João Urban: O contador de histórias

De volta a Curitiba, depois de uma estada de cinco anos entre Olinda e Recife, o fotógrafo João Urban recebeu a Ideias em seu apartamento no coração da cidade, próximo ao Passeio Público, lugar de inspiração para seu último livro de fotografias.

Agora, em sua volta, Urban traz na bagagem não apenas imagens, mas uma novela, como gosta de chamar seu romance Benedito Rosário, que acaba de ser publicado pela editora carioca Confraria do Vento, com lançamento previsto para maio em Curitiba.

O livro, escrito ao modo das narrativas de viagens, é a estreia de Urban como escritor e surpreende pela intimidade com que lida com a escrita, demonstrando experiência no ofício de contador de histórias.

A narrativa se passa em um ônibus que o personagem Benedito conduz em viagens entre Curitiba e Campinas, e em que Urban, insone e em crises de pânico, é aquele passageiro que, encostado à porta do veículo, foge da poltrona para passar a viagem proseando com o motorista.

A tradição do contador de histórias aí se amplifica naquilo que Paul Zumthor define na oralidade como o ato da comunicação enquanto performance que requer corpo e presença de um intérprete e de um ouvinte, que existiam nas culturas antigas e foi sendo deixado de lado com o surgimento da escrita que formou o conjunto estético da linguagem que veio a ser a literatura.

Atualmente Urban trabalha em projetos de fotografia, como o extenso material que reuniu de imagens no Nordeste, principalmente de maracatus e cultura afro-brasileira. Mas também segue na escuta de histórias que o vento sopra nas filas de supermercados e bancos ou como um flâneur em suas caminhadas pelo centro da cidade. Não se considera um autor tardio, visto que teve por hábito a escrita e a leitura desde sempre. Leitor do Quixote, entre as muitas leituras afirma que a literatura inspirou sempre sua fotografia.

IDEIAS: Desde quando você escreve?

João Urban: Sempre gostei de escrever. No ginásio, o Irmão Jorge, do Colégio Santa Maria, professor de português, passou uma tarefa que era uma redação com tema livre. Eu era um pequeno entusiasta de ficção científica e escrevi sobre uma viagem espacial da qual eu participava, várias páginas do caderno. Fiquei ansioso, aguardando a nota que o professor daria para minha pequena obra literária. O religioso passou a dar as notas e, quando chegou minha vez, fez um comentário elogioso, mas na minha inocência não percebi a ironia. Pediu que eu levantasse e lesse para os alunos. Timidamente comecei a ler e logo começaram risos e risadinhas dos colegas. Propositadamente Jorge não havia marcado com vermelho meus erros de concordância, ortográficos, tempos de conjugação errados e outros vícios do falar dos imigrantes. Eu queria parar de ler, mas ele insistia que eu continuasse: “Tá muito bom… Continue, continue…” Os risos e as risadinhas se transformaram em risadas e gargalhadas…

Isso foi muito desestimulante. Meu pai, imigrante polaco, pagava com sacrifício aquele colégio caro… Passei a “matar” as aulas de português e, como não dava pra matar apenas a aula de português, matava as aulas do dia. Claro que reprovei, fui para o colégio estadual, mas o vício de cabular já estava consolidado e lá era possível matar as aulas na biblioteca, onde passava horas seguidas lendo Monteiro Lobato e outros autores. Aí fui aprendendo a escrever e tomando mais gosto pela coisa. Escrevi muito, mas guardei pouco do que escrevi.

Em sua novela, fica muito delineado o observador que recorta imagens e histórias escutadas. Isso é decorrente de sua experiência com a fotografia?

Acho que talvez a minha fotografia tenha até mais referência na escrita do que a escrita na fotografia, embora talvez até por um pouco de preguiça e acomodação eu tenha seguido o caminho da fotografia.

Você acredita que fotografar exige menos esforço que escrever?

Na verdade, a minha iniciação na fotografia foi quase um hobbie, matava aulas na escola para ficar também folheando revistas de fotografia na revistaria Ponto Chic, onde via os ensaios de grandes fotógrafos nas páginas dos anuários da Popular Photography. Eu fotografava meus passeios, minhas escaladas no Marumbi e no Anhangava e lá pelas tantas eu já estava engatinhando numa fotografia mais engajada, documentária. Fazia fotografia de passeatas durante a resistência da ditadura de direita apoiada pelos militares, fotografava o TEU (Teatro dos Estudantes Universitários), revelava meus filmes no estúdio do Santoro e do Kava, onde fervia fotografia. Acabei  montando uma câmara escura no sótão da casa de meus pais, e de repente me aparece o Fabio Campana (trabalhávamos juntos, fazendo serigrafias e outras barbaridades), trazendo um trabalho “grande”: painéis fotográficos para decorar o Centro Comercial Curitibano, um lugar, no antigo prédio do Clube Curitibano, onde havia restaurante, danceteria, boate e sei lá mais o quê. Pedi ao cliente um adiantamento para comprar um ampliador pra poder produzir os painéis. Meu pai fez os suportes de Eucatex. O Padrella ajudou a fazer umas fotomontagens, com reproduções que eu fazia de fotografias roubadas de revistas como a Popular Photography e outras (hoje eu seria processado). Foi uma correria. Quando tudo ficou pronto, o Flavio Luiz Teixeira, diretor de arte da Standard Propaganda, e o Paulinho, produtor, foram ao CCC jantar no restaurante, viram tudo aquilo e gostaram, perguntaram quem tinha sido o “artista” que fez… Enfim, me procuraram e eu caí de paraquedas no caldeirão da fotografia publicitária. Tudo foi acontecendo sem que eu precisasse me “esforçar”, era tudo prazeroso e fluía quase independentemente da minha vontade. No caso da escrita, eu teria que ter me imposto uma disciplina, certa obstinação, muito mais leitura, teria de me “esforçar”. A fotografia acontecia naturalmente.

