Dos bilhetinhos ao Twitter

Há semelhanças entre as escaladas de Jânio Quadros e Jair Bolsonaro, o primeiro com os bilhetes moralistas e o segundo com seu relacionamento sistemático junto à militância, que insiste em cultuar como se permanecesse em campanha. Objetivo de ambos: a intimidação e a manutenção do estilo.

Se Jânio criou ou não um clima para a sua volta nos braços do povo é uma hipótese bastante razoável, pois suas dificuldades no relacionamento com o Congresso eram visíveis como as que hoje se dão com o atual presidente em que pese a urgência das reformas para destravar a economia e sua falta notória de articulação. Enquanto, porém, há previsões (pesa no caso o desejo da esquerda derrotada) de que Bolsonaro como Jânio não termine o mandato, percebe-se que esse tipo de advertência não é suficiente para tirar o presidente e seus seguidores das teclas do Twitter (sua conta subiu de 2,7 milhões para 3,9 milhões) e no Instagram atingiu na primeira quinzena de abril a marca de 11,2 milhões de seguidores com acréscimo recente de quase três milhões.

No seu raciocínio, isso bate qualquer sinistrose de pesquisa de Datafolha ou Ibope ou todos esses milhões de eleitores estariam fora dos radares das sondagens? Como Jânio confiava na eficácia popular dos bilhetes proibindo de briga de galo ou canário a desfile de miss, Jair crê no fervor da militância. Perdeu, como se viu ao longo dos cem dias de gestão, popularidade nas pesquisas, porém teve acréscimo de seguidores nas redes sociais nas quais opera como avalista, ratificador de “memes” gerados por ele e equipe.

Nas amostragens, todas as teses que verdadeiramente importam, como a da posse de armas, a rejeição tanto à reforma da Previdência como ao pacote de Sergio Moro, quebraram a cara e o governo se anestesia e se isola na plataforma digital.

Talvez as semelhanças se limitem ao jota do nome de ambos, mas quando Jânio vislumbrou golpe apostava na figura perturbadora do vice João Goulart, que não era seu companheiro de chapa (a disputa aí era pelo voto direto), levava jeitinho de esquerdista e ainda por cima estava em viagem à China Comunista. E o vice de Jair, milico, para surpresa geral, é, como a maioria dos militares no governo, antes de tudo, um mediador conciliatório.

Se a história se repete como farsa no receituário do “marxismo cultural”, temos aí um prato cheio para reflexões, incluindo as sem nenhum sentido, essência do nonsense.

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