Rumo à morte, com o coração alegre e impaciente

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O Brasil de Brumadinho, do CT do Flamengo e do acidente com Boechat ignora o bom senso, as leis e as demonstrações empíricas, mas confia nos humores da sorte e do azar

 

A sequência de fatos é conhecida. A lama da Vale em Brumadinho fez quase duas centenas de mortes, um incêndio no CT do Flamengo tirou a vida de dez meninos atletas. Por fim, um acidente aéreo vitimou o jornalista Ricardo Boechat, em São Paulo. Uma sequência trágica, que, em pouco mais de duas semanas deste começo de 2019, fez o Brasil, por duas vezes, viver uma espiral própria de horror, na qual o luto era forçosamente interrompido pela desgraça e pela incredulidade. O roteiro terrível fez o brasileiro cogitar se o início de 2019 não seria de alguma forma amaldiçoado.

Diante dos infortúnios seguidos, a dúvida sobre uma possível responsabilidade dos astros nas nossas tragédias apareceu na coluna da economista Elena Landau, no Estado de São Paulo: “Confesso: eu não resisto a um mapa astral. No último que fiz, em outubro passado, as perspectivas não eram lá muito auspiciosas. O astrólogo emendou, ‘se serve de consolo, o mapa astral do Brasil está muito pior.’”

Apesar da provocação inicial, Elena chega à conclusão óbvia. Pode haver algo de imponderável a explicar a explosão de lama em Brumadinho, o curto-circuito no ar-condicionado do Flamengo e a pane no helicóptero de Boechat. Mas, é claro, não se trata de má sorte. Antes de Brumadinho, houve Mariana. O mesmo estado, o mesmo problema e os mesmos atores. Antes do CT do Flamengo, houve a boate Kiss. Mesmo no caso de Boeacht, onde o puro azar poderia fazer algum sentido, ficamos sabendo que a empresa dona do helicóptero não estava autorizada a fazer o serviço de táxi aéreo. Não se trata de acaso, trabalho de amarração ou aula de astrologia. As tragédias que se repetem, os 60 mil assassinatos por ano e a corrupção são todas obras nossas. São produtos da nossa engenharia de descaso, da nossa indiferença com a vida, da nossa violência, do nosso desdém moral.

Com as tragédias sofremos e choramos, mas elas pouco servem como aprendizado. É curioso, aliás, observar a reação geral a este tipo de desastre. Não nos falta solidariedade. Em questão de horas, por exemplo, havia doações de mantimentos e remédios mais do que necessários para os desabrigados de Brumadinho. Multidões choravam nos velórios dos jovens do Flamengo e dezenas de taxistas deixaram o trabalho de lado para prestar uma homenagem a Boechat em frente à sede da Bandeirantes.

O desafio se impõe quando nos é exigida uma análise racional dos fatos. A reação natural dos políticos, seguindo nossa longeva tradição cartorial, é pensar em mais alguma lei, mais alguma legislação. Leis, ao que parece, temos aos montes. Possivelmente existam fiscais de menos para aplicá-las. A falta de fiscalização é uma hipótese considerável para explicar algo da sucessão de tragédias. Ainda assim, arrisco dizer que nosso caso é mais de psicopatia do que de burocracia. Parece que sofremos de algum distúrbio coletivo que nos faz ignorar o bom senso, as leis, as demonstrações empíricas. É como um transe permanente que nos aproxima sempre da calamidade. Quando ele vem, choramos e olhamos aos céus, invocando a sorte ou o azar. Na nossa balança de Maquiavel, pendemos sempre para as explicações da “fortuna”.

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Jogo da sorte

Nas tragédias que se sucederam neste início de ano, diante de estudos de impactos mentirosos, licenças vencidas, multas engavetadas e jeitinhos indecorosos, tratamos tudo como sorte ou má sorte. Repare, leitor, que parte da imprensa tratou o Flamengo como vítima, quando se sabia que o clube acumulava 31 multas e ignorou um pedido de interdição emitido pela prefeitura do Rio de Janeiro. Repare no presidente da Vale, Fabio Schvartsman, que diante das câmeras disse que sua empresa era uma “joia” e que “não podia ser condenada” pelo rompimento da barragem. A lógica que permeia os raciocínios é que tudo se tratou de fatalidade. Essas coisas, afinal de contas, acontecem num dia ruim.

Tomo emprestada aqui a alegoria de Elena Landau e a levo ao encontro da literatura de Machado de Assis. O brasileiro é Camilo, do conto “A Cartomante”. Envolvido em um caso com a esposa do melhor amigo, o “ragazzo innamorato” (menino apaixonado) busca conselhos na sortista. Quer saber se o marido traído tem consciência da sua condição. Apesar de todas as evidências apontarem no sentido contrário, Camilo aceita a previsão da cartomante, que o tranquiliza. As cartas haviam mostrado que o terceiro não sabia de nada. Camilo deixa a consulta astrológica “com o coração alegre e impaciente” para encontrar o amigo. Termina assassinado com dois tiros ao lado da amante.

O Brasil é Camilo. A soma de nossos erros e de nossas maquinações é visível, mas isso não nos aflige. Fomos, por anos seguidos, o país da população mais otimista do mundo, segundo pesquisas internacionais. Recentemente perdemos o primeiro lugar para o distante Uzbequistão, mas, entre todos os povos do mundo, somos o segundo que mais confia no futuro. Como o menino apaixonado de Machado, seguimos com o coração alegre e impaciente. Ainda que rumo à morte.

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