Minha experiência com a alta tecnologia!

Acabo de voltar de Snowmass onde fiquei em um hotel estilo design e bem novo. Quando entrei me chamaram a atenção as cores, as peças que substituem uma parede, a ausência de pessoas trabalhando no hotel, a quantidade de iPads espalhada por esse lugar.

Bom, assim que cheguei peguei um dos iPads e fiz meu check-in. A chave do meu quarto era a imagem de um cartão no meu celular. Assim que entrei no quarto, percebi que os detalhes eram todos verdes. Pareciam representar a luz verde dos eletrônicos que nos rodeiam. Logo ouvi a TV ligada com uma mulher muito elegante me explicando, em uma reportagem, como funcionava o hotel. Resumindo, parecia que todos os trabalhadores estavam por trás dos celulares e dos eletrônicos.

Em seguida fui alugar meu esqui. Também tudo só com tecnologias. Primeiro, cheguei em uma sala, coloquei meu pé em uma máquina para tirar a medida e a maneira como eu piso. Depois passei para o step 2 e fui para a segunda máquina que mediu a minha altura. Assim cheguei ao step 3 e, com um número na mão, fui até o exato lugar onde encontrei o esqui.

Surpresa: não existia cadeado! Para eu retirar o esqui, coloquei um código de barras que estava no celular.

Como eu já estava um pouco cansada da viagem, voltei para o hotel pensando em passar no restaurante e pedir algo rápido para comer. Notei, porém, que não havia um espaço entre quatro paredes chamado restaurante. Bastou eu me sentar em um dos lugares mais confortáveis do andar térreo, pegar um iPad e fazer o pedido. Não me pergunte como, mas em 10 minutos chegou uma pessoa com uma bandeja e me entregou sem fazer nenhuma pergunta. Fiquei pensando: “Como ela tem tanta certeza que fui eu quem pediu o prato?” Depois de jantar, peguei o iPad novamente e percebi que logo no início, quando clicava no famoso “accepted”, havia um parágrafo dizendo que o iPad estava me filmando.

Nesse momento, confesso ter ficado um pouco irritada! E comecei a pensar comigo mesma até que ponto tinha minha individualidade? Ao mesmo tempo, olhei aquele espaço sem parede e com várias pessoas andando em diferentes direções e sem nenhum limitador como placas, paredes, espaço entre funcionário e hóspede, sem horário de ir e vir. Logo me perguntei: “Estamos livres?”

Tive uma sensação de estar livre de todos e de quase tudo! Esse quase tudo foi quando eu pensei em quantos “Ok, I accept, I agree” eu apertei naquela bendita máquina! Comecei a ficar desesperada! Pensei “Será que vou perder toda a minha liberdade para uma máquina?”

Achei melhor não ficar pensando muito e fui dormir. Mas no dia seguinte, às 7h15, tocou um despertador dizendo “sua aula de esqui começa em 35 minutos”. Falei comigo mesma: “Como esse bendito sabe da aula e me ousa acordar?” Mas prometi não pirar com isso é fui tomar café da manhã onde me servi de pão com manteiga e sentei em uma mesa coletiva para fazer novas amizades. Porém, quando comecei a falar com uma pessoa do meu lado, o iPad da minha frente disse: “Você precisa comer proteína para exercícios… os ovos estão uma delícia.” Tive vontade de quebrar aquele iPad! Que ousado! Ainda interrompeu a minha conversa!!! E eu, idiota, peguei o ovo!

Bom, fui para a aula e lógico que por meio de máquinas encontrei meu professor. A aula, as pistas pelas quais descemos, a velocidade e o tempo, tudo estava calculado em um aplicativo do celular. Até um certo ponto achei bem interessante: mediu meu batimento cardíaco, me falou quantas calorias eu queimaria e quantos quilômetros esquiamos. Mas quando estava descendo uma montanha, voltei a me perguntar: “Será que estou esquiando livremente?” Parecia que aquele aplicativo do iPhone tinha mais conhecimento e moral que o professor. Pois eu via que o professor mais olhava o telefone que os alunos.

Terminou a aula, voltei para o hotel e resolvi me libertar! Desliguei o celular! Me senti mais leve. Ufaaa! Mas infelizmente isso durou pouco. Meu dia não acabou assim.

Quando anoiteceu e tive que ligar a luz do quarto, acredite ou não, precisei ligar o celular! Pois aquela chave estilo cartão não existia! O comando da luz, TV, chuveiro e etc. estava no bendito aplicativo do hotel ou da prisão, pensei irritada!

Essa viagem durou sete dias intensos. Tive que me acostumar um pouco à alta tecnologia, mas nas 12h de voo internacional pensei e pensei na minha liberdade e individualidade.

E acho que encontrei uma frase para finalizar minha experiência: “A nossa alma é prisioneira do nosso corpo. Nosso corpo se encontra prisioneiro de tecnologias hoje”. Sendo assim, espero conseguir ser eu mesma através do meu ser. Sem aplicativos me manipulando com hora de dormir e o que comer e também sem me deixar levar pelas influências de redes sociais que ditam tendências e o paraíso que não existe. Até porque esse paraíso precisa estar dentro de nós mesmos.

Chego a Curitiba, minha cidade. O telefone começa a tocar, alguém pergunta como estou. E falo com pessoas e não aplicativos. Entro no táxi e digo “bom dia” para uma pessoa. Chego ao meu prédio e o porteiro me pergunta como fui de viagem. Entro no elevador e alguém comenta sobre o frio que fez… Sempre achei isso algo bem normal. Mas acho que a partir dessa viagem meu ponto de vista mudou e bastante.

Espero poder contar novas experiências na minha próxima viagem.

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