Misiones II

O segundo dia estava ensolarado em Misiones e o frio intenso da véspera dera uma trégua. A nosso pedido, fomos deixados na fronteira pelo pequeno italiano que voltaria ao centro de Puerto Iguazu para negociar seus queijos, embutidos e vinhos os quais comercializava em Curitiba. Isso, sem dúvida, pagava suas andanças pelas jogatinas da vida. Pois é na fronteira do lado argentino que existe um duty free para compras de importados sem ter que se ir ao Paraguai.

Atravessamos pela aduana a pé e depois das compras voltamos para apanhar um táxi. Ali constatamos que teríamos que aguardar um bom tempo, pois táxis são raros naquele pueblito. No entanto, para a nossa surpresa, de repente um ônibus vazio para bem na nossa frente, em um ponto colado à aduana argentina. Todos se olham. Eu desconfio. Um dos amigos propõe pegar o ônibus que ia até a rodoviária do lugarejo e de lá ir a pé para o hotel. Eu digo para esperarmos um táxi por causa das sacolas. Os outros dois concordam que entrar naquele ônibus era o mais lógico a fazer, e me acusaram de “frescura”. Sou voto vencido. Insisto no táxi e na desconfiança, mas embarco assim mesmo só para ser solidário com aqueles “unhas de fome” que preferem pagar uma passagem barata e o desconforto a esperar um táxi. Sentados, ficamos lá aguardando por uns dez minutos o motorista dar a partida. O ônibus vazio, só para nós. Começo a pensar que sou fresco mesmo, afinal não tínhamos compromisso algum e o que custava pegar um ônibus, cazzo?

Todos sentados no coletivo vazio, sacola de importados às mãos, e o tempo se arrastando lá fora. Começamos a conversar planejando nossa segunda noite de forma tranquila. Olho pela janela e penso que o tempo parou na pequena Puerto Iguazu. Fico imaginando quanto desperdício naquele ônibus vazio só para nós e no quanto tinha sido tão intransigente em ser contrário a apanhá-lo. Ledo engano!

Eis que de repente uma horda maltrapilha invadiu o coletivo. Um cheiro desagradável imediatamente impregnou todo o ambiente. A maioria carregando enormes pacotes de mantimentos baratos e tralhas de todos os gêneros. Crianças sujas e malcuidadas choravam e gritavam sem parar. Um idoso todo urinado posicionou-se em pé no centro do ônibus espalhando um odor insuportável. Em segundos o lugar virou um inferno. Olho para fora tentando verificar de onde teria saído aquela turba e constato a armadilha não percebida. Aquela gente pobre retornava ao Brasil onde fora efetuar compras de mantimentos mais baratos, trabalhar ou mesmo esmolar. Estavam parados na aduana argentina se identificando, enquanto o ônibus e seu motorista passaram antes para aguardá-los do outro lado. Olhei para um amigo à minha frente umas quatro fileiras e o fuzilei com um olhar mortal. Ele simplesmente desandou a rir convulsivamente. O outro, na janela do banco ao lado, disfarçava um olhar perdido para fora, revelando sua intenção de não ceder seu lugar às mulheres ou aos idosos. Naquela altura, ficar de pé seria fatal. O ônibus infeliz só partiu meia hora depois, socado de uma miséria assustadora. E nós, ali, sentados e envergonhados, escondendo artigos de luxo comprados sei lá pra quê, entre as pernas. Se o trajeto demorasse mais do que os vinte minutos que durou, sairia dali transformado em um bolivariano.

Como nem tudo é miséria em Misiones, resolvemos selar nossa última noite na província com classe e elegância jantando no resort do Casino Iguazu, tido como o melhor da região. Restaurante de primeira linha, decoração impecável, um maître atencioso e um sommelier competente fez da nossa refeição uma comemoração. Vieram os camarões, os risotos e as massas. Champanhes e vinhos safrados que ao som afinadíssimo de uma harpa tocando freneticamente La Cumparsita, embalaram nossos sentidos. Brindamos à vida e à amizade e esquecemos aquele ônibus dos infernos.

Ao final, todos animados, pedimos a conta, não sem antes dois dos amigos sacarem seus reluzentes cartões de clientes vip do cassino e solicitarem o que tinham direito: um desconto de cinquenta por cento naquela conta dos diabos. O garçom disse que seria um prazer atender a merecida requisição de jogadores tão afamados. Passados dez minutos, eis que volta o jovem plongeur todo desconfiado. Constrangido, sussurra que lamentava muito, mas o cassino não daria desconto algum, pois o perfil de jogadores de ambos não permitia o mimo solicitado. Que desfeita! Gritou um deles, proferindo impropérios impublicáveis. O outro e o italiano ficaram atônitos e sem reação. Só me restou explodir em gargalhadas. Envergonhado, o garçom saiu brevemente e retornou informando ‒ com um sorriso amarelo ‒, que o próprio restaurante daria um desconto de vinte por cento para acabar com aquele mal-entendido. Aceitamos com um sorriso amarelo, agradecemos e saímos rapidamente.

Fomos então ao salão de jogos porque foi para isso que viemos a Misiones. Meia hora depois, encontro um dos amigos ainda colérico informando que acabara de deixar no livro de reclamações do resort toda a sua indignação, consignando que fora mais bem tratado no Bellagio em Las Vegas recentemente. Naturalmente esquecendo que estava no Terceiro Mundo na carente Província de Misiones e que o restaurante não era o El Andariego.

No salão dos cassinos nos vingamos, conseguindo tirar o dinheiro deles e dos comerciantes da região de Foz, pois na mesa de Poker Texas H’oldem limpamos todos os adversários que sentaram para nos enfrentar e só paramos às 3h da manhã porque o cassino resolveu encerrar a mesa sem nos consultar, naturalmente tentando evitar um incidente internacional com o Brasil. Fomos para o hotel dormir, pois o objetivo fora alcançado: quebramos os cassinos argentinos!

Depois de um sono reparador, tomamos um ótimo café da manhã enquanto prometíamos novas aventuras no futuro. Quem sabe Las Vegas ou Estoril? O italiano nos queria o Estoril por ter intimidade com o lugar, já que trabalhara em um restaurante na frente do cassino. Abraçamo-nos efusivamente, nos despedimos alegres e felizes e retornamos para nossas casas.

Certo dia, há poucos anos, de fato nos aventuramos em Estoril, mas essa é outra história. Adios, Misiones!

Essa crônica é uma homenagem aos amigos José Bonifácio (Boni), Ângelo e Luiz Alfredo.

 

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