Viver é muito perigoso

Para Deniz Abruzzo, a fotografia é uma arma em forma de arte contra as armadilhas do tempo. Elas carregam movimento e identidade. Guardam fragmentos das nossas vidas e, em consequência, respiram por si mesmas. Elas marcam períodos e dão ângulos e pontos de vista, não revelam, mas mostram um sentimento. Tornando-se pontes para essas sensações preciosas que guardamos no coração e que o dia a dia e a rotina, sorrateiramente, cobrem e nos fazem esquecer.

Amante da fotografia, Deniz encontrou na amizade com a artista Mauren Miranda a inspiração para mais este editorial.

Assim começaram as divagações sobre a criação da capa desta edição e que resultaram neste trabalho: um ensaio fotográfico com o tema da violência contra a mulher.

Após o convite da revista Ideias para expor o resultado das fotos, Deniz chamou sua amiga e parceira, a designer Kathya Campos, para a concepção da capa.

E é ela que explica a seguir a sua inspiração para criá-la.

“Ao ver a imagem da atriz com seu figurino em fundo infinito, lembrei de um trecho do poema de Florbela Espanca, poeta portuguesa:

‘Ó mulher! Como és fraca e como és forte!

Como sabes ser doce e desgraçada!

Como sabes fingir quando em teu peito

A tua alma se estorce amargurada!’

Nesta imagem de mulher − tanto na fotografia do Deniz como no poema de Florbela −, não se sabe qual dor a aflige, qual perda a angustia.

Então começaram a surgir as inspirações:

A mulher trazendo um sentimento de dor,

As flores a fragilidade,

O traje situando o tempo nos anos 20, Art Nouveau,

A inspiração de um artista, Alphonse Mucha

Um local, o Palácio Belvedere em Curitiba.”

Mauren Miranda: atriz e modelo das fotos
Deniz Abruzzo: fotógrafo e editor de imagem
Marcos Michelato: artista 3D
Kathya Ferreira Campos: direção de arte

“Quem fez do homem o juiz exclusivo, se a mulher compartilha com ele o dom da razão?”

Mary Wollstonecraft (1792)

“A credibilidade é uma ferramenta básica de sobrevivência. (…) A violência é uma maneira de silenciar as pessoas, de negar-lhes a voz e a credibilidade, de afirmar que o direito de alguém de controlar vale mais do que o direito delas de existir, de viver”

Rebecca Solnit (2017)

Atravessar a vida sem risco é privilégio. Guimarães Rosa alertava, viver é muito perigoso, travessia perigosa. Mulheres entendem

Jessica Stori

A briga começou às 23 horas. Os vizinhos ouviram, ligaram para a polícia oito vezes até 2h20 da madrugada. “É que tá tendo uma briga (…) A mulher tá gritando socorro aqui na rua”. Daniela Eduarda Alves, casada há três anos com Emerson Bezerra da Silva. A polícia anota a ocorrência e nada. Anota mais uma vez e nada. Vizinhos ligam novamente. “A mulher está gritando. Eu acho que ele até matou”. “Não podemos fazer nada agora”. Vizinhos insistem, mas lá no bairro Santa Terezinha, na Fazenda Rio Grande, na noite do dia 14 de janeiro de 2019, Daniela já estava morta. Assassinada pelo marido. Oito chamadas à Polícia Militar do Paraná, que não chegou. Daniela foi morta em frente à filha de três anos a facadas. Mais um caso de feminicídio no Brasil.

Ainda antes do dia 14 de janeiro de 2019, no dia 8, 21 casos já teriam sido registrados no Brasil. 21 mortes e onze tentativas de assassinatos noticiados pela imprensa até o dia 6 de janeiro. Agora existe um levantamento atualizado continuamente numa pasta do Google Drive, pelo pesquisador Jefferson Nascimento, doutor em Direito Internacional pela Universidade de São Paulo (USP), onde as tentativas e os crimes consumados já ultrapassam o número de 300 vítimas. 221 casos de feminicídio no Brasil até o dia 12 de março de 2019. Nazaré, Thamires, Elaine, Luana, Eronilda, Sandra, Rita, Elma, Maria, Francisca, Layane, Ágatha, Quelly, Isabele. Nomes de vidas, de mulheres com suas histórias interrompidas.

Pra quem? Por quê?

Antes de mais nada, o feminicídio é o assassinato da mulher por sua condição de mulher. A mulher é morta pelo controle de sua vida em outras mãos. Pelo ódio e pelo machismo cultural, pela misoginia socialmente explorada e historicamente construída, do homem e seu sentimento de posse e de superioridade em relação à mulher. Em 2013, a Comissão Parlamentar Mista de Inquérito sobre Violência Contra a Mulher, em seu Relatório Final (CPMI-VCM), descreveu o feminicídio como a instância última do controle da mulher pelo homem: o controle da vida e da morte. “Ele se expressa como afirmação irrestrita de posse, igualando a mulher a um objeto, quando cometido por parceiro ou ex-parceiro; como subjugação da intimidade e da sexualidade da mulher, por meio da violência sexual associada ao assassinato; como destruição da identidade da mulher, pela mutilação ou desfiguração de seu corpo; como aviltamento da dignidade da mulher, submetendo-a a tortura ou a tratamento cruel ou degradante.”

O feminicídio é o ponto final de trajetórias, mas é também a última etapa de outras violências que levam à morte. Antes do assassinato, muitas mulheres passam por outras formas de abusos que já indicam a situação de vulnerabilidade. No Brasil, a crise generalizada de assassinatos de mulheres traz a grande preocupação de se darem com maior frequência dentro da casa das vítimas, pelos parceiros ou ex-parceiros. Muitos não aceitam o comportamento da mulher, não aceitam o fim da relação, assumindo uma postura de controle sobre a vida de suas ex-parceiras, abusam sexualmente, torturam e/ou mutilam antes ou depois do assassinato, de acordo com o levantamento do Dossiê Violência Contra as Mulheres da Agência Patrícia Galvão.

