Como descobri o Paraná

Fernando Sabino nasceu em 1923, em Belo Horizonte. Foi jornalista, escritor e cineasta. Iniciou-se na escrita muito cedo e com 18 anos publicou seu primeiro livro de contos: “Os grilos não cantam mais”. Sabino se aventurou em romances, contos e crônicas. Seus livros “O encontro marcado”, “O homem nu” e “O grande mentecapto” são destaques de sua obra. Mas o leitor pode estar seguro em tomar às mãos qualquer texto de Sabino e se deliciar com seu estilo inconfundível em que o bom humor e a leveza compõem uma das obras mais importantes da literatura brasileira.

Foi em 1954 que resolvi descobrir o Estado do Paraná. Há quantos anos! Desconfio que eu já era, quando jovem, tão irresponsável quanto nos dias de hoje.

Como um Saint-Hilaire dos pobres, disposto a desbravar o território paranaense, subi o Rio Paraná, de Iguaçu a Porto Britânia (ainda existe?). Naquele tempo, de porto só tinha o nome. Uma ribanceira imensa, dois casebres, um princípio de estrada.

Vinte e quatro horas naquela barcaça imunda – não sei como sobrevivi. E tripulada por embarcadiços encardidos, de nacionalidade duvidosa, caras barbadas e melosas de suor. Por via das dúvidas, dormi no convés com um olho fechado e outro aberto – não fossem aqueles caras que me estranhar durante a noite.

Barbado eu próprio, sujo, estropiado, sofrendo de insolação e de escorbuto, pela manhã, quando a catraia aportou, saltei do tombadilho para a terra como Simbad o marujo e me esborrachei na margem do rio como marinheiro Popeye.

Lá em cima na ribanceira, um grupo de índios esperava, solene, que iniciasse a celebração da Primeira Missa. Subi até eles. Não eram índios: era a comissão de recepção, comandada pelo Egon, ilustre madeireiro da região que em Curitiba me metera na cabeça partir para a descoberta do Paraná. E lá fui eu em busca de Toledo, a cidade do futuro.

Seguimos debaixo de chuva numa caminhonete, aos solavancos, por uma estrada que a Companhia de Mineração tinha a intenção de abrir: por enquanto era de uma só pista e toda vez que apontava lá na frente um caminhão, éramos obrigados a recuar até o ponto de partida.

— Do meio para lá quem recua são eles – tranquilizou-me Egon.

Ao chegarmos, parecia que as próprias cataratas do Iguaçu se desempenhavam sobre nós. Mas uma surpresa me esperava: um hotel – modesto, todo de madeira, mas era um hotel, não havia dúvida – limpo e até confortável àquela altura dos acontecimentos. A rua era de terra vermelha batida e as calçadas de madeira, como aquela que John Wayne pisou firme, espingarda atravessada no peito, antes de matar o facínora Jack Palance.

Logo me vi rodeado de gente: eram rapazes que saltavam dos jipes, resolutos, revólver na cintura, e vinham alegremente ao nosso encontro. Um saíra direto das areias do Arpoador, no Rio, onde fazia surfe, para ajudar a fundar Toledo. Outro era alemão, servira durante a guerra no Afrikakorps de Rommel e acabou colono no Paraná.

Ou começou – estavam todos começando. Eram moços de vinte e poucos anos, sadios, fortes, bem-dispostos, que trocaram a vida de facilidade das grandes cidades pela disposição de comer do que plantaram. Eram vereadores do novo município, discutiam com entusiasmo os seus problemas como no Rio ou em São Paulo discutiriam o futebol. Haviam composto logo uma família, desdobrando-se em filhos, e pensavam na colheita do ano seguinte, aprendiam e ensinavam agronomia e veterinária aos demais colonos. E iam construindo seus bangalôs de madeira, em cores alegres, de um bom gosto que fazia lembrar lugarejos da Holanda ou da Suíça.

Mas o que importava para eles era a nova usina, que lhes proporcionaria, além de luz elétrica, energia para novas fábricas de beneficiamento de madeira. Era uma invejável comunidade que surgia, uma frente de trabalho com projetos, sonhos, aventura, coragem, desprendimento, esperança. Eis que se revelava ali o melhor colono de nossa pátria, filho de alemães, italianos, eslavos, fazendo nascer vertiginosamente uma cidade moderna: quinhentos quilômetros de estrada, assistência médica, comida sadia e abundante para uma nova geração de brasileiros. Eram capazes de tudo: haja vista o aeroporto aberto no descampado por eles próprios em uma semana, para que os aviões de carreira ali fizessem escala.

Embarquei num deles, um velho DC3, em meio a colonos, bicicletas e jacás de galinha, de volta a Curitiba. Curitiba, que mais tarde impressionaria como a cidade mais civilizada do Brasil. O mesmo se poderia dizer hoje do Paraná: ágil, moderno, fundando um novo e invejável perfil civilizatório.

Agora é esperar que os demais sigam o seu exemplo.

Ainda há tempo de reinventar o Brasil.

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