Os jovens frequentadores das minúsculas salas de cinema hoje não fazem ideia do que eram as grandes salas com perto de 2000 lugares em sua maioria. Em filmes de ação, vaiava-se o bandido, aplaudia-se o herói e o beijo final na namoradinha era saudado com tremendo assobio. Nas matinês lotadas de crianças, elas batiam os pés na perseguição. Nas comédias, imagine-se gargalhando com outros mais de mil espectadores, era irresistível e contagiante. Ou ouvindo o soluçar nos dramalhões e os olhos vermelhos na saída com os lencinhos ensopados. Foram substituídos hoje pelos eternos conversadores com seus chatíssimos comentários mesmo que murmurados e seus telefones que, mesmo mudos, incomodam com as luzes da telinha.

Mas das antigas plateias ficaram gravadas muitas lembranças curitibanas, como o homem da gaitinha. Jamais identificado, por anos interveio em cenas de beijos ou situações amorosas, fazendo soar uma daquelas harmônicas de múltiplos registros e agradável som. Escondida, não se sabe como, utilizada no momento exato, provocava risos. Um dia sumiu, lembrado porém com saudades por alguns espectadores que esperavam os acordes ao beijo.

Cine Lido com plateia, dois balcões e 1400 lugares

No lendário Cine Curitiba, filme de vampiro era um terror das plateias de então. Castelo, lua cheia, raios, meia-noite, janela aberta, linda jovem dormia em seu dossel. Qual morcego, Drácula avançava quarto adentro, com olhos esbugalhados, e a plateia permanecia em sepulcral silêncio. A jovem acordava, e a voz do vampiro: “Vou chupar teu sangue!” Gaiato na nem tão seleta assistência: “Passa aí pelo dia vinte!” Gargalhadas aliviavam a tensão.

América Cine, na época do cinema mudo, era um barracão que ficava onde hoje é o Banco do Brasil, entre a Tiradentes e a Muricy. Em madeira, coberto de zinco, este “cinematógrafo” mantinha duas classes de acomodações, separadas por uma cerca de madeira no sentido longitudinal: de um lado, setor nobre, cadeiras de palha. De outro lado e com preço menor, bancos de madeira com quatro metros de comprimento soltos no piso. Plateia lotada, eles, os últimos, começavam o jogo de balanço. Assim o último banco balançava para frente e para trás, sempre com mais força, fazendo-o tombar para cima do seguinte, e daí sucessivamente, os bancos caindo até o último. Canelas escoriadas, outros danos e perdas e, no fim, uma diversão lá para eles.

No Cine Lido, em 1970, lotações se esgotavam em sucessivas sessões de “Romeu e Julieta” (Romeo and Juliet, 1968), filme de extraordinária criatividade visual com os adolescentes Leonard Whiting e Olivia Hussey, Michael York, sob direção de Franco Zeffirelli e distribuição Paramount. Sábado, sessão das 14 horas, o bando de meninas nos seus 11 a 15 anos comprou os ingressos e se acomodou na plateia central. Já nas primeiras cenas do filme, houve grande alarido. O gerente Zito foi alertado, rogou pedir silêncio e a baderna cessou. Mas à cena de nudez do Romeu, logo o alarido voltou e com maior intensidade. Interrompido o filme, luzes se acenderam, o grupo foi expulso e o gerente, aplaudido. Na sala de espera, a ruivinha protestou: “O sr. não pode me expulsar, sou a filha do prefeito ouviu?” A reação do Zito foi rápida: “Telefone pro papai e logo” (o que foi feito). O pai pediu para falar com o gerente e a ruivinha ouviu do outro lado: “O senhor fez muito bem!” Acertos celebrados, voltaram todas aos seus lugares, e lá na tela Romeu fazia suas juras na cena do balcão. Tragédia consumada, término do filme, lenços enxugaram as lágrimas.

Cine Lido, parte da enorme tela, proporcional ao tamanho da sala

Cine Plaza, longas filas em frente às bilheterias, um trio de rapazes: um com a perna engessada, gemendo, vinha pelo pátio de entrada do cinema em total desequilíbrio, amparado pelos dois companheiros. Perto da bilheteria, pediram para falar com o gerente, pois não poderiam enfrentar a longa fila amparando o engessado. O Jairo Santos, simpático gerente, ouviu: “Tio, a gente não podia levar o moço daqui até a poltrona da sala de espera e um de nós vai para a fila comprar os três ingressos? O amigo aqui está com a perna quebrada, com dor, cheia de gesso”. O Jairo claro que concordou e voltou a seus afazeres, mil coisas a atender, troco da bilheteira, espectador reclamando que não havia mais lugares paralelos para a família, milho para a máquina de pipoca. Que fim levou o moço da perna engessada? Os amigos compraram os ingressos? Ninguém sabia responder. Rápida vista da plateia lotada, eles não foram localizados. O porteiro aventou: “Na saída, pegamos os três, pois o engessado é fácil de localizar”. Apesar dos muitos olhos, ninguém viu os moços, com ou sem gesso. Outra sessão, outros afazeres, o caso foi esquecido. Na segunda-feira, a zeladora trouxe ao Jairo as duas metades que, juntas, formavam uma perna humana. Valeram gargalhadas.

As pessoas iam ao cinema como que cumprindo um ritual. O senador Rui Barbosa era fanático por cinema. Na rua da Carioca, Rio de Janeiro, o Cine Ideal era o refúgio quase diário do “Águia de Haia”, sempre na mesma poltrona, o que também acontecia muito frequentemente em outras cidades: espectadores que sempre se sentavam nos mesmos lugares. Falecido, a empresa bloqueou seu uso com correntes, que assim permaneceram até a demolição do cinema. Em São José dos Pinhais, havia outro Cine Ideal. Modesto, o velho cinema também tinha um assíduo frequentador, viúvo, de idade avançada, mas um adorador das telas, também sempre à mesma poltrona. Certa noite, depois do início da sessão, lembrou alguém não ter visto o Nôno, como era conhecido. Preocupado, o exibidor Daniel Prescona, ao final, foi direto à residência do seu freguês. Seguiu pela velha estrada de Joinville, chegou a casa e, ao entrar, teve o choque: na sala de visitas, o Nôno jazia inerte num caixão funerário.

Enfim, como dizia o slogan nos cinemas de Luiz Severiano Ribeiro, o maior exibidor brasileiro, “Cinema é a maior diversão”. Era.

 

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