O Brasil está entre os países com maior índice de homicídios de mulheres. Ocupa a quinta posição no ranking de 83 países, de acordo com o Mapa da Violência de 2015 (Cebela/Flacso). E piora: de 2003 a 2013, o número de mulheres assassinadas aumentou 21%. De 3937 para 4762. Em 2013, o número chegou a 13 homicídios diários de mulheres. Diante das estatísticas e das causas avaliadas com similaridades entre justificativas, meios e etapas até o crime, a necessidade da lei foi levantada a partir da CPMI, que investigou os casos de violência contra as mulheres no Brasil. Prevista na legislação e com entrada em vigor em 2015, a Lei nº 13.104/2015 prevê o feminicídio como a circunstância que qualifica o crime: “violência doméstica e familiar e/ou menosprezo ou discriminação à condição da mulher”. Crime hediondo ao lado de estupro, genocídio e latrocínio. A pena de reclusão é de 12 a 30 anos.

Urgência de significado e visibilidade: combate já, combate estrutural

Lourdes Bandeira, socióloga, pesquisadora e professora da Universidade de Brasília, descreveu a situação do Brasil nos casos de feminicídio como “equivalente a um estado de guerra civil” (Dossiê Violência Contra as Mulheres da Agência Patrícia Galvão). Tanto pelos dados já elencados, como pela própria situação de completo descontrole, pois é o lar o espaço de vulnerabilidade das mulheres no Brasil. Dos 4762 assassinatos de mulheres em 2013, 50,3% foram cometidos por familiares e 33,2% foram praticados pelo parceiro ou ex-parceiro. Ou seja, o local de risco é a própria casa da vítima, diferente dos outros países da América Latina, onde esses assassinatos geralmente estão relacionados à violência sexual por desconhecidos. No Brasil, as vítimas já tiveram ou possuem relação com o agressor/assassino: “O número de mortes de mulheres por pessoas que não são da sua intimidade é bastante inferior ao dos homicídios praticados no espaço doméstico”, afirma Leila Linhares Barsted, advogada, diretora da ONG Cepia – Cidadania, Estudo, Pesquisa, Informação e Ação.

Além dos dados que assustam, de acordo com a pesquisa Violência e Assassinato de Mulheres (Data Popular/Instituto Patrícia Galvão 2013), a população brasileira percebe com naturalidade o crime, é comum, e ainda existe o caráter do racismo aliado à misoginia do feminicídio. Em 10 anos (2003-2013), o homicídio de mulheres negras aumentou 54%, enquanto o de mulheres brancas diminuiu 9,8% (Mapa da Violência de 2015). Mesmo com a baixa diminuição no caso de mulheres brancas, o caso das mulheres negras se torna evidente diante da ausência do debate racial no combate à violência contra a mulher.

Em 1986 foi compartilhada a primeira campanha contra a violência sob reivindicação do movimento feminista. Após o Conselho Nacional dos Direitos da Mulher em 1985, a campanha foi: “Denuncie a violência contra a mulher”. Direito adquirido depois de muita obstinação da luta feminista e de leis colocadas abaixo por mulheres que ousaram questionar estruturas rígidas. Estruturas persistentes construídas junto da inclusão colonial no Brasil: racismo que escravizou, machismo e patriarcado que submeteram mulheres a leis como a do Código Filipino, presente na legislação do país até o século XIX, que permitia que o marido assassinasse a esposa adúltera, ou como as Leis Penais de 1932, que exigiam cumprimento de um a três anos de prisão à mulher que vivesse uma relação extraconjugal. Essas são informações estudadas, levantadas e escritas por historiadoras que não deixam que as memórias de mulheres e lutas feministas sejam compartilhadas por elaborações equivocadas. Feministas do passado e  insurgências necessárias como as de hoje, que continuam, repetida e incansavelmente, expondo e denunciando as estruturas que persistem na exploração dos mesmos corpos: mulheres, povo negro, pobres, indígenas, imigrantes.

No capitalismo munido de racismo e de machismo, com suas raízes profundas e alimentadas constantemente, as possibilidades se mostram a partir de uma sociedade punitivista: encarceramento em massa, isenção de transformação. A lei existe pela urgência das etapas de violência e pela ausência de credibilidade e de direitos básicos às mulheres que já sofrem, antes da morte, violências múltiplas. Pois como as historiadoras levantaram, além do reflexo na legislação, “a ideologia patriarcal banaliza e justifica diversas formas de violência cometidas contra as mulheres, criando na sociedade um sentimento de tolerância, que dificulta ou mesmo impede a punição desses atos”, mesmo quando previstos. Para a extinção de violências, a educação da população não pode mais ser baseada em masculinidades tóxicas que matam.

Algo de transformador precisa ser almejado aliado ao combate à violência cujo nascimento e criação é possível visualizar. Conjuntamente repensar nossa estrutura é necessário. Criar meninos que não aceitam “não” como resposta, meninos que precisam ser machos, provedores e insensíveis e meninas que suportam todas as dores, vivem jornadas triplas de trabalho, aceitam seus homens e seus instintos invencíveis não cabe numa sociedade que se quer justa. O ensino precisa ser liberto, as estruturas de exploração e opressão precisam ser questionadas, rompidas e extintas.

O momento de as pessoas perceberem a pluralidade em si e ao seu redor chegou e não pode mais esperar.

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