Em seu livro, os personagens se confundem entre ficção e realidade; em seu processo criativo com a escrita, no caso de Benedito Rosário, isso acontece de que maneira?

Isso aconteceu espontaneamente, por pura necessidade. Havia o Benedito, no momento motorista do ônibus e que me contava a história do Benedito “jovem” e do Benedito “menino” e lá estava “eu” também, instigando o “velho” Benedito a revelar mais e mais a sua história. AÍ veio o dedinho da Jussara Salazar, que ajudou a descomplicar as soluções que eu havia usado para separar as vozes dos três, quase quatro personagens, cheias de aspas e itálicos.

Então Benedito realmente existiu?

Sim, o Benedito existiu, assim como o Pernambuco. Os dois principais personagens da novela.

Você escrevia no tempo das viagens mencionadas no livro ou isso veio depois?

Como disse anteriormente, eu sempre escrevi, desde garoto, assistemática e preguiçosamente. Tenho narrativas, ligadas à fotografia, outras ligadas ao bairro onde eu vivia. Cheguei a escrever o roteiro de um filme, mudei muitas vezes de casa, cuidei mais de meus negativos que de meus textos, mas a história do Benedito Rosário surgiu numa das dezenas de viagens que fiz a Campinas para visitar uma namorada. Fui muitas vezes de avião, pela Pantanal, num turbo-hélice que saía do Aeroporto do Bacacheri, era ótimo. Quando faltava dinheiro, ia de ônibus noturno, que eu detestava. Usava vários recursos para vencer os fantasmas da ansiedade durante a viagem, a última saída era ir conversar com o motorista. Foi numa dessas vezes que conheci o Benedito, o verdadeiro autor da minha história, que entre comentários sobre as curvas, as pontes e os buracos da estrada, foi desfiando uma longa narrativa. Fiquei muito impressionado, comecei a contar para os amigos e amigas, mas era muito longa, nunca conseguia terminar. Eram 6 horas de viagem com mais de 400 km. Ninguém aguentava, então comecei a escrever para não esquecer.

Como você se vê como escritor depois de ter o seu trabalho como fotógrafo reconhecido e respeitado?

Acho que minha fotografia deve muito à literatura, não a minha, mas à de Graciliano, Guimarães, Cervantes, Borges, Drummond, Cabral, Neruda, Lorca, Garcia Marques, Guillén, assim como à música, como ao cinema e até às histórias em quadrinhos.

Uma imagem vale por mil palavras?

Uma boa metáfora vale também por “mil palavras”.

Quais seus planos e projetos a partir desse livro? Você não pretende escrever sobre sua experiência e participação na resistência ao golpe e à ditadura de 64?

Não sou um fotógrafo “criativo” assim como não sou um escritor “criativo”. Sou muito atrelado ao que acontece em meu entorno, em minha cidade, em meu país. Quando me abraço a um “tema”, consigo eventualmente resvalar para a ficção, mesmo que seja pouco, mas acho que é inevitável tanto na fotografia como na literatura. Na fotografia, tenho alguns projetos que espero conseguir realizar; na literatura, eu preciso bater de frente com alguma história fantástica como a do Benedito, sem cuja participação eu nunca haveria escrito. Tenho muitas anotações da época da resistência, mas ainda não tenho uma ideia muito clara do que farei com elas.

Na família, a Teresa Urban sempre foi a escritora, mas você conta que começou a escrever histórias ligadas ao “Campo da Galícia”, como se chamava o bairro das Mercês pelos polacos. Poderia vir a ser um livro biográfico sobre a família de imigrantes, os Urbans?

Tenho sido provocado com relação a essa história, não creio que eu tenha fôlego para esse desafio. Ainda não. Tenho até um certo compromisso com meu irmão nesse sentido, que já tem uma grande pesquisa sobre a família, mas não quero encarar como coisa encomendada. Acho que, se um dia acontecer, será realmente alguma coisa sobre o “Campo da Galícia”, onde a família entrará, mas não como foco principal. A Teresa também foi provocada nesse sentido.

Serviço

Benedito Rosário – Novela

Autor: João Urban

Editora: Confraria do Vento, Rio de Janeiro

Ano: 2019

Lançamento: 7 de maio de 2019

Local: Bar Ornitorrinco, a partir das 19 horas

Endereço: R. Benjamin Constant, 400 – Centro, Curitiba

 

Legendas:

Abre: Manuela Salazar
Foto 1: Irmo Celso
Foto 2: Kraw Penas
Foto 3: Daniel Castellano

 

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