treze de Maio: O Clube Beneficente Treze de Maio foi fundado em julho de 1888 e ficava numa região conhecida como Boulevard São Francisco, onde vivia um grande número de pessoas negras. O clube ajudava os mais necessitados, comprava material escolar para as pessoas pobres e providenciava enterros dignos a quem não tinha condições.

Confira mais sobre a Linha Preta no site:

https://linhapretacuritiba.wixsite.com/linha-preta

Quilombos marcam resistência negra no estado

Há um total de 38 comunidades quilombolas espalhadas pelo Paraná, segundo o Museu Paranaense. São essas localidades que servem de moradia para parte dos descendentes de escravos no estado. Estão situadas nas cidades de Adrianópolis, Bocaiúva do Sul, Campo Largo, Candói, Castro, Curiúva, Doutor Ulysses, Guaíra, Guarapuava, Guaraqueçaba, Ivaí, Lapa, Palmas, Ponta Grossa, São Miguel do Iguaçu, Turvo e Arapoti.

Algumas cidades possuem mais de uma comunidade, como é o caso de Ponta Grossa, que abrigam as comunidades de Sutil e Santa Cruz. Sutil, por exemplo, tem sua história, segundo o escritor e pesquisador Nelson Brito Rodrigues, ligada à Revolta dos Malês, em 1835, na Bahia, encabeçada por escravos da religião muçulmana. “Muitos fugiram pela mata litorânea. Chegaram a Minas Gerais, Espírito Santo, Rio de Janeiro e São Paulo. Sabe-se que chegaram ao Paraná, mais ou menos, em 1850”, conta. Esses escravos se encontraram com outros que já estavam na região dos Campos Gerais antes desta época.

Ao longo da travessia, passaram também pelas regiões onde hoje se situam as cidades de Londrina, Joaquim Távora, Maringá e Paranavaí. “Alguns remanescentes ficaram em Ponta Grossa e deram origem aos quilombos do povo Sutil”, conta Rodrigues. Hoje a religião predominante no local é o catolicismo, com devoção a São Sebastião.

A pesquisadora Miriam Hartung, que escreveu uma tese sobre a Colônia Sutil, relata que, em 1854, dona Maria Clara do Nascimento, proprietária da Fazenda Santa Cruz — uma propriedade destinada à criação e invernagem de gado vacum e muares —, transformou os escravos e ex-escravos que ali viviam em herdeiros da metade de suas terras e dos animais e instrumentos de trabalho da fazenda. “No testamento de Maria Clara, datado de 1854, também consta ter libertado, com ajuda do irmão Joaquim, falecido em 1850, um bom número de seus escravos”, aponta Miriam. Hoje o local doado integra a comunidade Sutil.

 

 

 

 

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