Saint-Exupéry e “Le Petit Prince”

Todas as grandes obras da literatura universal, aquelas em que mais indelevelmente ficaram gravadas as impressões digitais do gênio dos seus autores, situam-se, via de regra, em dois polos distintos: ou são extraordinariamente complexas ou profundamente simples.

Como ilustração do primeiro caso, poderíamos citar, por exemplo, a obra de Kafka ou a de Shakespeare, a Divina Comédia de Dante ou o Fausto de Goethe, a Guerra e Paz de Tolstói ou Os Irmãos Karamazov, de Dostoiévski, o Ulysses de Joyce ou À la recherche du temps perdu de Proust, O Jogo das Contas de Vidro, de Hermann Hess, ou Cem Anos de Solidão, de Gabriel Garcia Marques. Para ilustração do segundo caso, um único exemplo será suficiente: O Pequeno Príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry. Com efeito, toda a grandeza da obra exupérina começa por residir e se manifestar na simplicidade extrema da sua tessitura, tanto formal, estética, como substancial, conteudística.

Concebido e realizado sob o signo incomparável da infância, decalcado e construído sobre uma visão sentida e autêntica da realidade infantil, O Pequeno Príncipe, mais do que uma recuperação magistral ou do que uma transposição fiel, é sobretudo a recriação da infância, do seu mundo encantado, da sua mentalidade e até, por que não dizê-lo, da sua filosofia. E sendo-o, no mais alto grau, será lícito afirmar que Le Petit Prince é também um livro para crianças. O também, aqui, tem uma importância capital, já que a mensagem do pequeno príncipe se destina, sobretudo, aos homens. Aos homens de todas as idades.

Eu sou da minha infância como de um país. Nenhuma outra frase de Saint-Exupéry exprimirá, com maior densidade, a impressão indelével que nos fica da leitura do pequeno e, à primeira vista, inexpressivo volume.

Em última análise, quem é mesmo o pequeno príncipe? Que representa ele, para lá dos traços epidérmicos que o envolvem? Em que se constitui ele, no sentido mais profundo, nuclear, ontológico? Mais do que uma suavíssima alegoria (não tão suave, é certo, em alguns momentos), pintada com tintas leves, mesclada, aqui e ali, por um colorido amargo, mais do que um conto de fadas ou uma história fantástica onde o maravilhoso e o onírico coexistem e se entrelaçam, o “pequeno príncipe” é, acima de tudo, um retrato (o autorretrato do autor?) do homem situado na vida, suspenso no mundo, enredado no labirinto existencial, carregando às costas o fardo dos “velhos problemas”.

Na infância, contudo, não existem problemas. Pelo menos problemas “seus”. Apenas os problemas dos “outros” e das outras “coisas” que existem “lá fora” possuem, verdadeiramente, valor. O egoísmo, então, ainda não germinou. A angústia, o desespero, a náusea ainda não deram os seus frutos ácidos.

Quem são, na realidade, o príncipe e o aviador? Uma só pessoa: Antoine de Saint-Exupéry. Ao contrário do Dom Quixote, em cujas páginas Cervantes se coloca entre os dois personagens, numa postura de total neutralidade, testemunhando, impassível, a insanidade do velho fidalgo manchego e as loucuras do escudeiral Sancho Pança, no Pequeno Príncipe os dois personagens são o próprio autor: a cara e a coroa da mesma moeda. O diálogo é, na realidade, um monólogo de quem já foi criança e que, não o sendo mais, tem no entanto tatuadas no espírito – mais do que na carne – para todo o sempre, as cicatrizes indeléveis da infância que ficou para trás, como um país de onde se emigrou há muito.

Um grande crítico considerou O Pequeno Príncipe um dos poucos livros verdadeiramente inspirados já escritos. Não devemos, contudo, esquecer a resposta dada por Baudelaire à leitora que elogiara a sua inspiração genial: L’inspiration, madame, c’est travailler tous les jours.

