Coletando constelações

A missão do biógrafo lembra, em sua densa maioria, algo próximo de atento coletor de pepitas. Age num percurso de inúmeras fases de coleta. São etapas de intensas buscas, peneiragens, garimpos, trabalhosas investigações documentais, depoimentos, além de saber ordenar, hierarquizar indícios seguros de vestígios falsos. Em se tratando de Ruy Castro, estamos nomeando, salvo engano, o mais renomado representante do gênero biografia.

Mas quero, vivamente, ressaltar seu lado de vigilância do agora, em fase recente na página dois de famoso matutino. Sua maestria reside em aliar o fato da agoridade com o viço do outrora. Por força de sua exímia “falcoaria” ante fatos, casos, personagens, eis que sua coluna exibe um perfeito e saboroso espelhamento entre passado e presente. Embora mineiro de Caratinga (MG), Ruy Castro ostenta certo estilo de cronista que, pelos ombros do Redentor, lá de cima, observa o Brasil, de forma contumaz, com imbatível lente de um setor carioca de ver as coisas.

Cabe registrar, de maneira categórica, sua forma monumental de levantamento em razão de dois de seus colossais empreendimentos, em face dos dois biografados: Mané Garrincha e, anteriormente, Nelson Rodrigues. Sem falarmos na publicação de “Chega de Saudade”, material espantoso sobre a história da Bossa Nova.

Mas torna-se indesculpável não lembrar de uma saborosíssima publicação chamada “O Melhor do Mau Humor”, primorosa antologia de citações venenosas. Separo, dentre as 1427, aquelas que considero verdadeiras pepitas mais cintilantes, entre muitas de quilates deliciosos.

IGREJA – Uma igreja é um lugar onde senhores que nunca estiveram no Céu dizem maravilhas a respeito dele para pessoas que nunca irão para lá. (H. L. Mencken)

SEXO – Quando comecei a escrever, tentei vender a história de minha vida sexual para uma editora. Eles a compraram e a transformaram num joguinho de armar para crianças. (Woody Allen)

TRANSPORTES – Avião: é mais pesado do que o ar, tem motor a explosão e foi inventado por um brasileiro. Não pode funcionar. (Vinicius de Moraes)

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