Como será o amanhã?

Responda quem puder!

A ansiedade sobre o futuro faz parte das imperfeições de nossa composição humana. É estranhíssimo que, mesmo sabendo que o período por aqui é breve, que a única certeza é a morte, que o tempo de um dia é o mesmo que o de estalar de dedos, que tudo que temos é o presente real – não esse em que escrevo, mas esse em que você lê; meu tempo de escrita já era, já virou um momento que nunca, jamais terei de novo, e isso, a cada nova letra que batuco no texto – como eu estava a falar, é estranhíssimo que apesar de tudo isso o futuro ainda nos consuma em preocupações que sabe-se lá se são reais ou se apenas são curiosidades preventivas.

De qualquer forma, o assunto proporciona que um mercado imenso venha se desenvolvendo desde que o homem perdeu a condição de fera para conhecer a dor e a delícia da consciência.

Da previdência privada à consulta de cartomante, há negócios de todo tipo, quase todos respeitando os mandamentos da sociedade ocidental capitalista. Não critico, tô nessa também e confesso que, se o baralho, as pedras, os meteorologistas, os búzios, os economistas me convencessem de alguma coisa, deixaria uma grana por esses corredores.

Talvez neste quesito o único lugar em que coloco alguma fé seja na palavra dos poetas, esses seres que não pertencem ao tempo em que vivem e nem por isso se importam; que nos adivinham e nos traduzem; que tratam de berrar nossas angústias como se fossem deles. Ah!, os poetas!, esses indispensáveis seres que, dia e noite, cantam a história da humanidade sem pensar que, mesmo que o presente os castigue, está no futuro a glória de serem os narradores de todos os tempos. Duvida? Olhe o tipo de Fernando Pessoa vestido de Ricardo Reis: “Não queiras, Lídia, edificar no espaço / Que figuras futuro, ou prometer-te / Amanhã. Cumpre-te hoje, não esperando. / Tu mesma és tua vida. // Não te destines, que não és futura. / Quem sabe se, entre a taça que esvazias, / E ela de novo enchida, não te a sorte / Interpõe o abismo?”. 

Isto posto, vou tratar do assunto nos versos da MPB. E já de cara paro no lugar mais óbvio: “O amanhã”, composição de Gustavo Adolfo de Carvalho Baeta Neves. Antes de citar a música, uma curiosidade sobre Baeta Neves: ele era procurador da República no Rio de Janeiro e, quando o expediente acabava, afrouxava a gravata, esquecia dos tribunais e caía no samba. É dele também uma penca de outros grandes sambas, entre eles, “É hoje” (“Será que eu serei o dono dessa festa / Um rei, no meio de uma gente tão modesta / Eu vim descendo a serra / Cheio de euforia para desfilar / O mundo inteiro espera / Hoje é dia do riso chorar”).

“O amanhã” desfilou como tema da União da Ilha do Governador no carnaval de 1979; quatro anos depois, Simone gravou e de lá para cá todo mundo canta: “Como será o amanhã? / Responda quem puder / O que irá me acontecer / O meu destino será como Deus quiser”.

No final da década de 1970, Ivan Lins e Victor Martins estavam, como muitos, com a ditatura militar até o pescoço. Depois de uma série de eventos violentos, violentíssimos, começavam a se desenhar os primeiros momentos de uma possível redemocratização. A dupla, motivada por isso e pela vontade de que o jogo mudasse, escreveu “Cartomante”: “Já está escrito, já está previsto / Por todas as videntes, pelas cartomantes / Tá tudo nas cartas, em todas as estrelas / No jogo dos búzios e nas profecias / Cai o rei de Espadas / Cai o rei de Ouros / Cai o rei de Paus / Cai, não fica nada”.

Num tom infantil, mas que caminha para aquele lado preservado em quase todo adulto, a canção “Aquarela” começou como “Acquarello”, uma parceria arranjada entre Toquinho e o italiano Maurizio Fabrizio, que ganhou letra de um outro italiano, Guido Morra. Depois do sucesso na Europa, veio para o Brasil. Toquinho bem que tentou traduzir, mas chamou o mestre, e Vinícius de Moraes tratou de dizer daquele jeito dele as maravilhas que estão na letra, tratando, inclusive, sobre temas pouco usuais no repertório infantil, para onde a música caminhou, como as incertezas, a morte, os mistérios da condição humana: “Um menino caminha e caminhando chega num muro / E ali logo em frente a esperar pela gente o futuro está / E o futuro é uma astronave / Que tentamos pilotar / Não tem tempo nem piedade / Nem tem hora de chegar / Sem pedir licença muda nossa vida / E depois convida a rir ou chorar / Nessa estrada não nos cabe / Conhecer ou ver o que virá / O fim dela ninguém sabe / Bem ao certo onde vai dar / Vamos todos numa linda passarela / De uma aquarela que um dia enfim / Descolorirá”.

E Cazuza, hein? Melhor nem tentar querer explicar, as palavras são flechas que correm muito certeiras: “Eu vejo o futuro repetir o passado / Eu vejo um museu de grandes novidades / O tempo não para”.

Nessa viagem sobre como a MPB se refere ao porvir, encontrei várias páginas que tratam do tema. Quase sempre de um jeito angustiante, quase sempre repetindo a vontade de saber e a conclusão de que é impossível. O sofrimento sobre o incerto é ao mesmo tempo combustível e gás paralisante – uma espécie de mola meio defeituosa que impulsiona, mas não solta.

Sobre os temores do que o futuro reserva, encontrei nas palavras de Mia Couto a melhor explicação: “na vida há mais medos que perigos”, mas quanto ao que quero para mim na hora H quando a bomba estourar, fecho com Rita Lee, quero tomar banho de sol: “Se Deus quiser / Um dia acabo voando / Tão banal assim como um pardal / Meio de contrabando / Desviar do estilingue / Deixar que me xingue”.

Por aqui me despeço, dessa vez sem fazer convite para a próxima edição, porque sabe-se lá o que vai acontecer no próximo mês…

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