Nessa resposta do autor de Les Fleurs du Mal, podemos vislumbrar algumas das razões que ajudam a compreender a grandeza da criação exupériana, a “facilidade” sem rival (ou talvez, com a sombra de Flaubert) com que a sua prosa se oferece ao leitor. A conquista dessa facilidade foi penosa e difícil. O seu duelo com o verbo nada teve de metafórico ou imaginário.

Quando Saint-Exupéry se lamenta de não fingir suficientemente, a sua afirmação deverá ser entendida nos devidos termos: de fato, toda a criação é ou, pelo menos, deverá ser a expressão artística da verdade. O lamento, contudo, tem uma dose excessiva de pessimismo, porquanto em nenhum outro livro o autor de La Terre des Hommes fingiu tão profunda e sentidamente como no Pequeno Príncipe. O que equivale a dizer (lembremos os versos de Pessoa) que nunca ele foi tão verdadeiro.

Que dizer sobre os propósitos de Saint-Exupéry ao escrever a sua história? Quero crer que não podem existir quaisquer dúvidas acerca do seu aspecto moral, muito embora a alguns críticos repugne (paciência…) essa característica primordial da criação exupériana (como a tônica amoral é dominante na de Gide). Entretanto, parece-me indiscutível que O Pequeno Príncipe é tributário e se insere numa órbita de moralismo puro, não do falso moralismo, do moralismo entre aspas de que tantos se fazem os arautos impenitentes. Dentro, naturalmente, de uma compreensão crítica racional, despida de preconceitos vesgos de escola, método ou sistema…

É certo que o autor de Cidadela (por favor, não confundir com o romance de Cronin…) e de Voo Noturno afirmou que não gostava de prendre le ton d’un moraliste. É compreensível a afirmativa e, mais do que isso, a intenção com que a fez: com efeito, ele não possui o tom – com tudo o que de artificial e de empostado o termo comporta e traduz –, mas é um autêntico moralista. Sem premeditação. Sem hipocrisia. Simplesmente. Naturalmente. Da mesma maneira que Manuel (Bandeira de todos nós) faz versos como quem chora e Pablo Neruda, si lo quisiera faria certamente los versos más tristes naquela noite estrelada…

Humanista radical, Saint-Exupéry sentiu, como poucos escritores, a necessidade imperiosa de falar aos homens. De superar as barreiras do silêncio e da incompreensão que os separam. De ser solidário com eles. De compreendê-los. De amá-los.

Para isso, fez uma viagem às origens de todos os homens. Buscou o seu denominador comum. Recriou aquele substrato que todos possuem, sedimentado no mais profundo de si mesmo: a infância. Esta será (na sua fruição plena) o trampolim para a fraternidade humana.

Por outro lado, a afirmação de Saint-Exupéry de que o príncipe existiu porque era encantador, ria e queria um carneiro é a máscara que encobre o seu pudor de afirmar a verdade integral: como Flaubert – e com mais razão do que Flaubert – também ele poderia afirmar que le petit prince c’est moi…

Apesar de todas as concessões à retórica que possamos detectar de onde em onde, não há dúvida de que O Pequeno Príncipe é uma obra plenamente realizada. Estética e existencialmente.

Na verdade, a vida do pequeno príncipe não se extinguiu nas páginas breves do livro. O seu ocaso, mais trágico, ocorreu efetivamente no dia 31 de julho de 1944, no Mediterrâneo, nas imediações da Córsega. E a sua queda não foi tão doce como a de uma árvore que tomba.

Se, como diz Keats, a thing of love is a joy for ever, o Pequeno Príncipe – Senhor das Areias, Rei do Sol, Antoine Saint-Exupéry – continua vivo. Vivo com aquela vida esplêndida que só os grandes criadores conseguem realmente viver, pairando acima, muito acima da fugaz “terra dos homens”…

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