As coisas simples

Escolho “Preparativos”, que está nas páginas finais do livro “As Coisas Simples”, surpresa poética mais recente de Fábio Campana, para iniciar breve deambular pela alma do vate, seus sonhos, suas mágoas, suas dores, e as realidades que acentuam sua saudade do porvir – que não chega nunca.
No seu horizonte, parece haver negras nuvens e apenas uma “tarde suspensa ao ombro”, como quer o Garcia Lorca.
É um futuro que não paga respeito a gritos d’alma nem respeita caminhos percorridos pelas diuturnas paixões , correspondidas ou não. Isso é o que o poeta vai descrevendo sem pudores pelo espírito que se despe, pelos brados por vezes de criança, como aquele que diz aba, clamando por socorro.
As primeiras linhas do poema bradam numa oração direta: “Espero morrer com dignidade, despido de ruído, sem a sombra dos teus gritos. Altivo, horizontal, ereto”.
A esperança-desesperança borda-se e transborda no livro todo, na continuidade desse baú de surpresos, no qual o vate, sabidamente uma fortaleza – imbatível desafiador do entorno -, expõe-se num longo, amplo e irrecusável confiteor.
Nessa confissão vive a dualidade daquela fortaleza das almas feridas por flechas nada alegóricas, parceiras de noites e leitos vazios.
Soluços que não mais se escondem. Não me assusto: sinto que o poeta não está morrendo de fraqueza. Apenas briga com uma realidade onipotente, domadora de destinos e implacável para com o mundo dos sonhos, num maktub que expede sentenças de morte a quem ousa ainda viver como cavaleiro do Medievo, ao redor da
princesa prometida e inacessível.
Nessas apostas, a vida material importa menos, há uma promessa de Paraíso logo mais adiante, é o que ele insiste em sublinhar em metáforas que expele com odor de paixões.
O cavaleiro quer se manter intacto, fiel a seus votos, mesmo que isso inclua a visita do Anjo da Morte. Só não aceita romper o pacto de amor um dia firmado. Ad vitam aeternam.
.Não exagero, os gritos do poeta, com seus decibéis altissonantes e pungentes, se parecem com aqueles de Agostinho em suas Confissões.
É isso mesmo, o pranto, os arrependimentos, os propósitos, os tempos de uma bonança nunca bem decodificada, e passageira, estão em Coisas Simples.
Nas comparações com o confiteor do bispo de Hipona não há arrependimento pelo amor escolhido, pela mulher que dá consciência a um perfume indivisível.
Como o filósofo, o vate não se esconde. Só que seu Deus tem a configuração de uma deusa que foi, ao poucos, se apresentando e convertendo estradas e garantindo eternidades que agora somem.
O poeta não se esconde nem esconde um niilismo que o acompanha – “noite é minha pátria”. Choca-se com a claridade, diz. É o choque da passagem da divindade mulher a açoitá-lo. Com promessas que não se cumprem, e para quem só resta – é o que deduzo – espreitar “a mulher nua sob uma luz pálida”.

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